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Comunicar o desdobramento de uma oficina artística dentro de um Centro de Atenção Psicossocial, onde os participantes são usuários psicóticos graves, e/ou com rebaixamento cognitivo intelectual. A arte cerâmica é uma arte milenar, constituída em diversos processos até chegar em seu estado final. Advinda do barro, em seu estado bruto, a argila quando moldada pode revelar diversas expressões estéticas, e o que poderia ser um objeto utilitário, torna-se uma obra de artes plásticas. A fim de dar luz ao processo criativo, a oficina propõe-se também acolher as subjetividades, bem como auxiliar no desenvolvimento dos processos individuais cognitivos, comportamentais e de aspecto psicomotor. Além de acolher e contribuir para o ressignificado de delírios persistentes e manejo de crises psicótica através dos encontros. O resultado, ou ao que se espera dele, é preciso passar por processos que vão desde funções operativas e organizacionais, até criativos, de observação, e de frustrações, rompendo com uma lógica imediatista e de linha de produção de total plenitude. “Enfim, as iniciativas de arte-cultura produzidas pelos sujeitos que viveram ou que ainda vivem a experiência do sofrimento, da medicalização, da discriminação, do estigma na transformação da sociedade são o instrumento estratégico de produção de novos significados, novos sentidos, ou de um novo imaginário social sobre a loucura, propiciando novas práticas sociais de solidariedade, autonomia e cidadania.” (Amarante, 2022)
A oficina utiliza a argila como recurso expressivo terapêutico, tendo como objetivo estimular e promover habilidades coletivas e individuais. As atividades propostas dentro de cada encontro focam do desenvolvimento das habilidades psicomotoras, trabalho em grupo, promoção de saúde mental, práticas expressivas e de aspectos emocionais subjetivas. Destina-se à em usuários psicóticos crônicos, e/ou com transtorno persistentes, que apresentem ou não dificuldades de interação, dificuldades para realizar tarefas cotidianas, limitações motoras, intelectuais e/ou cognitivas. Visa contribuir para o processo de autonomia do usuário, sob à luz da reforma psiquiátrica e da luta antimanicomial.
As oficinas acontecem desde março de 2023, todas as quartas-feiras dentro do Centro de Atenção Psicossocial, no período da manhã, com duração mínima de três horas. Os encontros são dirigidos, porém as atividades são construídas coletivamente a partir do desejo dos participantes, onde após levantamento uma lista de obras que gostariam de realizar, é feita uma votação onde fica definido qual será a ordem de confecção das mesmas. Vale acrescentar que uma obra, pode durar vários encontros até que a primeira etapa seja concluída, junto à técnica ensinada e processo criativo. A confecção das peças une técnicas variadas, como pinch-pot, placas, modelagem, entre outros, passando por algumas etapas: 1ª Preparo da massa cerâmica (argila), 2ª Confecção da obra, 3ª Queima em forno de baixa temperatura (900ºC), 4ª Esmaltação, 5ª Queima em alta temperatura (1264ºC). As queimas ocorrem em fornos disponibilizados pela Prefeitura Municipal de Diadema, em parceria com a Secretaria de Cultura do Município.
O grupo permaneceu com os mesmos integrantes totalizando 08 usuários/as, com a desistência de duas usuárias, uma por baixa adesão da família, e outra por ter sido internada pela família em instituição de longa permanência. As oficinas contribuíram positivamente na vida dos usuários, que passaram a socializar coletivamente, apresentando boa interação, e senso de solidariedade, por vezes, se ajudavam mutuamente, tornando o processo para a realização das peças mais fluido e descontraído. Os usuários demonstraram diversos sentimentos, uma vez que se viam confrontados entre as expectativas do que desejavam fazer, e a realidade da peça pronta, desenvolvendo senso autocritico melhorado, concentração, e elaboração de frustração, do qual por vezes foi necessário realizar rodas de conversa a respeito. Foi notório que a organização do ambiente realizada por eles antes e depois da oficina, o modo de elaborar as peças, também contribuiu com a higiene de alguns usuários, que outrora apresentava autocuidado prejudicado, passando a comparecer no grupo mais bem cuidado ao longo dos encontros. Ao conseguir realizar concretamente a evolução de um processo que inicia-se no imaginário e que parte para a matéria física, entende-se que a oficina contribuiu com os usuários, também organizando seu mundo interno simbólica e real, visto que durante todo o período nenhum usuário apresentou crises graves, apenas episódios onde foi possível contornar na oficina, ou no próprio equipamento do Caps.
Considerando a relevância da arte na saúde mental, destacamos na história da Reforma Psiquiátrica Nise da Silveira, e Franco Basaglia e concluímos que a Oficina Olaria demonstra ser uma potente ferramenta para o desenvolvimento dos usuários e um instrumento importante para o fortalecimento de autonomia. Para além da oficina em si, que proporcionou o desenvolvimento individual e coletivo, observou-se a atuação em rede do território, e uma articulação entre secretarias diferentes do município: Cultura e Saúde. O que proporcionou aos usuários vivências extra-caps, como a ocupação de espaços culturais, como mostras, exposições, e visitas ao Museus de Arte Popular de Diadema. Conclui-se que as oficinas de artes manuais têm grande relevância dentro dos serviços de saúde mental, entretanto vale ressaltar a importância do acolhimento de outras secretarias para que absorva os usuários como alunos inscritos em seus cursos periódicos nos centros culturais do município, para que seja garantido o acesso dos usuários de saúde mental em outros serviços públicos que não se restrinjam só ao caps, ou dependendo de articulações do caps com outros serviços, garantindo a autonomia e inclusão dos usuários da saúde mental na sociedade.
saúde mental, arte, cultura, olaria
Caroline Azevedo Barbosa, Andrezza Rocha da Silva, Roberta Rodrigues Mendes, Flavia Moccia Silva