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Em municípios de pequeno porte como Iepê-SP, a Atenção Básica é a porta de entrada exclusiva para a maioria da população, o que historicamente gerava uma cultura de sazonalidade do cuidado, com filas imensas e saturação da capacidade de atendimento das equipes durante as campanhas nacionais de Outubro Rosa e Novembro Azul, seguidas por períodos de redução drástica da procura espontânea. Essa dinâmica resultava em demora nos laudos laboratoriais devido à sobrecarga regional e fragmentação do cuidado. Diante do envelhecimento populacional e da necessidade de otimizar recursos finitos, tornou-se insustentável manter o foco apenas na doença ou na campanha pontual. A experiência nasceu em junho de 2024 em uma equipe de ESF piloto, com o desafio de reorganizar o fluxo de rastreamento de câncer e doenças crônicas utilizando a data de aniversário como disparador. O ponto principal reside na replicabilidade e no baixo custo, demonstrando que uma intervenção simples de gestão da clínica pode organizar a demanda de cidades pequenas, garantindo acesso integral e contínuo o ano todo, preparando a rede para o envelhecimento ativo.
O objetivo geral da experiência foi implementar e posteriormente expandir para 100% da cobertura municipal a busca ativa de pacientes baseada no mês de nascimento, visando descentralizar a demanda e acabar com os picos de atendimento de final de ano. Especificamente, buscou-se distribuir a realização de exames preventivos como citopatológico, mamografia, PSA e rotina laboratorial linearmente pelos doze meses do ano, otimizando assim o tempo de resposta dos laboratórios conveniados que costumam ter maior disponibilidade operacional fora das campanhas. Além disso, a iniciativa teve como meta promover a inclusão digital e social através de uma abordagem híbrida via WhatsApp e visitas domiciliares, garantindo equidade no acesso, e validar um modelo de gestão para pequenos municípios que não dependesse de softwares complexos, mas sim da organização dos processos de trabalho e do vínculo da equipe.
Trata-se de um relato de experiência de natureza interventiva desenvolvido na Estratégia Saúde da Família de Iepê-SP, iniciado em meados de 2024 na fase piloto e atualmente em fase de expansão para as demais equipes do município. O processo inicia-se mensalmente com a filtragem dos aniversariantes acima de 40 anos pela enfermeira, seguida da criação de um convite digital personalizado na plataforma Canva com identidade visual acolhedora e a mensagem de que a saúde é um presente. A distribuição dos convites ocorre de forma híbrida para garantir a equidade: envia-se a arte via WhatsApp para usuários com acesso digital, garantindo agilidade, enquanto os Agentes Comunitários de Saúde realizam a busca ativa presencial com convites impressos ou verbais para idosos e usuários sem acesso a meios digitais durante as visitas domiciliares. O paciente aniversariante ganha acesso facilitado para agendamento de consultas e exames no mês de seu aniversário. Após a validação na unidade piloto, que reduziu significativamente a sobrecarga sazonal, o fluxo foi replicado para as outras duas ESFs do município devido à sua simplicidade e ausência de custos adicionais.
A intervenção transformou a lógica de acesso e a gestão da clínica no município de Iepê. Observou-se, já na fase piloto e durante a expansão, um achatamento da curva de demanda, com a agenda de preventivos preenchida de forma equilibrada em meses historicamente fracos, evitando a superlotação típica dos meses de campanha. Um resultado de grande impacto foi a agilidade diagnóstica, pois o tempo de retorno de laudos de biópsias e preventivos caiu drasticamente fora da época de pico, permitindo inícios de tratamento mais rápidos. Qualitativamente, a abordagem afetiva pelo aniversário teve aceitação superior à convocação burocrática, elevando a adesão de homens e idosos que se sentiram valorizados pela lembrança. A expansão para as três equipes comprovou que o uso de tecnologias leves de comunicação e organização do processo de trabalho é uma solução altamente eficaz e escalável para a realidade de pequenos municípios.
A experiência reafirma que a inovação na saúde pública em cidades de pequeno porte não depende necessariamente de altos investimentos financeiros, mas sim de um olhar atento ao território e à organização dos fluxos. O projeto conseguiu, com custo praticamente zero, garantir a longitudinalidade e a integralidade do cuidado, princípios basilares do SUS. Ao vincular o cuidado à data de aniversário, criou-se uma cultura de vigilância constante sobre o envelhecimento e a saúde preventiva, vital para municípios onde a população idosa é crescente. Conclui-se que o modelo é totalmente replicável para qualquer gestor que deseje otimizar suas cotas de exames, humanizar o vínculo com a comunidade e dissolver gargalos sazonais de atendimento.
Organização, Busca Ativa, Tecnologias Leves, AB
LAYS FERNANDA FERREIRA DE AZEVEDO, TATIANE DE SOUZA SILVA, MARIA JOSE ALVES DE LIMA, KATIA MARIA DOS SANTOS, ANDREA DE SOUZA MANARIN, PRISCILA BORCK PELIM, EDNA PEREIRA DO VALE