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O Infarto Agudo do Miocárdio (IAM) permanece como uma das principais causas de morbimortalidade no Brasil, exigindo respostas organizadas e integradas no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). No município de São Paulo, o expressivo volume de procedimentos cardiovasculares de alta complexidade com média mensal de aproximadamente 580 cateterismos cardíacos agendados na plataforma SIRESP em 2023 observou a necessidade de estruturar um modelo que garantisse continuidade, segurança e integralidade após a alta hospitalar. A experiência iniciou‑se em novembro de 2024, envolvendo 26 hospitais municipais, equipes de regulação, profissionais assistenciais e serviços ambulatoriais de cardiologia. Seu público beneficiado abrange pacientes com IAM confirmado que necessitam de seguimento prioritário, monitoramento estruturado e redução do risco de reinternações. O Projeto de Alta Qualificada em Cardiologia foi concebido para fortalecer a articulação entre os hospitais municipais e os serviços ambulatoriais especializados, alinhado às diretrizes da Rede de Atenção às Urgências (Portaria MS nº 1.600/2011) e da Política Nacional de Atenção Hospitalar PNHOSP (Portaria MS nº 3.390/2013), que atribuem aos serviços hospitalares a corresponsabilidade pelo cuidado pós‑alta.
O principal objetivo é implantar um fluxo estruturado e qualificado para o seguimento ambulatorial de pacientes com diagnóstico confirmado de IAM garantindo acesso oportuno, continuidade do cuidado e integralidade assistencial na rede municipal. Entre os objetivos específicos: Garantir avaliação com cardiologista em até 30 dias após alta para paciente pós procedimento de cateterismo cardíaco, pós implante de marca passo e cirurgiã cárdica procedente de internações hospitalar. Estruturar agenda específica para cardiologia pós‑cateterismo no SIGA, priorizando pacientes de maior risco. Padronizar o processo de transição hospital–ambulatorial, com responsabilidades definidas entre hospitais e regulação. Reduzir reinternações evitáveis e fortalecer a coordenação do cuidado dentro da Rede de Atenção às Urgências.
A construção da experiência ocorreu em fases sucessivas. Primeiramente, realizou‑se a análise da demanda por procedimentos cardiovasculares a partir dos dados do SIRESP 2023, identificando média de 580 cateterismos mensais e mapeando a oferta ambulatorial por território. Em seguida, dimensionou‑se a capacidade instalada da rede, resultando em projeção de 4.857 consultas ambulatoriais para o ano de 2025. A metodologia incluiu: Mapeamento detalhado da oferta ambulatorial, considerando serviços municipais e suas áreas de abrangência. Implementação da telecardiologia como ferramenta de acompanhamento remoto. Criação de agenda específica no SIGA (“Cardiologia Pós‑Cateterismo”). Cadastro dos 26 hospitais municipais e dos profissionais responsáveis pelo agendamento. Treinamento das equipes hospitalares e da regulação, com orientações padronizadas para encaminhamento e agendamento. Reuniões de alinhamento com reguladores e hospitais, garantindo sensibilização e adesão ao fluxo. Pactuação de indicadores de monitoramento, incluindo ocupação de vagas, perdas primárias e territorialização da demanda. Implementação de planilha de desfechos por hospital, registrando tipo de alta e seguimento.
A projeção inicial para 2025 estimou 4.857 consultas ambulatoriais de cardiologia pós‑IAM, com taxa global de ocupação de 53%. Apesar da suficiência global da oferta, identificou‑se importante desalinhamento territorial, resultando em coexistência de serviços saturados e serviços com grande ociosidade. Serviços com alta ocupação (≥ 80–100%):São Miguel: 100%; Vila Guilherme: 96%; Penha: 91%; Mooca: 81%;Jardim São Luís: 96% Serviços com baixa ocupação (≥ 70% de vagas livres):Santa Cecília: 30%,Perus: 25%,Vila São Lucas / Vila Mercês (região sul‑sudeste): 25% Os resultados apontam que o acesso desigual decorre da própria configuração mista da rede (gestão municipal e estadual), impactando a territorialização da atenção ambulatorial. A experiência demonstra que não há escassez global de oferta, mas sim desequilíbrio assistencial, reforçando a necessidade de reorganizar fluxos, pactuar diretrizes territoriais e reduzir perdas primárias.
A experiência evidenciou que a rede municipal possui capacidade ambulatorial suficiente para o seguimento pós‑IAM, porém, distribuída de forma desigual entre os territórios. Essa assimetria resulta em serviços próximos da saturação enquanto outros operam com ampla ociosidade, exigindo revisão do modelo de alocação de vagas, redefinição territorial e pactuação de fluxos únicos para toda a RUE.
Cardiologia, SUS
GISLANE SOARES FAZZOLARI, MICHAEL LUIZ DE SOUZA, MICHAELSOUZA@PREFEITURA.SP.GOV.BR, JOSE CARLOS INGRUND, PATRICIA DE SOUZA CASTRO, IARA CRISTINA SILVA