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A dengue representa um dos principais desafios da saúde pública em municípios hiperendêmicos, especialmente diante da reintrodução e da co-circulação de diferentes sorotipos virais, situação que amplia o risco de epidemias de grande magnitude, eleva a pressão sobre os serviços de saúde e aumenta a morbimortalidade associada à doença. Em São José do Rio Preto/SP, esse cenário traz à Vigilância Epidemiológica a necessidade de estratégias que assegurem não apenas a detecção precoce dos casos, mas também a agilidade, a completude e a qualidade das informações produzidas. A tomada de decisão em saúde pública depende diretamente da oportunidade e da fidedignidade dos dados, sendo essencial para o planejamento, monitoramento e avaliação das ações de prevenção e controle. Entretanto, processos baseados exclusivamente em notificações manuais tornam-se limitados em contextos de elevada transmissão, resultando em atrasos na consolidação das informações e prejuízos à resposta oportuna. Nesse contexto, a incorporação de tecnologias da informação e de processos automatizados configura-se como estratégia fundamental para o fortalecimento da Vigilância em Saúde, contribuindo para a otimização de recursos humanos, a redução de retrabalho e o aprimoramento da capacidade de resposta frente a cenários epidemiológicos complexos.
O objetivo desse trabalho é descrever a implantação de automações para inserção e encerramento das notificações de dengue no sistema Dengue Online/SINAN no município de São José do Rio Preto/SP, com vistas a ampliar a agilidade na geração, consolidação e transmissão dos dados epidemiológicos. Buscou-se ainda, qualificar a informação produzida, reduzir o tempo entre a ocorrência do caso e sua disponibilidade para análise, e possibilitar o monitoramento e a análise em tempo real do cenário epidemiológico local, subsidiando de forma mais eficiente a tomada de decisão e a adoção oportuna de medidas de prevenção e controle da doença.
Trata-se de um relato de experiência desenvolvido no município de São José do Rio Preto/SP, classificado como área hiperendêmica para dengue, com registro de 13 epidemias desde 2002. O cenário epidemiológico recente foi marcado pela identificação do primeiro caso de DENV-3 em 2023, após mais de uma década sem circulação, sorotipo que passou a predominar no final de 2024, além da introdução do DENV-2 Cosmopolitan, genótipo que não havia circulado anteriormente no município, aumentando a complexidade da vigilância local. Para reduzir o tempo de inserção e encerramento das notificações, a ficha de dengue foi incorporada ao prontuário eletrônico, permitindo seu preenchimento pelo médico ainda durante o atendimento. Paralelamente, foram desenvolvidos softwares em Python para automatizar a inserção das notificações exportadas do prontuário no SINAN Online, o encerramento de casos laboratoriais e clínico-epidemiológicos, a inclusão de exames provenientes de outros municípios, a habilitação de fluxos e o suporte às notificações manuais, por meio da automação denominada “semi-notifica-SINAN”. Adicionalmente, foram elaborados painéis de monitoramento em R, possibilitando a análise contínua e em tempo real do cenário epidemiológico e a qualificação permanente do banco de dados.
A implantação das automações foi iniciada em Outubro/2024 e resultou em expressiva melhoria na oportunidade e na capacidade analítica da Vigilância Epidemiológica municipal. Foi possível identificar precocemente o aumento de casos no início de dezembro de 2024, caracterizando um cenário epidêmico inédito, especialmente pela magnitude e velocidade de crescimento dos registros. Essa detecção antecipada permitiu a adoção de medidas de enfrentamento ainda no mês de dezembro, aproximadamente 30 dias antes do que seria possível utilizando exclusivamente processos manuais de notificação. Em dezembro de 2024, foram registrados 11.886 casos suspeitos de dengue, e no ano de 2025 69.350 notificações, correspondendo a cerca de 13,7% da população do município. Todo esse volume foi processado por apenas dois digitadores, enquanto, na ausência das automações, seriam necessários ao menos 25 profissionais, evidenciando importante redução de custos operacionais, otimização da força de trabalho e aumento da eficiência do processo de vigilância.
A experiência demonstrou que a automação inteligente, por meio do uso integrado de ferramentas desenvolvidas em Python e R, promoveu avanços significativos na gestão da Vigilância em Saúde frente à dengue. A integração entre prontuário eletrônico, sistemas de notificação e painéis de análise em tempo real reduziu atrasos, minimizou retrabalho, qualificou os dados e ampliou a capacidade de resposta às epidemias. Além de otimizar recursos humanos e operacionais, a estratégia fortaleceu a tomada de decisão em tempo oportuno, permitindo intervenções mais precoces e eficazes. Dessa forma, a experiência de São José do Rio Preto/SP evidencia que o uso estratégico da tecnologia da informação constitui uma alternativa viável, sustentável e replicável para municípios que enfrentam elevada complexidade epidemiológica associada às arboviroses.
Dengue, Automação, Vigilância Epidemiológica
ANDREIA FRANCESLI NEGRI, ANA PAULA MUNHOZ BOLGUE GASPARINI, GABRIEL HENRIQUE PAVANETTE, GUSTAVO HENRIQUE VELOZO, RUBEM DE OLIVEIRA BOTTAS NETO, JOÃO MARCOS CERON DA SILVA, KARINA ELIAS DE SOUZA, GABRIELA GAGIGE