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Conforme preconizado na Política Nacional de Humanização (PNH), o cuidado deve ser construído de maneira coletiva e compartilhada. É sabido que a população masculina procura os serviços de saúde, em geral, quando apresenta alguma queixa de dor ou doença aguda, sendo sua porta de entrada, frequentemente, a atenção secundária ou terciária. O processo saúde-doença faz parte do curso natural da vida de todos os usuários e, em algumas situações, haverá a necessidade de busca por serviços de saúde. A Unidade de Referência à Saúde do Idoso (URSI), por se tratar de um serviço de atenção secundária, no qual essa população específica costuma acessar em casos de fragilidade na velhice, apresenta-se como uma oportunidade para alcançar esse público, oferecendo não somente acesso à saúde, mas também à cultura e ao convívio social. Verificou-se que os homens que acessavam a URSI Capela do Socorro e que possuíam demandas para a fisioterapia mostravam-se mais abertos à participação em atividades coletivas semanais e relatavam sentir-se à vontade com outros homens que apresentavam necessidades físicas semelhantes. Diante disso, foi criado um grupo de homens com o objetivo de desmistificar a ideia de que os cuidados em saúde do homem devem ocorrer apenas em situações agudas ou diante de doenças já estabelecidas e da necessidade de reabilitação física, configurando-se também como um espaço para o fortalecimento de vínculos sociais, o estímulo à cultura e a ocupação dos espaços disponíveis.
O atendimento em grupo para homens idosos, realizado por fisioterapeuta e assistente social, tem como objetivo promover o bem-estar físico, social e emocional, por meio de atividades que estimulem a funcionalidade, a autonomia, o fortalecimento dos vínculos sociais e o incentivo à ocupação dos espaços no território. A proposta busca incentivar o cuidado com a saúde, a prática de exercícios físicos adequados ao público e a reflexão sobre aspectos sociais e emocionais do envelhecimento, em um ambiente de escuta, acolhimento e troca de experiências.
A seleção dos participantes do grupo de homens contou com o apoio da equipe multidisciplinar da URSI Capela do Socorro a partir da Avaliação Gerontológica Global (AGG) e direcionados para a Avaliação Gerontológica Específica da Fisioterapia (AGE), contemplando idosos que apresentavam perfil de necessidade de reabilitação física, devido ao risco de quedas, instabilidade da marcha e diminuição da força muscular. No período que engloba o início das atividades em 2023 até dezembro de 2025, foram realizadas 5 turmas, com a participação de até 5 homens por turma e a periodicidade de cada grupo foi de 6 meses. Os encontros eram semanais, com duração de uma hora e meia. Durante esse período, eram realizadas atividades de reabilitação física, ações educativas em saúde e cultura, bem como espaços para troca de saberes e incentivo à ocupação dos equipamentos disponíveis no território, tais como grupos da Unidade Básica de Saúde (UBS), centros comunitários, praças, Núcleo de Convivência de Idosos (NCI), Centro Educacional Unificado (CEU), Casas de Cultura e Centro Dia para Idoso (CDI), dentre outros. Também foram utilizados recursos lúdicos por meio de jogos, com estratégia de gamificação, com o objetivo de motivar os participantes à adesão aos tratamentos, incentivar hábitos saudáveis e melhorar a experiência geral do atendimento. Os temas abordados seguiam o calendário regional cultural e o calendário da Secretaria Municipal de Saúde.
A prática da escuta qualificada possui potencial para revelar necessidades que não estavam explicitamente contempladas no motivo original da inclusão da pessoa idosa na URSI Capela do Socorro. Essas necessidades frequentemente desempenham papel crucial na melhoria do estado de saúde do indivíduo, abrangendo sua rede comunitária e familiar. Além disso, por meio do diálogo e da escuta qualificada, é possível identificar demandas e realizar encaminhamentos para outros profissionais de saúde, contribuindo para um cuidado integral e abrangente. Esse espaço garantiu, de forma efetiva, maior adesão às orientações ofertadas durante as consultas com outros profissionais de saúde da URSI e do território. No que se refere às questões de reabilitação física, observou-se que os participantes se reconheciam em um espaço coletivo, no qual as fragilidades apresentadas eram comuns ao grupo, favorecendo a desmistificação do processo de senilidade. Observou-se também melhora significativa na qualidade de vida dos indivíduos, evidenciada pela redução do risco de quedas dentro e fora do domicílio, aumento da força muscular, diminuição da dependência para a realização das atividades básicas de vida diária, melhora da adesão e do uso adequado de dispositivos auxiliares de marcha (bengala, andador, entre outros), maior participação nas tarefas domésticas e fortalecimento dos vínculos com a família e a comunidade local.
Ao abordar o envelhecimento, é fundamental considerar as questões de gênero nele presentes. No caso do envelhecimento masculino, é necessário analisar as construções sociais que moldam a masculinidade. Monteiro e Nogueira (2021) destacam que a atividade laboral ocupa papel central na masculinidade tradicional, e a aposentadoria pode representar um desafio identitário, já que muitos homens se reconhecem fortemente por meio do trabalho. Historicamente, o envelhecimento foi associado a desabilidade, declínio e inutilidade. No entanto, nas últimas décadas, essa percepção vem sendo substituída por uma visão que enxerga a velhice como uma etapa de novas oportunidades, prazer e realização pessoal. A criação de espaços de convívio para homens idosos, com experiências semelhantes e residentes próximos, possibilitou escuta, cuidado e interação social, contribuindo para a melhora da qualidade de vida, maior adesão ao projeto terapêutico, participação comunitária, fortalecimento dos vínculos familiares e a desconstrução do estigma de que o envelhecimento masculino representa desabilidade e inutilidade. O grupo iniciou suas atividades em 2023 e, em função dos resultados positivos observados, consolidou-se como uma estratégia de cuidado.
Homem, idoso, humanização da saúde, reabilitação
RENATA POLICIANO RODRIGUES, VALÉRIA CRISTOFORI LANDI