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O consultório na Rua (CnR), é uma modalidade de equipe especial da atenção primária existente desde 2011, cujo objetivo é ofertar cuidados em saúde para a população em situação de rua considerando as especificidades desta população, que, por conta de sua vulnerabilidade extrema, têm seus direitos constantemente negados, inclusive o direito à saúde (BRASIL, 2011; SÃO PAULO, 2023). Com o aumento da população em situação de rua no Brasil e principalmente na cidade de São Paulo, os pontos de concentração têm se descentralizado e crescido às margens da metrópole. Diante da observação deste crescimento no território de Campo Limpo, surge a necessidade de uma equipe para ofertar o cuidado a este expoente populacional. Implantado há pouco mais de um ano, o CnR Campo Limpo já apresenta resultados significativos de melhora quantitativa e qualitativa e qualitativa com o cuidado deste recorte da população no que tange à garantia do direito à saúde e ao cuidado em rede. A população em situação de rua enfrenta múltiplas vulnerabilidades, como a falta de documentação, acesso limitado aos serviços de assistência social e trabalho, além da fragilidade nas condições de moradia. Desta maneira, este trabalho faz-se crucial para promover a reflexão acerca dos desafios e potencialidades de se cuidar das hipervulnerabilizações que se naturalizam em meio às fragilidades das vidas nas hiper periferias da cidade, a partir do relato de experiência dos profissionais que compõem a equipe supracitada.
O objetivo geral deste trabalho é refletir acerca dos avanços e desafios do trabalho da equipe de Consultório na Rua Campo Limpo através da exposição dos principais resultados quantitativos e conquistas qualitativas da equipe durante seu primeiro ano de implementação. Especificamente: ● Refletir acerca da intersecção do desenvolvimento do processo de territorialização e a relação entre o conceito de território vivo e o trabalho com a população em situação de rua; ● Explanar as possibilidades de construção do cuidado no setting não convencional a partir de a perspectiva de suas potencialidades e limitações; ● Pautar os desafios do cuidado com as populações prioritárias com os atravessamentos do contexto da rua; ● Analisar a relação entre as dinâmicas da rua, o adoecimento psíquico e o uso de substâncias psicoativas; ● Analisar a importância da construção de vínculos e a articulação intersetorial para garantir a continuidade do cuidado e o acesso aos direitos sociais.
Este relato de experiência, baseia-se em dois eixos: a análise dos dados do primeiro ano de atuação da equipe de Consultório na Rua (eCR), compreendendo o período de dezembro de 2023 a janeiro de 2025; e na análise qualitativa dos profissionais técnicos da equipe (Enfermeiras, Médico, Psicólogo, Assistente Social). Embasando-se metodologicamente na visão ampliada de saúde e de práticas de cuidado reconstrutivas propostas por Ayres (2009), compreende-se a totalidade do sujeito, utilizando das tecnologias em saúde, mas não se limitando a elas; englobando a dimensão crítica e o contexto em que o sujeito se encontra, possibilitando uma visão de cuidar que aposta na reconciliação entre as práticas médicas e a produção da potência de ação e vida das intersubjetividades em questão. É importante pautar que, a compreensão do que é saúde parte da teoria dos determinantes sociais em saúde perpassando a necessidade de articulação intersetorial, para garantir a integralidade do cuidado. A partir disso, acrescenta-se a análise, a questão das interseccionalidade, na perspectiva de Akotirene (2019), que aprofunda o olhar para a questão das categorias raça, gênero e classe, pensando assim a multiplicidades de corpos e as especificidades do cuidado.
Em 1 ano de implantação, a eCR realizou 205 exames de BK e acompanhou 27 pacientes com tuberculose. Desses, 11 seguem em tratamento, 7 receberam alta por cura, 3 foram encaminhados à UBS para continuidade do cuidado e 6 mudaram-se, refletindo os desafios da mobilidade dessa população. Esses resultados mostram o impacto positivo do CnR no enfrentamento da tuberculose, com foco na saúde de pessoas em situação de rua. Foram colhidas 263 sorologias para ISTs/HIV-Aids, diagnosticando 95 casos de sífilis. 60 pacientes concluíram o tratamento, com estratégias de acompanhamento eficazes, embora 9 pacientes tenham sido difíceis de localizar, 1 tenha falecido e 7 ainda estejam pendentes. A equipe segue com 7 pacientes em tratamento, 2 em situação prisional e 3 em retratamento. Além disso, ações de Redução de Danos (RD) foram implementadas, com 3648 atendimentos, oferecendo serviços como banho, roupas, água, cobertores, preservativos e orientações sobre o uso de drogas. Em saúde mental, a equipe fez parceria com a RAPS, encaminhando 156 pacientes aos CAPS AD e 234 em acompanhamento. Foram 14 encaminhamentos ao CAPS Adulto, com acompanhamento de 100%. Foram registrados 307 agendamentos de RG, 67 de benefícios assistenciais, 64 de vagas em centros de acolhida e 50 atendimentos jurídicos, promovendo a autonomia e acesso aos direitos sociais.
Esses resultados são um reflexo direto do empenho da equipe CnR, que, em um curto período, tem feito a diferença na vida de muitas pessoas, combatendo os agravos de notificação compulsória e oferecendo cuidados de saúde essenciais para a população em situação de vulnerabilidade. Ainda na perspectiva da prevenção combinada, a equipe tem implementado ações de Redução de danos (RD), compreendendo este conceito enquanto postura ética de cuidado. Acerca do acompanhamento em saúde mental, a partir da compreensão do espaço da rua como um potencial adoecedor psíquico e vulnerabilizador ao uso de substâncias psicoativas, a equipe vem desenvolvendo um trabalho de parceria com os demais pontos da RAPS, promovendo o cuidado em liberdade e no território. Por fim, com relação às demandas socioassistenciais, estas evidenciam o impacto positivo do CnR na garantia de acesso aos direitos sociais e o fortalecimento da rede socioassistencial. Através disso, é possível construir estratégias para a promoção da autonomia, buscando formas de reduzir a invisibilidade e a marginalização da população em situação de rua.
CNR; APS; Prevenção de Agravos; Redução de Danos
REBECCA BERNIZ MAURICIO, DÉBORA PAULA DE OLIVEIRA TORRES, LEANDRO HENRIQUE MACIEL, GEANNE MARTIM DA SILVA SOBREIRA, ALAN JOSE DE SANTANA