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O Brasil apresenta um processo de envelhecimento de sua população e de transição epidemiológica caracterizada pela queda relativa das condições agudas e pelo aumento relativo das condições crônicas (MENDES, 2012). Em contexto municipal, o principal grupo de causas de morte da cidade é o das doenças crônicas, com ênfase nas circulatórias (SANTOS, 2024). As pessoas com doenças crônicas e seus familiares convivem com suas patologias diariamente e por longo tempo ou até mesmo por toda a vida. Para enfrentar o cenário, é fundamental que os envolvidos estejam devidamente informados sobre suas condições, motivados a lidar com elas e adequadamente capacitadas para cumprirem com o plano de tratamento preconizado (BRASIL, 2014). Na maioria dos casos, o manejo das condições crônicas envolve novos hábitos, sendo este um ponto sensível a ser trabalhado pela equipe com o paciente. Promover mudança de estilo de vida é um grande desafio para os profissionais de saúde, pois isso está diretamente relacionado a questões subjetivas. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2003), a atenção colaborativa e centrada na pessoa e na família, em substituição à atenção prescritiva e centrada na doença, transforma a relação entre os usuários e os profissionais de saúde, pois aqueles deixam de ser pacientes e se tornam os principais produtores sociais de sua saúde. Assim, quando dialogam com as possibilidades e expectativas do indivíduo, as intervenções mostram maior efetividade.
Oferecer cuidado ampliado às pessoas portadoras de doenças crônicas, através da oferta de educação em saúde, estimular o autocuidado apoiado, fortalecer as potencialidades individuais e, principalmente, promover saúde com respeito aos desejos e contexto de cada pessoa ou família.
A equipe multiprofissional da Atenção Primária em Saúde (APS) que atua nos territórios das Unidades de Saúde da Família (USFs) Morro da Nova Cintra e São Jorge e Caneleira (eMulti VI) realiza um trabalho permanente de cuidado direcionado às pessoas com doenças crônicas usuárias desses serviços. Como apoiadora das equipes de saúde da família (ESF), foi pactuado o encaminhamento dos casos surgidos nos territórios à eMulti VI. Os critérios de inclusão ao projeto são: – ter qualquer doença crônica (diabetes, hipertensão, dislipidemias, entre outras); – ter apresentado exames e/ou parâmetros de saúde alterados. Os atendimentos acontecem em consultório na unidade de saúde ou em atendimento domiciliar acompanhado pelas Agentes Comunitárias de Saúde do território, conduzidos pela Farmacêutica e Nutricionista residente da equipe e apoiados pela Psicóloga e Assistente Social. Na interação com o paciente, além das questões orgânicas, busca-se compreender o contexto social, familiar, psíquico e demais fatores relevantes para a condução. A partir dessas informações, são elaboradas ações a serem realizadas e os retornos para acompanhamento. O andamento dos casos é compartilhado nas reuniões das equipes de referência, nas quais podem ser planejadas novas estratégias, valorizando a visão e contribuição dos diferentes profissionais. Para tanto, é essencial o envolvimento, a participação ativa e o engajamento de todos durante as reuniões e no trato com os munícipes.
No período de junho de 2023 a julho de 2024, a eMulti VI iniciou o acompanhamento de 23 pacientes com diabetes, hipertensão e/ou dislipidemias. Destes, 22 continuam sendo assistidos pelo projeto, com frequência de retorno variável e de acordo com a necessidade de cada caso. Apenas um paciente não é mais acompanhado, pois mudou de território. Durante os atendimentos, foi possível observar as barreiras que os pacientes enfrentam na adesão às orientações, as quais envolvem, principalmente, questões psicossociais: ausência de familiares para auxiliar na rotina com os medicamentos e idas às consultas e exames, poucos recursos financeiros para melhoria da alimentação, priorização de cuidado com familiares em detrimento do próprio cuidado, depressão, entre outros. Tais aspectos são percebidos quando os profissionais se dispõem a realizar uma escuta atenta e acolhedora, além de se apoiarem, também, em saberes não médicos e multidisciplinares. O fortalecimento dos conceitos de integralidade e equidade foram os pilares da experiência, destacando-se pela potencialidade e expansão do cuidado para além da visão biomédica.
Diante da experiência relatada, fica evidente que a intervenção das eMultis pode auxiliar na promoção de saúde das pessoas com doenças crônicas atendidas pelas ESFs, a partir do momento que busca a superação da visão fragmentada do cuidado e amplia a proposta de cuidado ofertado pela atenção primária à saúde, tal como preconiza as diretrizes para o cuidado das pessoas com doenças crônicas. A articulação dos saberes de modo multiprofissional permite uma avaliação que leva em consideração os desafios e condições concretas de participação da pessoa com doença crônica na construção de projetos de cuidado. Nesse sentido, é imprescindível destacar um dos princípios fundamentais da APS: o cuidado longitudinal a partir da realidade vivida por cada indivíduo. Considera-se que a continuidade da atuação das equipes de saúde como relatada é primordial para o fortalecimento da saúde no território de Santos, sendo possível a partir da permanente mobilização dos atores envolvidos, na educação permanente e continuada, assim como a ampliação das equipes multiprofissionais no território e o suporte às mesmas.
Doenças crônicas, equipe multiprofissional.
AMANDA GOMES SANTOS, DANIELLE ABUJAMRA SIUFY NARDEZ, TARCIANA VASCONCELOS DA SILVA, ALINE DOS SANTOS PEREIRA, ALYNE DA CRUZ BARBOSA BARTOLOTTO, CAROLINA ARLETE DE OLIVEIRA, CHRISTINE PEREIRA DE ALBUQUERQUE, GUILHERME CASTILLO VIEGAS, JULIE ANE NOTARI MONTEIRO