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A experiência desenvolvida no CAPS Infantojuvenil de Hortolândia-SP parte da compreensão ampliada de que saúde é produzida no território, nas relações sociais e na participação comunitária. Aqui evidencia-se o esporte não apenas como atividade recreativa, mas como dispositivo estruturante de produção de saúde coletiva, para ampliar a autonomia dos indivíduos, fortalecer condições de vida saudáveis e enfrentar determinantes sociais dos processos de adoecimento, incluindo os psíquicos, aspectos estes que se alinham a Reforma Psiquiátrica. O projeto consolidou-se em 2024 através da inserção no InterCAPS, tradicional evento esportivo regional promovido pelo Serviço de Saúde Dr. Cândido Ferreira e pelo Coletivo de Esportes da Saúde Mental de Campinas. A iniciativa justifica-se pela necessidade de romper estigmas arraigados à pessoas com sofrimentos mentais e que fazem uso de risco de drogas. Considera-se que o estigma e a segregação são fatores produtores de sofrimento psíquico. Assim, ao promover o acesso ao esporte, ao lazer e à convivência comunitária, o município não apenas “inclui”, mas produz condições objetivas e subjetivas de saúde. O público-alvo são crianças e adolescentes do CAPSIJ. A participação nas edições de 2024 e 2025 mobilizou jovens, famílias e a rede intersetorial, fortalecendo a participação social e consolidando o esporte como estratégia de produção de saúde por meio da ocupação de espaços públicos e da ampliação de vínculos e redes sociais.
– Produzir saúde mental através da participação esportiva coletiva. – Promover a integração social e o lazer; – Fortalecer autonomia, protagonismo e habilidades socioemocionais, como cooperação, respeito a regras e manejo de frustrações. – Ampliar redes sociais e comunitárias como fator de proteção psicossocial; – Reduzir estigmas por meio da visibilidade das potências dos jovens; – Consolidar práticas intersetoriais como estratégia estruturante de produção de saúde no território;
A metodologia adotada compreendeu o esporte como prática clínica ampliada e como estratégia de cuidado e reabilitação psicossocial. A ação inicial foi estabelecer iniciativas para empoderar a equipe, rompendo o paradigma da necessidade de desempenho. Os treinos realizados em espaços públicos (Parque Lago da Fé e Praça da Cidadania) não foram apenas preparação técnica, mas atos de ocupação territorial e produção de pertencimento social, em que a própria equipe foram os “técnicos”, atuando como facilitadores, deslocando o lugar tradicional do cuidado ambulatorial para uma prática relacional, coletiva e territorializada. Foram realizadas reuniões regionais de organização junto ao Coletivo de Esportes e ações locais com famílias para arrecadação de taxas. A mobilização intersetorial foi vital: a Prefeitura cedeu ônibus, almoço, kits de lanche e uniformes oficiais. Houve visitas prévias ao local dos jogos (Parque Ecológico em Campinas). O dia do campeonato contou com usuários, profissionais e famílias em um piquenique coletivo, integrando-se ao CAPS III Adulto de Hortolândia e a outros municípios da região de Campinas. A mobilização intersetorial envolvendo saúde, esporte e gestão municipal demonstra que a produção de saúde exige articulação de políticas públicas e corresponsabilização institucional. O deslocamento intermunicipal, o piquenique coletivo, a convivência com outros CAPS e municípios constituíram-se como experiências concretas de ampliação do mundo social desses jovens
Em 2024, Hortolândia conquistou o 3o lugar; em 2025, consagrou-se campeão. Contudo, o ganho principal foi qualitativo: os rótulos aos quais constantemente são submetidos foram substituídos pelo pertencimento. Observou-se melhora na autoestima e autorregulação. A participação das famílias foi transformadora; pais relataram profunda emoção ao verem os filhos superando a barreira da invisibilidade. A repercussão positiva nas redes sociais e o recebimento pelo Prefeito elevaram o status dos jovens de pacientes a cidadãos/atletas. A experiência provou que o cuidado em liberdade é eficaz na inclusão social e na redução de danos. O vínculo entre profissionais e usuários foi fortalecido pela convivência fora do ambiente ambulatorial, refletindo em maior adesão ao tratamento e diminuição de crises. A vitória no campo simbolizou a vitória contra o estigma, provando que, com oportunidade e suporte intersetorial, esses jovens são capazes de ocupar qualquer espaço. O reconhecimento regional inseriu Hortolândia no mapa das experiências exitosas de saúde mental no estado, servindo de inspiração para outros municípios da RRAS.
A experiência reafirma que a saúde é produzida na vida e não apenas nos serviços de saúde. O esporte mostrou-se um potente dispositivo de produção de saúde mental ao romper muros e ocupar o território regional, ao ampliar horizontes territoriais, ao produzir bem-estar permitindo que os jovens fossem vistos além de diagnósticos. Produzir saúde através do esporte significa investir em práticas que ampliam potência de vida, autonomia e cidadania. Trata-se de uma estratégia concreta de consolidação do SUS enquanto sistema que promove vida digna e inclusão. Reafirma-se que cuidado em liberdade ganha vida no grito de gol e na conquista de um troféu que simboliza cidadania plena. O desafio futuro é manter esse grupo como oferta permanente do CAPSIJ, garantindo que o entusiasmo se desdobre em novas estratégias de ocupação territorial e defesa inegociável do SUS. Menos barreiras, mais espaços: essa é a síntese da nossa luta por uma sociedade sem manicômios e com acesso universal às necessidades de cada sujeito. A experiência prova que a inclusão se faz no coletivo, na rede e na alegria do encontro.
PROMOÇÃO DA SAÚDE, saude mental
ZILDA ALVES DA SILVA