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Os serviços de urgência são frequentemente a porta de entrada para pacientes em crise psíquica, uso abusivo de substâncias e situações de vulnerabilidade social. Entretanto, a lógica assistencial centrada na estabilização imediata tende a fragilizar a continuidade do cuidado, favorecendo reinternações, abandono terapêutico e sobrecarga das emergências. A ausência de articulação estruturada com a rede territorial compromete desfechos clínicos e sociais. O matriciamento, previsto nas diretrizes da Atenção Psicossocial, configura-se como estratégia fundamental para integrar níveis de atenção, qualificar equipes e construir projetos terapêuticos compartilhados. Diante desse cenário, implementamos um matriciamento sistemático entre UPA e CAPS, com foco na alta segura e na corresponsabilização. Essa prática promove apoio mútuo: o CAPS oferece suporte à UPA no manejo de casos complexos, enquanto a UPA contribui com respostas rápidas em situações de urgência, fortalecendo vínculos e garantindo cuidado contínuo.
O objetivo central é implantar e consolidar o matriciamento em saúde mental entre a UPA e os CAPS do território, garantindo integração efetiva entre os serviços. A proposta busca qualificar o processo de alta de pacientes, assegurando continuidade do cuidado e redução de reinternações evitáveis. Além disso, pretende fortalecer a articulação entre urgência, e rede de saúde mental, promovendo corresponsabilização no manejo dos casos. Outro ponto essencial é oferecer suporte técnico à equipe da UPA para lidar com situações complexas, ampliando a resolutividade e a segurança clínica. Essa estratégia contribui para um cuidado mais integrado, humanizado e alinhado.
Este relato de experiência foi desenvolvido na UPA III Jardim Peri, a partir da implantação de reuniões mensais de matriciamento em saúde mental envolvendo os CAPS AD, Adulto, Infantojuvenil e o Consultório na Rua do Território. Participam desses encontros médicos, enfermeiros e assistentes sociais da UPA, além das equipes de referência dos CAPS. As pautas contemplam discussão de casos em acompanhamento, análise de fluxos, definição de critérios para encaminhamento e construção de estratégias que assegurem a continuidade do cuidado após a alta. Em situações de internação psiquiátrica ou casos socialmente complexos, é realizado contato ativo com a equipe territorial, visando apoio à família, visitas compartilhadas e melhor compreensão do contexto biopsicossocial do paciente. Dessa forma, garantimos o acompanhamento das ações pactuadas e o fortalecimento da integração entre os serviços.
O matriciamento fortaleceu a integração entre a UPA e os CAPS do território, qualificando a comunicação entre os serviços e trazendo mais segurança ao processo de alta. Essa articulação reduziu encaminhamentos inadequados e favoreceu a continuidade do cuidado, evitando que pacientes ficassem desassistidos após situações de crise. Conseguimos ampliar a corresponsabilização entre as equipes e dar mais clareza aos fluxos, o que contribuiu para um manejo mais seguro e organizado dos casos. Vale destacar que a UPA passou a ocupar um papel estratégico, especialmente considerando que contamos com três CAPS tipo II, sendo necessária a articulação com o CAPS III em momentos de crise. A UPA se consolidou como retaguarda, tornando-se potente no atendimento às crises em parceria com as equipes dos CAPS. O matriciamento também qualificou a atuação clínica dos profissionais da UPA, oferecendo suporte técnico e estratégias compartilhadas para casos complexos. As reuniões mensais se consolidaram como espaço permanente de educação em serviço, troca de saberes e fortalecimento da prática matricial, garantindo que a rede funcione de forma integrada e resolutiva.
O matriciamento em saúde mental na UPA mostrou ser uma estratégia eficiente para garantir alta segura, integrar os serviços e manter a continuidade do cuidado. Na prática, ficou claro que a urgência não deve atuar isolada, mas sim conectada à rede de saúde mental, superando abordagens fragmentadas e focadas só na estabilização clínica. O matriciamento aumentou a resolutividade dos casos e fortaleceu o território. Além disso, consolidou-se como espaço permanente de troca de experiências e educação em serviço, oferecendo suporte técnico às equipes e ampliando a capacidade de resposta diante de situações complexas. Essa articulação fortaleceu os fluxos e qualificou o cuidado.
Saúde Mental; Matriciamento; Urgência; CAPS; Rede
MARIA LETÍCIA CARNIEL BRIGLIADORI, RODRIGO DE ANDRADE CATANEO, BRUNA GONÇALVES FOGAÇA BENEVENUTO, FABIOLA MARIA COSTA, DÉBORA MARQUES DE OLIVEIRA, MARINÊS SANTOS DE OLIVEIRA