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Este projeto iniciou-se a partir da observação da forma como a Unidade Básica de Saúde (UBS) Vila Paiva , em São José dos Campos, planejava e se organizava para realizar, em uma única semana, o atendimento das condicionalidades de saúde do Programa Bolsa Família (PBF) para seus 1.200 beneficiários, que comparecem à unidade para o recadastramento semestral obrigatório. Nesse período, são realizados o acompanhamento de dados antropométricos e a vigilância vacinal de crianças, além do acompanhamento de gestantes no pré-natal, garantindo o recebimento do benefício. Preceptora e alunos em estágio de extensão curricular de medicina na unidade identificaram a passagem desse grande número de usuários pela UBS, em um curto intervalo de tempo, como uma oportunidade para realizar a vigilância em saúde e o cuidado ampliado. A parceria com a equipe se constituiu com o objetivo de qualificar as ações já realizadas e ampliar as atividades de promoção, prevenção, assistência e educação em saúde. Destaca-se que o PBF contempla uma população em situação de elevada vulnerabilidade social e econômica, frequentemente associada a importantes agravos e riscos à saúde.
Objetivo geral: Acolher a população beneficiária do PBF e, a partir da escuta, qualificar e ampliar as ações de vigilância e cuidado em saúde para atender as necessidades específicas individuais e familiares. Objetivos específicos: – Reduzir o estigma associado aos beneficiários do programa; – Realizar busca ativa de atraso vacinal em todas as faixas etárias; a – Atualizar a vacinação de crianças e de adultos; – Aferir peso e estatura de todos os participantes, calcular o IMC e identificar desvios nutricionais para encaminhamento aos grupos de acompanhamento nutricional; – Realizar exame citopatológico do colo do útero para mulheres em atraso no exame periódico; – Realizar avaliação do crescimento e do desenvolvimento neuropsicomotor de crianças de 0 a 2 anos e adesão à puericultura; – Identificar pessoas com hipertensão e diabetes e inserir na linha de cuidado; – Oferecer triagem visual; e – Desenvolver ações de saúde bucal voltadas à promoção, prevenção e cuidado.
Foram realizadas reuniões de sensibilização com as equipes da Estratégia Saúde da Família (ESF), em conjunto com os estudantes, para discutir a importância do PBF na redução da pobreza, insegurança alimentar e mortalidade infantil, além de promover reflexões sobre conceitos e preconceitos historicamente construídos acerca do programa. As equipes foram provocadas a revisitar seu papel profissional e o compromisso ético com a oferta de suas competências. Após esse processo de desconstrução e reafirmação de responsabilidades, o grupo se articulou para construir um trabalho organizado, ético e pactuado. Definiram se os bairros atendidos em cada dia da semana, confeccionaram se convites porta a porta com apoio dos ACS e estudantes e organizaram se salas e fluxos. As ações foram estruturadas em diferentes estações: Recepção: conferência de documentos e registros vacinais, com encaminhamento para atualização. Cadastro: aferição antropométrica, cálculo de IMC, identificação de desvios nutricionais e registro. Puericultura: avaliação da caderneta, crescimento, desenvolvimento, vacinação e orientações sobre alimentação infantil. Hiperdia: escuta qualificada, verificação de acompanhamento, aferição de pressão e glicemia. Triagem visual: aplicação do teste de Snellen e encaminhamento quando necessário. Saúde bucal: ações educativas e preventivas, uso do escovódromo e agendamento odontológico. Durante todo o processo, a equipe acolheu demandas individuais com escuta qualificada.
Na semana da avaliação de condicionalidade, que ocorre semestralmente, passam pelo novo fluxo de acolhida, vigilância e cuidado cerca de 900 pessoas. A primeira ação (em 2023-1), mostrou à equipe o seu potencial e a possibilidade de ampliar a carteira de serviços e a gestão do cuidado de modo harmônico e colaborativo. Nas demais cinco ações, além do fluxo de vigilância, prevenção e cuidado estabelecido, novos eixos de educação e diagnóstico, relativos ao PBF, foram acrescentados. A segunda semana (2023-2) teve como tema a Segurança Alimentar; a terceira (2024-1), se desenvolveu a partir do tema anterior, focando no estado nutricional das crianças atendidas pelo PBF, com identificação de severos desvios nutricionais e seguimento longitudinal das crianças e famílias. Em 2024-2, o tema foi saúde mental, alinhando uma questão prevalente de saúde coletiva ao conteúdo da Unidade Curricular dos alunos. Foram aplicadas escalas, os casos moderados e leves foram manejados em rodas e trabalhos em grupos; dois pacientes com ideação suicida identificados foram imediatamente encaminhados para atendimento e cuidado médico. Em 2025-1, a ação se concentrou na saúde da mulher, com escuta qualificada sobre saúde reprodutiva, a importância e as barreiras para a realização do exame preventivo de citopatológico de colo de útero. Por fim, em 2025-2 a linha de cuidado do pé diabético, complicação prevalente e prevenível do diabetes, foi estruturada. Nesse período, as metas da APS foram alcançadas.
A forma como os processos de trabalho são instituídos e avaliados relaciona-se diretamente aos resultados da ação planejada. Desenhado como um programa de garantia de direitos, articulando saúde, educação e proteção social, os instrumentos do PBF permitem realizar a vigilância em saúde e integrar serviços. No entanto, para que a integração aconteça, é preciso compreender e discutir o próprio PBF com as equipes envolvidas – do serviço, ensino, de outras áreas de apoio. Para além de alcançar as metas, a ampliação e qualificação das ações de vigilância e cuidado na semana do atendimento às condicionalidades do PBF modificou os processos de trabalho (e a realização profissional e pessoal) da equipe; aproximou alunos e equipes de saúde; fortaleceu o vínculo dos pacientes entre equipe e unidade, organizou a gestão do cuidado; aproximou vigilância e assistência. Essa iniciativa mostrou a importância de romper o trabalho compartimentalizado e segmentado e criar espaços para o compartilhar e o acolher. Ações (e pessoas) ficaram mais leves, a obrigação tornou-se atividade prazerosa, realização profissional. Como deve ser o trabalho na APS e a formação médica: ensino e serviço efetivando políticas públicas e garantindo direitos.
Programa Bolsa Família, Vigilância, APS
ANA MARIA ROCHA FERNANDES DE SÁ, JOHN DONIZETH JESUS VENÂNCIO, CARINA DA CRUZ MELO ACCIARIS, HAMILTON DA SILVA MAIA, ENRICO BENEDETTO CUNHA, PEDRO VITOR GOMES ANTERO, ANDRÉ GUSTAVO GOMES DA SILVA, BIANCA SABRINA ARAÚJO NOLETO, THAINÁ NOGUEIRA DA ROSA, PAULA VILHENA CARNEVALE VIANNA, GEORGE LUCAS ZENHA DE TOLEDO