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A valorização das identidades culturais no cuidado em saúde é uma estratégia potente para promoção da equidade, do pertencimento e da alimentação adequada e saudável, em sintonia com os princípios do SUS. No Ambulatório de Especialidades que atende crianças e adolescentes no município de Guarulhos (SP), identificou-se a necessidade de promover ações educativas mais conectadas às realidades socioculturais dos usuários. No contexto do Dia da Consciência Negra (20/11/2024), foi proposta uma atividade educativa com foco na herança da culinária preta e sua influência no padrão alimentar brasileiro. A ação objetivou promover o resgate de práticas ancestrais, o reconhecimento do papel da população negra na formação da nossa cultura alimentar e o fortalecimento do vínculo entre os usuários e o serviço. Além do aspecto nutricional, a atividade abordou aspectos históricos e sociais da alimentação, contribuindo para o combate ao racismo estrutural também na atenção à saúde. A iniciativa se destacou por integrar educação nutricional, cultura e escuta qualificada, favorecendo a participação ativa do público. A relevância da ação está em mostrar que o SUS pode — e deve — dialogar com os saberes tradicionais e com os territórios de onde vêm os seus usuários.
Valorizar a herança da culinária preta no contexto da educação alimentar e nutricional do SUS, promovendo um momento educativo, afetivo e cultural com os usuários do ambulatório de especialidades por meio de uma atividade interativa, com foco no reconhecimento das raízes africanas na alimentação brasileira. Como objetivos específicos: •Estimular o protagonismo dos usuários por meio da escuta ativa e da troca de memórias afetivas sobre a alimentação. •Proporcionar uma experiência sensorial e educativa com alimentos típicos da culinária preta. •Reforçar o vínculo entre a equipe de saúde e os usuários do serviço, fortalecendo o cuidado em saúde com base na equidade e na diversidade cultural.
A atividade foi planejada para o dia 20/11/2024, como parte da recepção dos usuários do Ambulatório de Especialidades. A organização incluiu reuniões de planejamento com os profissionais da equipe de nutrição e apoio de alunos voluntários de uma escola de gastronomia, que auxiliaram na preparação das receitas. Foram escolhidas quatro preparações típicas da culinária preta, com base em ingredientes e técnicas com origem africana: 1.Bobotie – prato de origem sul-africana à base de carne moída assada com ovos. 2.Pão com pimentões – preparação aromática e colorida que remete ao uso tradicional de hortaliças e especiarias. 3.Pérola negra – doce de feijão preto com coco e especiarias. 4.Mandioca doce – preparo afetivo com base na raiz símbolo da resistência alimentar afroindígena. No momento da recepção dos usuários, foi realizada uma fala breve e interativa sobre a presença da cultura africana na alimentação brasileira, com destaque para temperos como pimenta-malagueta, gengibre, coentro e louro. Durante a degustação, os usuários foram convidados a compartilhar lembranças afetivas relacionadas à comida e à família. Foram utilizados recursos próprios do ambulatório e materiais simples de baixo custo. A escuta ativa e a troca espontânea entre profissionais e usuários foram centrais para o sucesso da proposta.
A atividade teve grande adesão por parte dos usuários e da equipe, promovendo um ambiente acolhedor, educativo e afetivo. Houve participação ativa de crianças, adolescentes e seus responsáveis, com destaque para os relatos espontâneos sobre a importância da experiência, como: “Obrigado por nos proporcionar essa experiência única.” O evento também despertou memórias e reflexões sobre a cultura alimentar familiar, fortalecendo vínculos com o serviço. O envolvimento da equipe de saúde no preparo e condução da atividade favoreceu o sentimento de pertencimento e a escuta qualificada. Além disso, a ação possibilitou a integração de diferentes dimensões do cuidado: a técnica (informações nutricionais), a subjetiva (memórias e afetos) e a política (reconhecimento da cultura preta). A prática promoveu mudança no processo de trabalho da equipe, reforçando a importância de inserir a diversidade cultural nas ações educativas. Após o evento, a proposta de incluir outras datas simbólicas no calendário educativo do ambulatório passou a ser considerada com maior envolvimento dos profissionais.
A realização desta atividade mostrou que é possível promover ações educativas e culturais com baixo custo e alto impacto no SUS. A valorização da culinária preta como estratégia de educação alimentar revelou-se potente na construção de vínculos, reconhecimento de saberes populares e promoção da equidade. A experiência evidenciou que a alimentação pode ser um canal de escuta e fortalecimento da identidade dos usuários, contribuindo para um cuidado mais humanizado e integral. A ação também demonstrou aplicabilidade prática para outros serviços, podendo ser adaptada a diferentes contextos, públicos e temáticas. Como aprendizado, reforça-se a importância de incorporar a diversidade cultural como eixo estruturante da atenção nutricional e da promoção da saúde. Recomenda-se que experiências como esta sejam incentivadas como parte das rotinas de educação em saúde, contribuindo para um SUS mais inclusivo, sensível e transformador.
Culinária preta, Educação nutricional, Equidade
GILBERTO DE ALMEIDA GOMES, THIAGO NERI RODRIGUES DE AZEVEDO