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O Brasil enfrenta crescente violência contra a pessoa idosa, evidenciada pelo aumento expressivo das denúncias de violações de direitos. Nos três primeiros meses de 2025, o Disque 100 recebeu cerca de 250 mil denúncias — média de quase 2.800 por dia —, aumento de 140% em relação ao mesmo período de 2022, quando foram registradas pouco mais de 103 mil ocorrências. Esse cenário caracteriza a violência como grave problema de saúde pública e violação de direitos humanos, impactando diretamente a autonomia e a qualidade de vida dos idosos. O envelhecimento populacional, associado à elevada prevalência de doenças crônicas como hipertensão, diabetes, depressão e síndromes demenciais, aumenta a dependência funcional e a vulnerabilidade social, elevando o risco de negligência, abusos e violência, especialmente em territórios com desigualdades sociais. No SUS, o enfrentamento da violência exige organização regional das redes de atenção e articulação entre Estado e Município, com fluxos pactuados e corresponsabilização entre os serviços. Na Zona Norte de São Paulo, a complexidade das situações demanda estratégias integradas e espaços permanentes de articulação interinstitucional. O NPV do AME CRI Norte, sob gestão da OSS Sociedade Brasileira Caminho de Damasco (SBCD), participa ativamente do Fórum do NPV da Supervisão Técnica de Saúde de Santana/Jaçanã, contribuindo para o fortalecimento da rede de proteção por meio de acompanhamento integral e efetividade das políticas públicas.
Relatar a experiência de articulação entre Estado e Município no enfrentamento da violência contra a pessoa idosa a partir das ações do NPV do AME CRI Norte, situado na Zona Norte de São Paulo. As ações foram inicialmente pautadas nas diretrizes do Documento Norteador para Atenção Integral às Pessoas em Situação de Violência do Município de São Paulo de 2012. O objetivo é descrever as estratégias interdisciplinares empregadas no acolhimento e monitoramento contínuo dos casos, evidenciar a relevância da articulação intersetorial na proteção e garantia de direitos, analisar os principais tipos de violência identificados e seus determinantes, e identificar os impactos da experiência na qualificação do cuidado e fortalecimento da rede regional de atenção à saúde da pessoa idosa.
Trata-se de relato de experiência desenvolvido pelo NPV do AME CRI Norte, ambulatório de atenção especializada à pessoa idosa, localizado na Zona Norte de São Paulo. Implantado em 2012, o serviço permanece em funcionamento contínuo, integrado à rede regional de atenção à saúde e proteção social. A metodologia envolveu análise de registros de dados armazenados em prontuários eletrônicos e transferidos para banco de dados próprio do estudo, com conferência de inconsistências mediante consulta aos prontuários originais. Foram consideradas variáveis sociodemográficas (gênero, etnia, idade, escolaridade, faixa de renda, estado civil, situação previdenciária e arranjo familiar), condições de saúde e tipos de violência. O NPV do CRI Norte é constituído por equipe interdisciplinar (serviço social, psicologia, enfermagem, fisioterapia, nutrição, farmácia, odontologia e equipe administrativa). Os casos foram referenciados pela Atenção Básica e posteriormente encaminhados ao NPV, que realizou reuniões técnicas e a elaboração do Projeto Terapêutico Singular (PTS), conforme os protocolos estabelecidos na unidade.
No período de 2020 a 2025, o Núcleo de Prevenção à Violência (NPV) do AME CRI Norte realizou 238 atendimentos a pessoas idosas em situação de violência ou vulnerabilidade social, com predomínio do sexo feminino (82,4%). A idade média foi de 76,1 anos (60–101), com maior concentração entre idosos longevos. Houve predomínio de indivíduos de raça branca, com baixa escolaridade, renda de até um salário-mínimo, aposentados residentes com familiares, evidenciando vulnerabilidade socioeconômica associada à dependência funcional e à presença de comorbidades crônicas, como hipertensão, diabetes, depressão, síndromes demenciais e acidente vascular encefálico. A violência psicológica foi o tipo mais prevalente (65,9%), seguida por negligência (26,5%), violência física (23,1%) e financeira (14,7%). Observou-se coexistência de múltiplos tipos de violência em 29% dos casos, especialmente a associação entre violência física e psicológica. Em 63% das situações, os agressores eram filhos, seguidos de companheiros, sendo frequente o consumo de álcool ou outras drogas pelos agressores, evidenciando a violência intrafamiliar como principal desafio no território. A participação do NPV do CRI Norte no Fórum da Supervisão Técnica de Saúde de Santana/Jaçanã favoreceu a implementação de fluxos de acolhimento, o monitoramento contínuo dos casos e a condução sistemática dos atendimentos na unidade. Como resultados qualitativos, destacam-se o fortalecimento da rede regional de proteção à pessoa idosa.
A experiência do NPV do AME CRI Norte evidencia que a articulação entre Estado e Município é central para o enfrentamento da violência contra a pessoa idosa, especialmente em territórios com vulnerabilidades sociais. A atuação interdisciplinar, associada à organização regional da rede e à construção de fluxos pactuados, foi fundamental para acolhimento qualificado, acompanhamento longitudinal e proteção integral dos idosos. A participação do NPV do CRI Norte no Fórum da Supervisão Técnica de Saúde de Santana/Jaçanã fortaleceu a articulação municipal, a corresponsabilização entre os serviços e a qualificação das respostas institucionais, favorecendo integralidade do cuidado e garantia de direitos. Os resultados indicam que estratégias estruturadas em rede ampliam a resolutividade, reduzem a fragmentação das ações e aumentam a visibilidade da violência contra a pessoa idosa. A experiência reforça a importância da regionalização e da cooperação entre entes federativos, podendo subsidiar a replicação de práticas semelhantes em outros contextos do SUS.
Violência Contra Idoso; Intersetorialidade
ANDRÉIA CRISTIANE MAGALHÃES