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O município de Morungaba (SP) apresenta uma característica única: um número elevado, pela população da cidade, de refugiados acolhidos pelo centro humanitário Vila Minha Pátria. A presença dessa população introduz demandas específicas à rede pública de saúde, especialmente no campo da saúde mental, uma vez que muitos indivíduos vivenciam processos complexos de adaptação cultural, ruptura de vínculos e, em diversos casos, experiências traumáticas associadas a guerras, perseguições e perdas familiares. Diante desse cenário, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) municipal iniciou um processo de aproximação institucional com a organização de acolhimento, buscando compreender o sofrimento psíquico a partir de determinantes culturais, sociais e históricos próprios da condição de refúgio. Paralelamente, os usuários passaram a ser acompanhados pelos serviços da rede, incluindo o CAPS, que se tornou importante dispositivo de cuidado e escuta qualificada. Como estratégia de fortalecimento da rede e qualificação do cuidado, foi realizado, durante o mês de janeiro (Janeiro Branco), um evento intersetorial reunindo profissionais da saúde, gestores municipais, representantes de organizações humanitárias e especialistas externos, voltado à discussão da saúde mental da população refugiada. O presente trabalho descreve essa experiência e seus desdobramentos para o cuidado em saúde mental no SUS.
Descrever a experiência do município de Morungaba na construção do cuidado em saúde mental para população refugiada no âmbito do SUS. Como objetivos específicos: – Compreender demandas psíquicas associadas ao processo de refúgio e adaptação cultural; – Relatar a articulação entre CAPS, atenção básica e organização de acolhimento humanitário; – Apresentar a realização de evento intersetorial como estratégia de qualificação da rede; – Identificar possibilidades de fortalecimento da RAPS para atendimento dessa população.
Este é um relato de experiência desenvolvido na Rede de Atenção Psicossocial do município de Morungaba (SP). O trabalho ocorreu a partir de aproximações institucionais entre a equipe de saúde mental municipal e o centro de acolhimento humanitário Vila Minha Pátria, envolvendo reuniões, escuta de demandas e construção conjunta de estratégias de cuidado. Paralelamente, usuários refugiados passaram a ser acompanhados pelos serviços da rede, incluindo o CAPS, por meio de atendimentos individuais, acolhimentos e encaminhamentos articulados com a atenção básica. Como dispositivo de intervenção coletiva, foi realizado, em janeiro de 2026, um evento intersetorial voltado à saúde mental de refugiados, reunindo profissionais da saúde, gestores municipais, representantes de organizações sociais e especialistas externos. O encontro teve caráter formativo e de construção de rede, permitindo troca de experiências e levantamento de necessidades locais. Os registros institucionais, observações de equipe e discussões técnicas foram utilizados para sistematização da experiência.
A aproximação entre o serviço público de saúde e o centro de acolhimento permitiu maior compreensão das especificidades do sofrimento psíquico relacionado ao refúgio. Observou-se a presença de quadros de ansiedade, depressão, dificuldades de adaptação cultural e casos compatíveis com Transtorno de Estresse Pós-Traumático, frequentemente associados a experiências de guerra, deslocamento forçado e perdas familiares. O acompanhamento pelo CAPS e pelos outros serviços de saúde possibilitou a construção de vínculo terapêutico e acesso ao cuidado, reduzindo barreiras culturais e institucionais. A articulação com a atenção básica favoreceu o cuidado e ampliou a responsabilidade dos serviços. O evento promoveu sensibilização dos profissionais, integração entre setores e compartilhamento de boas práticas, fortalecendo a rede local de cuidado. Houve ampliação do reconhecimento das necessidades específicas da população refugiada e estabelecimento de canais permanentes de comunicação entre serviços públicos e organizações sociais. A experiência contribuiu para a qualificação do acolhimento e para a construção de estratégias culturalmente sensíveis dentro do SUS.
A experiência demonstrou que o cuidado em saúde mental para população refugiada exige abordagem ampliada, considerando determinantes culturais, históricos e sociais do sofrimento psíquico. A articulação intersetorial entre serviços da RAPS e organizações humanitárias mostrou-se fundamental para reduzir barreiras de acesso e qualificar o cuidado. O CAPS configurou-se como importante dispositivo de escuta e construção de vínculo, enquanto o evento formativo atuou como catalisador de integração da rede. A iniciativa evidenciou que municípios de pequeno porte também podem desenvolver respostas estruturadas às demandas decorrentes do refúgio, desde que baseadas em diálogo institucional e educação permanente. O trabalho reforça a importância de práticas culturalmente sensíveis no SUS e aponta a necessidade de continuidade das ações para consolidação de uma linha de cuidado específica para essa população.
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CRISTIANO ROSADO