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O CR foi implantado em 2013 como estratégia de ampliação do acesso da população em situação de rua aos serviços de saúde. Inicialmente, o modelo baseava-se em atendimentos territoriais pontuais, realizados por equipe composta por médico, enfermeiro, técnicos de enfermagem e ACS, com foco assistencial no território. Embora assegurasse presença no espaço da rua, esse arranjo apresentava limitações quanto à coordenação do cuidado, à integração com a RAS e à consolidação de acompanhamento longitudinal efetivo. Diante desse cenário, em 2025, foi iniciado um processo de reorganização do CR, orientado pelos atributos da APS com fortalecimento da intersetorialidade. Buscou-se consolidar o CR como estratégia estruturante da APS, reconhecendo o território como espaço legítimo de produção do cuidado qualificado, reduzindo iniquidades e assegurando uma política pública efetiva. Embora o CR se configure de elevada relevância sanitária, as diretrizes estabelecidas pelo MS impõem entraves significativos à sua implementação, especialmente aos municípios com menor capacidade instalada e escassez de força de trabalho. Na prática, muitos municípios não dispõem de ampla rede multiprofissional e quando possuem são frequentemente são priorizadas para as equipes eMulti, mantendo a população em situação de rua em condição de invisibilidade. O MS necessita avançar para além do desenho normativo, fortalecendo o apoio técnico e financeiro aos municípios e reafirmando o compromisso do SUS com a equidade
Objetivo Geral: Reorganizar e qualificar o processo de trabalho do CR, fortalecendo a coordenação, a longitudinalidade e a equidade no acesso aos serviços de saúde da população em situação de rua. Objetivos Específicos: Garantir a continuidade do cuidado à população em situação de rua, fortalecendo o acompanhamento longitudinal no território, o vínculo com a equipe. Ampliar o acesso oportuno aos serviços de saúde no território, reduzir barreiras de acesso e iniquidades em saúde por meio da oferta de atendimentos por livre demanda de consultas médicas e de enfermagem. Qualificar o cuidado às condições crônicas e infecciosas, com ênfase no diagnóstico oportuno e monitoramento. Fortalecer a articulação com RAS e a rede intersetorial, assegurando encaminhamentos efetivos para redução de descontinuidades do cuidado. Contribuir para a redução das iniquidades, promovendo atenção integral à saúde da mulher, acompanhamento pré-natal, planejamento familiar, prevenção e promoção da saúde.
Implantado inicialmente com configuração assistencial limitada, o CR passou por redefinição estratégica, reconhecendo-se a necessidade de maior resolutividade clínica e coordenação do cuidado. Ainda que enquadrada na modalidade I, por decisão da gestão municipal, a equipe passou a contar com profissional médico, compreendido como elemento essencial para garantir continuidade do cuidado e equidade. O trabalho foi qualificado a partir da definição de pontos fixos no território, reconhecidos pela população, garantindo previsibilidade de acesso, acolhimento, vínculo e acompanhamento longitudinal. As ações assistenciais incluem consultas médicas e de enfermagem, procedimentos, coleta de exames laboratoriais e testes rápidos no território em todo período de funcionamento do CR inclusive carga viral, acompanhamento de agravos transmissíveis e não transmissíveis. O CR articula e conduz o processo de encaminhamento de usuários para casas terapêuticas com integração entre saúde e assistência social. Destaca-se a atuação na saúde da mulher, com acompanhamento de pré-natal compartilhado com a rede especializada e planejamento familiar. Como expressão da responsabilização sanitária, o CR assegura o transporte de gestantes para consultas de pré-natal de alto risco e de usuários com indicação de internação hospitalar. Essa prática reduz barreiras estruturais de acesso, qualifica a continuidade do cuidado e reafirma a APS como ordenadora da RAS e o CR como estratégia resolutiva e equânime.
O CR mantém articulação permanente com a RAS e a rede intersetorial, incluindo CAPS, CTA, CEO, Urgência e Emergência, Hospital e Maternidade Municipal, POP Rua e Serviços de Acolhimento Institucional, ampliando a resolutividade e fortalecendo a longitudinalidade e a integralidade do cuidado. São realizadas campanhas temáticas e campanhas vacinais do MS, seguindo o padrão assistencial das UBS. A equipe acompanha agravos de saúde, articula internações, realiza seguimento pós-alta hospitalar e busca ativa em situações de evasão. Segundo prontuário eletrônico em 2025, foram realizados 12.807 atendimentos (médico, enfermagem e ACS), um marco importante, pois no início da implantação do CR não tinha médico então os atendimentos eram apenas da equipe de enfermagem e ACS. A ampliação do acesso, da continuidade do cuidado e da coordenação assistencial da população em situação de rua, foi alcançada após reorganização do serviço. Realização de exames laboratoriais, acompanhamento à saúde da mulher, incluindo pré-natal e planejamento familiar, evidenciando a qualificação do acompanhamento. A atuação em pontos fixos e in loco garantiu previsibilidade de acesso, atuação territorializada, reduzindo barreiras de acesso, fortalecendo o vínculo, ampliação da cobertura e maior adesão ao cuidado. O monitoramento contínuo das ações qualificou a gestão municipal, reduziu a fragmentação da assistência e consolidou o CR como estratégia efetiva da APS no enfrentamento das iniquidades em saúde.
A experiência do CR evidencia que a inovação na APS se expressa na capacidade de reorganizar processos de trabalho a partir das necessidades reais do território. A atuação territorializada, a previsibilidade de acesso e a articulação intersetorial reafirmam os atributos da APS e equidade. Fortalece a coordenação do cuidado, qualifica a gestão e reduz a fragmentação da assistência, configurando-se como prática resolutiva, sustentável e alinhada aos princípios do SUS, com elevado impacto sanitário e potencial de replicabilidade. Embora o CR represente alta relevância sanitária e social, as diretrizes organizativas do MS ainda impõem entraves à sua implementação pelos municípios, especialmente no que se refere à composição das equipes e ao acesso aos incentivos financeiros. Em Osasco, foi necessária a manutenção de profissional médico em equipe de modalidade I, com financiamento majoritariamente municipal, reconhecendo-se sua essencialidade para a continuidade do cuidado, a resolutividade e a equidade. Evidencia-se, assim, a necessidade de revisão das diretrizes nacionais, de modo a ampliar a viabilidade da estratégia e garantir respostas efetivas à população em situação de rua, público crescente e historicamente invisibilizado.
Atenção Primária, Equidade, Populações Vulneráveis
JULIANE PEREIRA CRUZ DA SILVA, MICHELLE CRISTINA MARFIL, ERICA LIMA DA SILVA