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O cuidado à criança com Transtorno do Espectro Autista (TEA) exige uma abordagem que ultrapasse o atendimento clínico isolado, considerando a construção de vínculos, o acolhimento e a corresponsabilidade entre equipe multiprofissional, criança e família. O CER III São Mateus integra a Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência no Município de São Paulo e está inserido em um território marcado por vulnerabilidades sociais e escassez de rede de apoio às famílias. As crianças atendidas apresentam desafios relacionados à comunicação, interação social, comportamentos disruptivos e demandas sensoriais específicas. Paralelamente, observa-se elevada sobrecarga materna, sofrimento emocional e insegurança quanto ao manejo cotidiano. Diante desse cenário, torna-se fundamental a adoção de práticas integradas, humanizadas, interdisciplinares e com abordagem familiar. A experiência desenvolvida no CER III São Mateus demonstra que o trabalho multiprofissional articulado, com participação ativa das famílias, favorece o desenvolvimento infantil, fortalece vínculos e amplia o protagonismo materno, consolidando um cuidado integral alinhado aos princípios do SUS.
Fortalecer o cuidado integral à criança com TEA por meio do trabalho multiprofissional e da construção de vínculos que ampliem o empoderamento familiar. Objetivos Específicos: Desenvolver práticas integradas entre os profissionais. Construir Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) compartilhados com as famílias. Promover o desenvolvimento global das crianças. Ampliar a adesão e participação familiar no tratamento. Fortalecer vínculo e confiança entre equipe, mãe e criança.
A metodologia envolveu observação direta dos atendimentos individuais e grupais, reuniões multiprofissionais semanais para construção e monitoramento dos PTS e acolhimento contínuo das mães de crianças com deficiências, de todas as idades. A ação foi realizada com crianças com diagnóstico de TEA e outras deficiências do neurodesenvolvimento, em acompanhamento no serviço. As mães participantes foram aquelas envolvidas no cuidado das crianças, com maior demanda de orientação, apoio emocional e manejo terapêutico. As práticas adotadas incluíram mediação ativa, comunicação alternativa, atividades sensoriais, desenvolvimento do brincar funcional, manejo de comportamentos desafiadores e orientação permanente às mães para aplicação no cotidiano familiar. Com as crianças os encontros forma semanais, individual e/ou em grupo, conforme o PTS, enquanto as mães participaram de atendimentos individuais e encontros periódicos conjuntos com as crianças. Nessas atividades, realizou-se escuta qualificada, pactuação de objetivos terapêuticos, devolutivas sistemáticas, construção compartilhada de rotinas e fortalecimento do vínculo terapêutico, visando o empoderamento familiar e a corresponsabilização no cuidado. Foram analisados registros em prontuário, indicadores de adesão ao tratamento, evolução funcional, comunicativa e comportamental das crianças e participação familiar, tanto para subsidiar a condução terapêutica e ajustes dos PTS quanto para a sistematização e análise desta experien
Entre 2024 e 2025, aproximadamente 240 mães participaram de grupos semanais (com média de cinco participantes) e grupos mensais (com média de dez participantes). Os resultados evidenciam aumento da adesão ao tratamento, fortalecimento do vínculo entre famílias e equipe multiprofissional e maior participação das mães no processo terapêutico, com envolvimento mais ativo na construção e no acompanhamento dos PTS. Observou-se avanços significativos no desenvolvimento das crianças, incluindo melhora da comunicação verbal e não verbal, ampliação do brincar funcional, redução da agitação psicomotora e diminuição de comportamentos disruptivos, além de maior segurança das mães no manejo das demandas cotidianas, fortalecimento da autonomia familiar e consolidação do trabalho interdisciplinar, refletindo maior coerência e alinhamento das condutas terapêuticas entre os diferentes profissionais envolvidos nos atendimentos. Destaca-se a qualificação dos processos de construção, monitoramento e revisão dos PTS, com maior clareza de objetivos, definição de estratégias compartilhadas e continuidade das intervenções entre os atendimentos e o contexto familiar. Observou-se ampliação da corresponsabilização entre equipe e família, expressa pela maior confiança das mães no serviço e na equipe multiprofissional, bem como pelo aumento do engajamento das crianças nas propostas terapêuticas. As famílias relataram maior satisfação com o cuidado ofertado.
A experiência desenvolvida no CER III São Mateus demonstra que o cuidado multiprofissional integrado, baseado na construção de vínculos e na corresponsabilidade entre equipe, família e criança, fundamental para o desenvolvimento da criança com TEA. A inclusão das mães como protagonistas do processo terapêutico fortalece o empoderamento familiar, promove autonomia no manejo cotidiano e qualifica o cuidado ofertado, ampliando os efeitos das intervenções para além do espaço institucional. A prática também demonstra a importância da organização dos processos de trabalho e da comunicação interdisciplinar para um cuidado sustentável, humanizado e centrado nas necessidades da criança e de sua família. O fortalecimento da escuta qualificada e da participação ativa das famílias contribui para a longitudinalidade do cuidado, para o fortalecimento dos vínculos e para maior resolutividade das ações desenvolvidas. Dessa forma, a experiência consolida-se como prática exitosa e passível de replicação no âmbito do SUS, reafirmando os princípios da integralidade, equidade, humanização e inclusão social, além de contribuir para o fortalecimento da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência e para a qualificação da atenção às crianças com TEA.
Cuidado integral à criança
KELI REGINA MARQUES P PEREIRA, ADRIANO COMENALE, NIELSEN RIBEIRO BRANDÃO, ALEXANDRA CORRÊA DE FREITAS, KARINA FERREIRA DA SILVA