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A trajetória da Reforma Sanitária Brasileira envolveu diversas disputas, tendo na Constituição Federal de 1988, a inauguração de um novo modelo da seguridade social. O Sistema Único de Saúde (SUS) segue como reforma permanente na produção de sujeitos e coletivos capazes de análises críticas, de produções potentes instituintes, com humanização e resolutibilidade do cuidado1. Neste sentido e, a partir do Plano Municipal de Humanização de Santos, a Formação de Ativadores em Política de Humanização, representou o compromisso com formação, valorização de trabalhadores(as) e cuidado integral. Foi coordenada pela gestão municipal, Escola da Saúde e apoio das Articuladoras de Humanização do DRS IV Baixada Santista e da SES/SP. Realizada presencialmente em Santos, de maio a outubro de 2025, com 66 profissionais de 29 Unidades Básicas de Saúde e duas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs). Participaram 38% técnicos/as de Enfermagem, 20% Agentes Comunitários de Saúde (ACS), 18% enfermeiros/as, 24% outros profissionais e eMulti. Envolveu atividades de dispersão e projetos aplicativos com resultados para a população de Santos, com cerca de 400 mil habitantes. A Política Nacional de Humanização (PNH)2 se propõe a fomentar espaços permanentes de conversa com trabalhadores/as, aproximando-se do cotidiano dos territórios, com problematizações dos saberes, poderes e afetos, reconhecendo multiplicidades dos modos de produzir saúde.
O objetivo geral: qualificar e valorizar trabalhadores/as para a formação de uma rede de ativadores em Política de Humanização na Gestão e Atenção à Saúde, com ampliação da capacidade crítica e propositiva das práticas de saúde e gestão. Objetivos específicos: a)Abordar e debater as diretrizes da PNH (gestão participativa, clínica ampliada, acolhimento, produção de redes, narrativas de cuidado, função apoio) nas práticas de cuidado; b)Realizar atividades em grupo para a produção de vínculos e redes colaborativas no município; c)Propor atividades de dispersão para serem realizadas nas unidades envolvendo outros trabalhadores/as; d)Apoiar a produção de projetos aplicativos nas unidades de saúde. Consideramos que os Ativadores em Humanização podem, em composição com outros coletivos e nos territórios, produzirem mudanças nos processos de trabalho, no sentido de gestão mais partilhada e cuidado mais ampliado, que considerem as pessoas como protagonistas e corresponsáveis na saúde.
A PNH investe em coletivos para conversas sobre o trabalho, acreditando em atitudes críticas e criativas das pessoas, detectando questões que ampliem o campo sensível para novas perspectivas de intervenção nos atos de cuidado. Desta forma, a metodologia foi participativa e implicada com o cotidiano dos serviços. A partir de apresentação dialogada, as pessoas dividiam-se em grupos para debaterem o tema com questões práticas. Os grupos apresentavam as sínteses utilizando diversas expressividades (relatos, podcast, narrativas, poesias, jornais falados etc.). Entre um encontro e outro, os participantes realizavam atividades nas unidades, registravam e inseriam em um drive da Escola de Saúde para troca das experiências. E ainda, os participantes produziram projetos aplicativos, sendo um por unidade de saúde, considerando os conteúdos da formação e as necessidades dos territórios. Os projetos continham: introdução, objetivos, modos de condução, resultados esperados e cronograma. A carga horária foi de 60 horas, sendo 36 horas em 9 encontros presenciais e 24 horas de atividades de dispersão nas unidades. Os temas trabalhados foram SUS, APS, Humanização, Gestão Participativa, Produção de Redes, Acolhimento, Clínica Ampliada, Narrativas de Humanização, Função Apoio. Foi realizada avaliação em que 32,6% consideraram a formação boa e 67,4% excelente. Outro arranjo fundamental foi o apoio permanente e próximo às equipes da Articuladora de Humanização do município.
A formação atingiu o objetivo de qualificar e valorizar trabalhadores/as formando uma rede de ativadores em Política de Humanização. Resultados quantitativos: •66 ativadores/as formandos/as; •31 projetos aplicativos elaborados e apresentados, sendo alguns específicos para população idosa (97% concordam que o projeto fortalecerá o SUS considerando necessidades e ampliação do cuidado); •179 atividades de dispersão: intenso exercício dos ativadores com as equipes locais; •Criação do Grupo Técnico de Humanização da Secretaria Municipal de Saúde3 com atribuições de integração entre equipes e serviços, acompanhar e avaliar o Plano Municipal de Humanização, entre outras; •Bibliografia compartilhada: disponibilizadas cerca de 30 referências, criando um acervo como apoio ao trabalho. Os projetos aplicativos refletem a capacidade das equipes em traduzir a PNH em ações concretas. Seguem alguns títulos: •Grupo Paliar; Grupo Viver Melhor para Idosos; Resgatar e qualificar Cuidados a Pacientes com HAS e DM; AcolheDOR – Educação e Autogerenciamento da dor; Mãos de Fadas Artesanato; Acolhimento & Rede Reduzindo Atendimentos Classificação Azul na UPA Zona Noroeste; Reorganização do Agendamento; Análise da Demanda Espontânea; Acolhimento de enfermagem na pós-consulta; Participação Popular e Diálogo em Saúde; Setor de Ações Coletivas na UBS; Comunidade Compassiva; Sinalizadores Visuais de Medicamentos; Comunic.Ação – Produção de Redes de Cuidado.
A formação de ativadores não foi o fim de um curso, mas funcionou como disseminador da Política de Humanização em Santos como política pública. Mesmo com o término formal do curso, o Grupo Técnico de Humanização manteve os encontros de apoio aos projetos aplicativos. Reafirmamos que a metodologia produziu análise e intervenção nos processos de trabalho, em que atividades e projetos estimularam novas sensibilidades, garantindo aprendizagem conectada com a realidade. O vínculo foi capaz de articular diferentes pontos de atenção. E, principalmente, fomentou a valorização do trabalho e do/a trabalhador/a promovendo a visibilidade das equipes. Recomendamos: •integração dos projetos aplicativos à gestão com indicadores de melhoria do cuidado; •acompanhamento do Plano Municipal de Humanização na interface do Grupo Técnico de Humanização e Articuladoras de Humanização (do município, do DRS IV e do NGH SES/SP); •continuidade de encontros permanentes com o grupo de ativadores; •integração dos projetos aplicativos entre coordenadores de área da gestão; •proposta de uma Mostra Municipal para partilha de experiências; •proposta de utilização dos registros do drive para produção de web-documentários sobre o cuidado em saúde.
Educação permanente, Humanização, Ativadores(as)
JULIANA CABRAL FRANCISCO DE OLIVEIRA, CRISTIANE MARCHIORI PEREIRA, PAULA COVAS BORGES CALIPO, RAFAELLA PITOL CORRÊA, MARA REGINA ANNUNCIAÇÃO, QUITÉRIA DA SILVA PÁJARO