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A Educação Alimentar e Nutricional (EAN) constitui uma estratégia fundamental de promoção da saúde no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente quando desenvolvida a partir de metodologias participativas e articuladas em rede. No campo da saúde mental, as práticas alimentares estão diretamente relacionadas à autonomia, ao cuidado cotidiano e à qualidade de vida dos usuários. O Marco de Referência em Educação Alimentar e Nutricional orienta ações educativas que valorizam o saber culinário, o pensamento crítico e a consideração das condições sociais, econômicas e culturais dos sujeitos. Nesse contexto, a articulação entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e a Atenção Especializada em Saúde Mental fortalece o cuidado integral e a corresponsabilização entre os pontos da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). A experiência relatada justifica-se pela necessidade de ampliar ações coletivas de EAN no território, bem como nos serviços especializados de referência em saúde mental, integradas aos Projetos Terapêuticos Singulares (PTS), promovendo espaços de escuta, troca e construção compartilhada do cuidado.
Relatar a experiência de uma ação de Educação Alimentar e Nutricional desenvolvida em um CAPS Adulto, evidenciando a integração entre Atenção Primária à Saúde e Atenção Especializada, o protagonismo dos usuários no processo educativo e os impactos da atividade na promoção da saúde e na redução de iniquidades.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido em dezembro de 2025, no CAPS Adulto II Cidade Ademar, território de Santo Amaro e Cidade Ademar, município de São Paulo, sob gestão do Instituto Nacional de Tecnologia e Saúde (INTS). A ação ocorreu no contexto do Grupo Respiro, grupo aberto, realizado no período vespertino e conduzido pelas assistentes sociais do serviço como componente dos Projetos Terapêuticos Singulares integrados dos usuários. Participaram 13 usuários do CAPS, com diferentes diagnósticos e planos terapêuticos em saúde mental. A atividade foi conduzida pela nutricionista da APS (UBS Jardim Apurá), em parceria com a equipe do CAPS, e estruturada em dois momentos: roda de conversa e oficina prática. A roda de conversa utilizou perguntas disparadoras sobre alimentação, emoções e cotidiano, estimulando a participação ativa dos usuários. A oficina prática abordou leitura de rótulos de alimentos industrializados, cálculo de custos de preparações caseiras e práticas culinárias com aproveitamento integral de alimentos, com linguagem acessível e foco na realidade do território.
Observou-se elevada adesão e engajamento dos usuários ao longo da atividade, com participação ativa nas discussões e na oficina prática. A comparação entre o custo de preparações caseiras e o consumo de alimentos ultraprocessados contribuiu para a desconstrução da percepção de que a alimentação saudável é necessariamente mais cara. Os usuários reconheceram o preparo culinário como prática emancipatória, alinhada às diretrizes do Marco de Referência em EAN, ao favorecer autonomia, valorização de saberes e escolhas possíveis no cotidiano. Também emergiu a percepção de que preparações saudáveis podem ser saborosas sem o uso abusivo de açúcares, gorduras e aditivos, comumente presentes em alimentos ultraprocessados. A metodologia participativa fortaleceu vínculos terapêuticos, promoveu troca de experiências entre os usuários e ampliou o acesso à informação qualificada, contribuindo para o cuidado compartilhado e para a promoção da saúde no contexto da saúde mental.
A experiência evidencia o potencial da Educação Alimentar e Nutricional como estratégia de promoção da saúde e redução de iniquidades quando integrada à Rede de Atenção Psicossocial. A articulação entre APS e Atenção Especializada possibilitou uma abordagem ampliada do cuidado, alinhada às necessidades do território e aos Projetos Terapêuticos Singulares dos usuários. A inserção da EAN em grupos terapêuticos do CAPS mostrou-se uma ferramenta potente para o fortalecimento da autonomia, do protagonismo dos usuários e da interdisciplinaridade das equipes, reafirmando a importância do trabalho em rede no SUS.
Educação Alimentar e Nutricional Saúde Mental
VITORIA CRISTINA DA SILVA LIOCADIO, MICHELE CRISTINA DA SILVA, DARLENE GUEDES DA SILVA