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A presente experiência teve origem na compreensão de que o cuidado em saúde mental infantojuvenil deve ser construído de forma integrada, considerando o papel central da família no desenvolvimento psíquico, emocional e social da criança. Pesquisas recentes evidenciam que uma ampla gama de transtornos mentais estão associados à mortalidade prematura, apontando a necessidade de construção de estratégias que envolvam pacientes e suas famílias visando a prevenção de agravos e promoção de uma vida longeva. No CAPS IJ de Paulínia, observou-se que muitos pais e responsáveis tinham expectativas de que o atendimento fosse direcionado exclusivamente aos filhos, reforçando uma concepção fragmentada do cuidado, centrada na figura do paciente e não no núcleo familiar. Com base nessa demanda, a equipe multiprofissional estruturou, desde fevereiro de 2025, um atendimento no qual, enquanto os pacientes são acompanhados em grupos terapêuticos, seus pais e responsáveis participam de grupos de orientação e manejo parental. Essa proposta visa ampliar o alcance terapêutico por meio do envolvimento da família no processo de cuidado, promovendo reflexões sobre práticas parentais, estratégias de comunicação e fortalecimento de vínculos. Além disso, busca mapear paradigmas historicamente enraizados que atribuem exclusivamente ao paciente a responsabilidade pelo tratamento, reafirmando a importância da corresponsabilidade familiar como fator protetivo e potencializador da reabilitação psicossocial.
Objetivo Geral: promover o envolvimento ativo dos pais e responsáveis no processo terapêutico dos pacientes atendidos no CAPS IJ, por meio da implementação de grupos de orientação e manejo parental. Objetivos Específicos: Favorecer a corresponsabilização familiar no processo terapêutico, aprofundando a compreensão sobre o papel central da família no tratamento em saúde mental infantojuvenil. Oferecer um espaço de reflexões, acolhimento e troca de experiências entre pais e responsáveis. Orientar sobre estratégias de manejo parental considerando as diferentes etapas de vida dos pacientes e seus contextos sociofamiliares. Articular o trabalho entre equipe técnica, pais e responsáveis, garantindo coerência entre as intervenções realizadas nos grupos de crianças e nas atividades direcionadas aos cuidadores. Contribuir para a adesão e continuidade do tratamento, favorecendo a autonomia das famílias e a manutenção dos avanços terapêuticos no cotidiano.
Os grupos acontecem durante o período em que os pacientes estão nos grupos terapêuticos, aproveitando o momento que os pais e responsáveis estão aguardando a realização dos atendimentos. A equipe multiprofissional composta por enfermeiras, técnicas de enfermagem, assistentes sociais, médicas, psicólogos, fonoaudiólogas e terapeutas ocupacionais se reveza na condução do grupo de orientação e manejo parental, e em paralelo, os pacientes também são atendidos pelo restante dos profissionais, sendo divididas por faixa etária e perfil. A duração dos grupos de orientação e manejo parental é de 60 minutos, para coincidir com o tempo de atendimento dos pacientes. São utilizados recursos audiovisuais como: slides, vídeos, músicas, fotografias e outros materiais de apoio que são organizados e, às vezes, produzidos pela equipe do CAPS IJ de Paulínia. São elencados temas que a equipe avalia serem de relevância como: rotina; alterações comportamentais; higiene do sono; alimentação; uso saudável de telas e fortalecimento de vínculos afetivos. Posteriormente, os profissionais que conduzem os grupos de orientação e manejo parental discutem os casos com os profissionais que atendem os pacientes, aprofundando a compreensão sobre as dinâmicas familiares. Ao longo do último ano, toda a equipe multiprofissional esteve diretamente envolvida no desenvolvimento dessas ações e calcula-se que tenham sido realizados cerca de 500 encontros dos grupos de orientação e manejo parental.
A implementação dos grupos de orientação e manejo parental em horário paralelo ao atendimento das crianças e adolescentes têm apresentado resultados significativos tanto no engajamento familiar quanto na evolução clínica dos pacientes acompanhados pelo CAPS IJ. Observou-se, de forma qualitativa, maior adesão ao tratamento por parte das famílias, refletida na redução de faltas e melhora da comunicação entre os responsáveis e profissionais. O espaço grupal destinado aos cuidadores mostrou-se eficaz para o compartilhamento de estratégias de enfrentamento e para a construção de uma rede de apoio entre os próprios pais e responsáveis. Do ponto de vista psicossocial, verificou-se fortalecimento dos vínculos familiares, melhora na percepção parental acerca das necessidades emocionais dos filhos e maior segurança no estabelecimento de limites e rotinas. As crianças e adolescentes, por sua vez, apresentaram melhora no engajamento terapêutico, redução de comportamentos disruptivos e avanços na socialização e expressão emocional, evidenciando o impacto positivo da corresponsabilidade familiar no processo de cuidado. Além disso, essa experiência tem contribuído para a integração multiprofissional da equipe do CAPS IJ, favorecendo a comunicação entre terapeutas, psicólogos, assistentes sociais e demais profissionais, fortalecendo o modelo de atenção centrado na família e alinhado aos princípios da política Nacional de Saúde Mental e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
A presente experiência reafirma a relevância do envolvimento familiar como componente estruturante no cuidado em saúde mental infantojuvenil. Ao oferecer espaços de orientação aos pais e responsáveis, o CAPS IJ amplia sua capacidade de intervenção, fortalecendo a rede de apoio e promovendo práticas alinhadas aos princípios da RAPS, da integralidade do cuidado e da participação social. Os resultados evidenciam que a inclusão dos pais e responsáveis no processo terapêutico contribui para melhor adesão ao tratamento, melhora na dinâmica familiar e fortalecimento dos vínculos afetivos, construindo um avanço no enfrentamento de concepções tradicionais que limitam o cuidado apenas ao indivíduo. A relevância dessa prática se destaca também por seu potencial de replicabilidade em outros serviços da RAPS, sendo uma estratégia de baixo custo, capaz de ser adaptada conforme a realidade de cada território, mantendo com eixo central o protagonismo familiar e o trabalho em rede. Esta experiência reforça a necessidade de consolidar estratégias de cuidado que reconheçam a família como sujeito do processo terapêutico, contribuindo para a construção de práticas colaborativas ao desenvolvimento e amadurecimento das crianças e adolescentes.
Saúde Mental Infantil, Educação em Saúde
ANDREA APARECIDA ROMANO DE SOUZA RODRIGUES, GISLENE CRISTINA FERREIRA DUARTE, LAURA SANCHES ROCHA, VALÉRIA PEREIRA LOPES FERREIRA