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O trabalho com crianças e adolescentes que apresentam sofrimento psíquico decorrente do abuso e/ou qualquer outra violência é extremamente difícil e transformador! Em 04/04/2017, foi publicada a Lei 13.431 que estabelece o sistema de garantia de direitos da criança e do adolescente vítima ou testemunha de violência e altera a Lei 8.069 de 13/07/1990 (ECA). Em 10/12/2018, foi publicado o Decreto 9.603 que regulamenta a Lei nº 13.431, de 04/04/2017. Através do diagnóstico realizado pela Secretaria Municipal de Saúde em junho de 2023, foi constatado que 729 estão em atendimento no caps ij, desses 178 são adolescentes e 273 são crianças, cerca de 62% vivenciaram ou vivenciam situações de violências e apresentam sofrimento psíquico. Nesse contexto, representantes da Secretaria de Saúde e a Secretaria de Assistência Social, identificaram a necessidade e importância de construir o fluxo de atendimentos às crianças e adolescentes vítimas de violências, com a participação ativa de gestores, profissionais de saúde, assim como a rede de apoio intersetorial (educação, assistência social, SAMU, urgência e emergência, justiça, esporte, lazer, guarda municipal, polícia militar, delegacia de polícia, defensoria pública, ministério público). Foi criada comissão constituída pela Portaria GP 117 de 21/05/2021, “Comissão Intersetorial para construção e monitoramento do Programa de Atendimento às Crianças e Adolescentes em situação de violência a que se refere o Decreto 21.777 de 10/05/2021.
Construir o fluxo e protocolo de atendimentos às crianças e adolescentes vítimas de violências no município de Araçatuba, através da escuta de todos os serviços que exercem a proteção e o cuidado a este público, fortalecendo a integração entre os pontos de atenção. Garantindo de fato, que a vítima após a revelação espontânea fosse “ouvida” uma única vez, através da escuta especializada, evitando a revitimização em cada serviço que necessite de atendimento.
A comissão, visando alinhamento conceitual e entendimento entre os participantes, realizou várias reuniões com objetivo de integrar os pontos de atenção da rede de cuidado e proteção em todas as suas instâncias, conhecer, compreender a importância e o trabalho de cada serviço convidado para discussão do fluxo. As reuniões mensais contavam com a presença das Secretárias de Saúde, Assistência Social e representantes de serviços ou órgãos que atendem o referido público. Após 8 meses de muitos encontros, desagrados e surpresas, finalizamos o desenho do fluxo e o protocolo, a ser compartilhado para toda a rede e organizada capacitação para todos os profissionais que trabalham com crianças e adolescentes. Uma apresentação foi realizada em dezembro de 2021 para toda a rede intersetorial, representantes do judiciário e autoridades. Em março de 2022 iniciamos as capacitações com os profissionais da urgência e emergência, sendo a 1ª capacitação sobre a “revelação espontânea” que foi direcionada a todos os profissionais de todas as funções da unidade e a 2ª sobre a “escuta especializada” para os profissionais de saúde com perfil para “acolher”, com a tarefa de escutar a vítima com empatia, colhendo dela todos os dados pertinentes ao seguimento do cuidado na rede, sem revitimizá-la. Em cada dia de capacitação, ouvimos relatos de angústia dos profissionais frente as situações de violências, alguns se emocionaram e outros compreenderam a necessidade de acolher com empatia e solidariedade
Os encontros entre os diversos serviços se tornaram um espaço potente, possibilitando a discussão e reflexão a respeito das diversas práticas de trabalho, mediante a troca de saberes e experiências dos participantes. O fluxo é a ferramenta que assegura proteção à vítima, a qualificação da saúde e assistência, permitindo maior segurança dos profissionais frente às condutas legais, judiciais e terapêuticas. Com a divulgação do fluxo e capacitação dos profissionais da rede foi possível diminuir a exposição das vítimas e encaminhamentos desnecessários, proteção contra qualquer tipo de discriminação e garantir prioridade absoluta de pessoa em desenvolvimento, identificar casos de violência dentro das escolas e projetos sociais, ampliação da rede de cuidados e proteção, garantia de ser assistida por profissionais capacitados dentro dos espaços coletivos para a escuta especializada e de atendimento médico e psicológico imediato, digno e abrangente à vítima e familiares, garantia de viver, devidamente protegida em família e comunidade, garantindo a NÃO REVITIMIZAÇÃO. A construção do fluxo nos possibilitou conhecer espaços e serviços antes inacessíveis, assegurando aos profissionais que participaram do processo, responsabilidade e comprometimento na execução, equidade da assistência e importância do sigilo e defendendo o direito constitucional da criança e adolescente que devem ser protegidas de toda forma de violência, crueldade e opressão, assegurando vida digna e saudável.
“As coisas não são ultrapassadas tão facilmente, são transformadas” – Nise da Silveira. Foi desatando nós e costurando as pontas soltas da rede que foi possível ofertar acolhimento, escuta, cuidado e assistência integral às crianças e adolescentes. O Sistema Único de Saúde é um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo, é também um grande desafio para nós, que fazemos parte dele, garantir a gestão e execução das ações e dos serviços de saúde. Aos profissionais é necessário ter empatia e respeito na arte de cuidar de crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de violência. Uma pitada de amor em nosso trabalho pode salvar a vida inteira de uma criança violentada. Aos gestores cabe a tarefa mais difícil, descontruir pré e preconceitos tão arraigados em nossa sociedade e nos serviços públicos em geral, ampliando, implantando, integrando, qualificando e avaliando a efetividade das ações, garantindo integração dos pontos da rede e promovendo integralidade do cuidado. Cora Coralina, ainda hoje, define a construção do fluxo com muita maestria: “Em cada encontro, em cada contato, vou ficando maior. Em cada retalho, uma vida, uma lição, um carinho, uma saudade. Que me tornam mais pessoa, mais humana, mais completa
Escuta, empatia, olhar, acolhimento
Alessandra Maria Pedroso, Matheus Martins Garcia, Paula Roberta Pedruci Leme, Carmem Sílvia Guariente