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O Projeto Vivendo com Exercício é uma inovação organizacional implantada na Atenção Primária à Saúde do município de Americana, estruturando a atividade física como tecnologia central de cuidado no SUS. Iniciado em janeiro de 2023 na UBS 25 – Jardim São Paulo, expandiu-se para sete Unidades Básicas de Saúde, consolidando a inserção sistemática do Profissional de Educação Física (CBO 2241-40) na rede municipal. A proposta responde a um cenário de transição demográfica acelerada (18,98% de idosos no município), alta prevalência de fatores de risco para Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT) e necessidade de reorganização do modelo assistencial ainda centrado na doença e no medicamento. Mais do que grupos de exercício, a experiência reorganiza o processo de trabalho na APS, integra monitoramento clínico no PEC e-SUS, fortalece o cuidado multiprofissional e articula equipamentos comunitários (igrejas, CRAS, centros comunitários e associações). O projeto transforma a atividade física em estratégia estruturante de promoção da saúde, prevenção de agravos e sustentabilidade do SUS municipal.
– Institucionalizar o Profissional de Educação Física (CBO 2241-40) como integrante permanente da Atenção Primária. – Reduzir fatores de risco para DCNT. – Ampliar o nível de atividade física habitual da população. – Diminuir medicalização evitável. – Produzir indicadores para gestão baseada em evidências. – Consolidar modelo replicável, intersetorial e financeiramente sustentável no SUS.
O projeto organiza fluxo assistencial estruturado na APS. O usuário é encaminhado pela equipe multiprofissional ou por demanda espontânea, realiza consulta individual com o Profissional de Educação Física utilizando método SOAP e é inserido em grupo temático (hipertensão, diabetes, sarcopenia, dor crônica, saúde mental, gestantes ou grupo geral – vivendo com exercício). Os grupos temáticos são baseados em critérios de seleção pelo PEF em consulta, tais como: exercício na diabetes (Tipo 1, Tipo 2, Gestacional, insulino resistente ou dependente de fármaco), exercício na sarcopenia e dinapenia (Idosos >75 anos, dificuldade em apoio unipodal na posição bípede, perda severa de força, atrofia muscular grande). Também são formados grupos com base nas caraterística do território da UBS, de acordo com relatório do PEC nos cadastros por equipe da EAP. Há geração de relatório via PEC (ex. faixa etária) e levantamento de informações do paciente (CID, CIAP-2). As atividades ocorrem de 1 a 2 vezes por semana, com 60 minutos de exercícios aeróbicos, força, equilíbrio e funcional adaptado às condições clínicas. Todos os participantes passam por monitoramento sistemático (pressão arterial, glicemia, peso e circunferências), com registro no PEC e-SUS, realizado durante acolhimento de 30 minutos. Atualmente, o projeto articula sete UBS e equipamentos comunitários do território, promovendo intersetorialidade e capilaridade com baixo investimento estrutural.
A experiência produziu impactos clínicos, organizacionais e culturais. O Nível de Atividade Física Habitual (NAFH) aumentou de 32 minutos semanais para 146 minutos semanais entre os participantes. No triênio 2023-2025 foram realizados 818 grupos (fichas de atividade coletiva e-SUS), totalizando mais de 17 mil participações e 10.288 monitoramentos clínicos. Os PEFs realizaram em média 68 consultas/mês de profissionais de nível superior (exceto médicos) para acompanhamento dos pacientes. Em termos de medicalização, 84 pacientes reduziram dose de medicamentos para DCNT e 27 interromperam medicamentos mediante avaliação clínica do médico. Houve um crescimento anual da oferta de grupos (253 em 2023; 271 em 2024; 294 em 2025) com 87% de taxa de adesão média. Há relatos qualitativos indicando melhora de dor crônica, sono, saúde mental e autonomia. No tocante ao impacto econômico estimado, considerando custo médio anual conservador de R$ 1.200 por paciente com DCNT (consultas, exames e medicamentos básicos), a redução ou interrupção de medicamentos em 111 pacientes (84 + 27) representa potencial economia direta estimada de aproximadamente R$ 133.200 por ano, sem contabilizar internações evitadas ou complicações futuras. Projetando a expansão para cerca de 1.000 participantes semanais em 2026, o potencial de impacto econômico e epidemiológico é significativamente ampliado, contribuindo para sustentabilidade financeira do SUS municipal.
O Projeto Vivendo com Exercício representa transformação concreta do modelo assistencial da Atenção Primária. Ao deslocar o foco da doença para o cuidado ativo e participativo, fortalece a autonomia do usuário, reduz medicalização evitável e reorganiza o processo de trabalho das equipes. A experiência demonstra que é possível estruturar política pública de promoção da saúde com baixo custo incremental, alta adesão e forte impacto social. A utilização de equipamentos comunitários elimina barreiras estruturais e amplia acesso, consolidando intersetorialidade real. O projeto aponta para mudança cultural no SUS municipal: atividade física deixa de ser prática complementar e passa a ser cuidado em saúde, com registro clínico, metas e monitoramento. Trata-se de modelo replicável, sustentável e alinhado aos princípios históricos da Reforma Sanitária Brasileira, ao fortalecer a integralidade, a promoção da saúde e a gestão baseada em evidências.
atividade física, exercício físico, atenção básica
TIAGO VOLPI BRAZ, SIMONE MACIEL, LILIAN FRANCO DE GODOI DOS SANTOS, FÁBIO CORREIA BARTOLOMEU JONER, DANILO CARVALHO OLIVEIRA