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As Unidades de Acolhimento Infanto-Juvenil (UAI), reguladas pela Portaria nº 121, de 25 de janeiro de 2012, têm como propósito o acolhimento provisório de crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade social. O foco do atendimento é garantir que os jovens permaneçam dentro de seu território, tendo acesso a cuidados integrados de saúde, educação e apoio emocional, com ênfase na reintegração social e familiar. Este trabalho visa apresentar o caso de K.C.M., um adolescente que chegou à UAI em 2024, aos 14 anos, após vivenciar situações de abandono e convivência em abrigos (SAICA) e em situação de rua. O relato de sua experiência ilustra o impacto da inclusão do território como dispositivo de cuidado no fortalecimento de vínculos afetivos, no desenvolvimento do sentimento de pertencimento e na evolução do adolescente tanto no campo emocional quanto social.
Objetivo Geral: Refletir como outros o território, enquanto ambiente social e comunitário, serve como um dispositivo de cuidado essencial para o desenvolvimento emocional, a reintegração social e o fortalecimento dos vínculos afetivos de adolescentes em situação de vulnerabilidade. Objetivos específicos: – Compreender a importância das relações afetivas no território; – Pensar a relação entre o cuidado em liberdade e a evolução das relações familiares, observando a reconstrução do vínculo de K.C.M. com seus familiares. – Pensar sobre como a contribuição das atividades territoriais podem auxiliar na autonomia do adolescente e na transformação do seu comportamento.
A metodologia adotada para o caso de K.C.M. incluiu: 1. Acompanhamento no território: Integração em espaços sociais e comunitários, como lava-rápido e academia, para ampliar a rede de apoio social. 2. Cuidado psicossocial: Acompanhamento da equipe multidisciplinar para trabalhar a inteligência emocional e comportamentos problemáticos. 3. Reinserção escolar: Incentivo ao retorno à escola, com apoio da equipe da UAI e do CAPS, e diálogo com educadores para facilitar a adaptação escolar. 4. Apoio à reconstrução familiar: Mediação de contatos diários com familiares e visitas regulares para reconstruir vínculos familiares. Essas abordagens visaram promover a reintegração social, educacional e familiar de K.C.M., com foco no desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais.
– Relações afetivas e fraternais: As interações no lava-rápido e na academia foram fundamentais para o desenvolvimento de vínculos sociais mais saudáveis, nos quais K.C.M. foi aceito e valorizado por seus pares. Essa inserção na comunidade proporcionou-lhe um sentimento de pertencimento e valorização social, elementos essenciais para a recuperação de sua autoestima; – Autonomia e autorregulação: A construção de relações mais estáveis e positivas possibilitou ao adolescente maior autonomia nas atividades diárias (AVDs), como o cuidado com sua higiene pessoal e o cumprimento de tarefas cotidianas. Houve também uma mudança significativa em seus comportamentos, como a hostilidade e os conflitos agressivos que antes apresentava; – Reconstrução dos vínculos familiares: O adolescente retomou o contato com seus familiares, especialmente com tios e primos, e passou a realizar visitas semanais. Esse restabelecimento de laços familiares foi um passo importante para a criação de uma rede de apoio sólida e o fortalecimento de sua identidade social. – Inclusão escolar e social: K.C.M. não só conseguiu retornar à escola, como também estabeleceu melhores relações com colegas e educadores, com apoio constante da equipe de acompanhamento, o que contribuiu para sua inclusão social e educacional.
O caso de K.C.M. demonstra que o território, entendido como espaço comunitário e social, desempenha um papel fundamental no processo de transformação e reintegração de adolescentes em situação de vulnerabilidade. O cuidado em liberdade, que permite ao jovem manter suas relações com o ambiente familiar e social, foi decisivo para o fortalecimento do sentimento de pertencimento e da autoestima de K.C.M., promovendo o desenvolvimento de vínculos afetivos e relações sociais mais saudáveis. As experiências vividas em ambientes fora da instituição, como no lava-rápido e na academia, foram determinantes para a construção de uma identidade mais positiva e segura para o adolescente. Esse processo de cuidado em liberdade reflete a importância de estratégias integradas, que consideram as necessidades emocionais, sociais e familiares no processo de reintegração de jovens em situação de risco.
Cuidado psicossocial, Saúde mental, Acolhimento
GIOVANE FLORES NOGUEIRA, ELIANE DUARTE, MAURICIO DE ALMEIDA GONÇALVES