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Contar histórias é uma tradição milenar essencial para o desenvolvimento cognitivo e emocional das crianças. A história contada permite interação entre contador e ouvintes e propicia vivências comunitárias. Permite que as crianças explorem emoções, desenvolvam empatia e melhorem as habilidades sociais e linguísticas. Ajuda na compreensão do mundo, desperta a criatividade e introduz as crianças à leitura. Para crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a contação de histórias é especialmente relevante, oferecendo um meio de comunicação acessível e envolvente. O TEA é caracterizado por desafios na comunicação e interação social, comportamentos repetitivos e interesses restritos. Os sintomas variam em forma e intensidade, desde ausência da fala e prejuízos na comunicação não verbal, até ecolalias, falas imaturas, dificuldade em dialogar, estruturar narrativas e compreender a linguagem abstrata. Essas crianças podem ter dificuldade em entender regras sociais implícitas, expressar e reconhecer suas emoções e emoções alheias, dificultando a interação social. Nesse sentido, as histórias podem desempenhar um papel fundamental na vida dessas crianças. Em Santana de Parnaíba, o CAPSi é responsável pelo atendimento de grande parte das crianças com TEA. Com o aumento da demanda e para melhor atender esse público, foi proposto um novo espaço de atendimento, o Espaço de referência ao Autismo. O grupo de contação de histórias iniciou no Capsi e demos continuidade no novo espaço.
O principal objetivo do grupo é utilizar a leitura e a contação de histórias como ferramenta no desenvolvimento cognitivo, de linguagem e de socialização de crianças com TEA possibilitando maior autonomia e independência. Os objetivos específicos do grupo visam: -Desenvolver a compreensão e expressão verbal, ampliando o vocabulário e estimulando a estruturação de enunciados; -Aumentar a atenção e a capacidade de concentração; -Possibilitar trocas sociais; -Despertar curiosidade e imaginação; -Incentivar a leitura.
O grupo de contação de histórias acontece semanalmente, com 4 a 5 crianças por sessão. Cada sessão tem duração de 1 hora e é mediada por um fonoaudiólogo e/ou psicólogo. Participam do grupo crianças que já tenham realizado intervenções preliminares, em que foram estimuladas e adquiridas habilidades básicas essenciais. Essas habilidades incluem sentar, esperar, seguir instruções, nomear, imitar e garantem que as crianças estejam preparadas para aproveitar as atividades propostas no grupo, permitindo um desenvolvimento mais eficaz A preparação envolve a seleção de histórias com linguagem simples, enredos claros, elementos visuais ricos, narrativas curtas e temas que despertem o interesse das crianças. O uso de recursos visuais, como ilustrações, objetos e fantoches, é imprescindível para tornar a narrativa envolvente e garantir a compreensão da história. Durante a história, são feitas pausas para verificar a compreensão e engajamento das crianças. Os profissionais são flexíveis e sensíveis, adaptando a história e o método conforme o aproveitamento das crianças. Perguntas como “o quê?”, “quem?”, “onde?”, “qual cor?” e “por que?” são utilizadas para garantir a compreensão. Após a história, uma discussão é conduzida com as crianças, seguida de uma atividade prática relacionada à história, como desenhar os personagens, fazer uma colagem ou encenar partes da narrativa. A reflexão sobre o que foi aprendido e como as crianças se sentiram durante a contação também é incentivada.
Os resultados obtidos na nossa prática, demonstram evolução importante das crianças, principalmente na compreensão e expressão verbal, na atenção compartilhada, na concentração e nas trocas sociais. As crianças demonstram interesse pelos livros, em manipulá-los, em fazer comentários, escolher a história e permanecer junto ao grupo durante a contação. As narrativas estruturadas e repetitivas ajudam as crianças a compreenderem e anteciparem eventos, reduzem a ansiedade e aumentam o engajamento. A interação durante a contação de histórias promove a prática de habilidades sociais, como fazer perguntas, tomar turnos na conversação e expressar emoções. Como observado no estudo de Battistello et al (2020), as atividades desenvolvidas durante o momento de narração são significativas para a compreensão da história e as crianças se envolvem ativamente na narração e interagem com os mediadores, contribuindo para o desenvolvimento do letramento emergente e ampliando o processo de comunicação. O trabalho interdisciplinar enriquece as estratégias de intervenção, trazendo diversas perspectivas e conhecimento, permitindo um atendimento abrangente e personalizado. A troca entre profissionais facilita a criação de planos de intervenção mais robustos e adaptáveis, que levam em consideração os múltiplos aspectos do desenvolvimento infantil. Cada profissional contribui com seu conhecimento para ajustar as histórias e atividades de forma a atender melhor às necessidades individuais das crianças.
Concluímos que a incorporação da contação de histórias na reabilitação de crianças com TEA pode oferecer um meio eficaz e envolvente de promover o desenvolvimento de habilidades essenciais. Com o aumento significativo do número de casos de TEA e a crescente busca por tratamento no serviço público de saúde, essas intervenções apresentam-se como uma alternativa eficaz para otimizar os resultados funcionais, visando à qualidade de vida e à independência dessas crianças. Para garantir a eficácia das nossas intervenções e aprimorar a qualidade dos atendimentos, entendemos a necessidade de avaliar sistematicamente os resultados alcançados. Iniciamos a elaboração de um protocolo que nos permitirá identificar áreas de sucesso e pontos que necessitam de melhorias, possibilitando um ajuste contínuo das estratégias utilizadas para atender de forma mais eficaz às necessidades das crianças.
Autismo, contação de histórias, grupo
LIGIA STELLA ZITO, SANDRA VIVIANE BATISTA DA SILVA, LUCIANA PETRAUSKAS PAIVA, SOLANGE RODRIGUES ROSSONE, ENEIDA COSTA RAMALHO, MARIA SILVIA DE ALMEIDA MELLO FREIRE