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A troca de gestão na saúde pública costuma reverberar como um ruído que desestabiliza equipes consolidadas. Com 150 mil habitantes, Franco da Rocha apresenta uma complexidade social ímpar: abriga cinco presídios, o histórico Complexo Juquery, unidade da Fundação Casa, assentamento do MST e um histórico de desastres naturais. Nesse cenário, a Atenção Primária à Saúde (APS) opera sob vulnerabilidade constante. Com 59 equipes de Saúde da Família distribuídas em 15 UBS, a Diretoria de APS enfrentou o desafio comum de transições político/gerenciais: o risco de descontinuidade de projetos, a desmotivação dos profissionais e a insegurança institucional. Estudos apontam que mudanças macro gestoras podem levar ao abandono de ações pactuadas e à fragmentação do cuidado, além de fragilidade emocional das equipes, que muitas vezes utilizam o não-envolvimento como ferramenta de autoproteção, para romper essa lógica, surgiu o Café com Pauta: modelo de reunião semanal, durante o café da manhã e com pautas cronometradas. Esse modelo de reunião surgiu como espaço de reconstrução coletiva, onde a transição não significa ruptura, mas sim aprimoramento, onde a comunicação horizontal surge como antídoto contra a paralisia gerencial Essa iniciativa foi e é vital para o fortalecimento do SUS, pois ataca diretamente a fragmentação administrativa — um dos maiores gargalos da gestão pública, assim, o projeto assegura a manutenção de políticas em um território que não permite pausas.
Narrar nossa experiência ao transformar o espaço da reunião semanal de gestores da APS em um ambiente de construção ativa, onde o tempo foi otimizado e a pauta resolutiva, integrando concordâncias e discordâncias em prol de um planejamento estratégico sustentável. Mostrar as melhorias no processo de trabalho ao estabelecer um canal de comunicação semanal que favorece a devolutiva de pautas e a tomada de decisão coletiva; Promover a segurança emocional e a motivação das equipes gestoras frente às mudanças, assegurando a continuidade de projetos em vigor, evitando o abandono de pactuações anteriores; e fomentar a corresponsabilização dos envolvidos, utilizando o espaço do café da manhã.
A metodologia do Café com Pauta rompe com o modelo de reuniões extensas e improdutivas. Os encontros são realizados semanalmente, no início da jornada, integrando o café da manhã ao processo deliberativo. A estrutura é dividida em três momentos: 1) Acolhimento e Memória: Inicia-se com o café e a devolutiva das pautas da semana anterior, avaliando o que foi cumprido e o que necessita de ajustes; 2) Desenvolvimento Dinâmico: Os problemas são trazidos ao contexto da mesa e discutidos de forma rápida e direcionada, com tempo de início e término rigorosamente programados para evitar a dispersão; 3) Deliberação Coletiva: As decisões são tomadas em grupo, distribuindo responsabilidades entre os membros da diretoria. A utilização de uma pauta visual e objetiva permite que todos acompanhem o fluxo de trabalho. A interface dinâmica permite que experiências bem ou mal sucedidas sejam compartilhadas sem julgamentos, transformando o café em um laboratório de gestão. A equipe de gestão da APS atua como mediadora, garantindo que o diálogo flua entre os diferentes níveis de coordenação, assegurando que o novo gestor e a equipe técnica falem a mesma língua em um ambiente que mescla informalidade acolhedora com rigor técnico-administrativo.
Os resultados apontaram para uma significativa mudança de clima organizacional. A participação, inicialmente tímida e cética, tornou-se ativa e propositiva. Observou-se a redução da sensação de insegurança frente ao futuro, com a equipe sentindo-se parte da construção e não apenas executora de ordens. O Café com Pauta conseguiu evitar a descontinuidade de onze estratégias essenciais, mantendo projetos de gestões anteriores que se mostraram eficazes, enquanto abria espaço para inovações. Houve um ganho na agilidade das resoluções: pautas que levavam semanas para serem decididas passaram a ser resolvidas no ciclo semanal. A responsabilidade compartilhada diminuiu o peso sobre gestores individuais e fortaleceu a saúde mental do grupo, combatendo o isolamento defensivo. O café com pauta criou um ambiente de confiança onde discordâncias são tratadas como insumos para o aprimoramento, e não como conflitos. Conseguimos construir e aprimorar 19 fluxos de trabalho, mantivemos 11 projetos estratégicos que corriam o risco de descontinuidade e criamos juntos muitas abordagens e mudanças para otimizar os trabalhos na ponta.
A experiência de Franco da Rocha entendeu que a gestão da saúde é, essencialmente, a gestão de pessoas e afetos. Em cenários de transição, parar para tomar um café com pauta e propósito não é perda de tempo, mas um investimento em resiliência institucional. O modelo provou que a comunicação eficaz é a única ferramenta capaz de evitar que o legado de uma gestão seja perdido no turbilhão das mudanças políticas. Ao mudar o formato da reunião, criou-se um espaço que valoriza tanto a técnica quanto a escuta, a APS conseguiu transformar o medo da mudança em motivação para aprimorar. A continuidade do cuidado no SUS depende da capacidade dos gestores de manterem projetos vivos através da memória e da construção coletiva. O Café com Pauta mostra que, para que a música da saúde não pare de tocar, é preciso que a orquestra da gestão esteja afinada, sentada à mesma mesa, dividindo o pão e as responsabilidades. É um exemplo de que a simplicidade aliada à disciplina pode revolucionar a governança local, tornando-a mais humana, transparente e inabalável diante dos desafios de um município tão complexo.
TRANSIÇÃO, GESTÃO, PROJETOS ESTRATÉGICOS
MARIA OLÍVIA PIMENTEL SAMERSLA, CARLOS CESAR DA SILVA SOARES, PAULO ROBERTO BARBOSA, JUSSARA MARIA DE CAMPOS, DEISE GOMES SILVA CRUZ, FERNANDA CRISTINA CAMARGO, LUCIMAR LEITE DE OLIVEIRA, ROSANGELA RAMOS, LARISSA MARQUE SILVA, SILVIA FÁTIMA MOURA FRANZONI, NAYARA BRESSA BARBOSA PIRES, HILDETE LENI CARDOSO HAMAMOTO, GILMARA APARECIDA DE OLIVEIRA, ADRIANA MARIA DE LIMA