Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
A Febre Maculosa (FM) é uma doença infecciosa transmitida por carrapatos infectados com bactérias do gênero Rickettsia, descrita no Brasil pela primeira vez em 1929. Endêmica na Região Sudeste, é transmitida por carrapatos do gênero Amblyomma. Nas últimas décadas, o aumento de casos e a letalidade elevada destacaram a FM como uma importante preocupação de saúde pública. O A. aureolatum, transmissor da FM na Região Metropolitana de São Paulo, é encontrado em regiões de maior altitude, acima de 700 metros. A FM pode ser fatal se não tratada precocemente, com uma taxa de letalidade de até 80%. O tratamento imediato com antibióticos como doxiciclina é crucial para reduzir óbitos. A presença de cães domésticos em áreas de Mata Atlântica facilita a proximidade entre humanos e carrapatos adultos.A fragmentação florestal, causada por ações humanas, aumenta o contato entre vetores e hospedeiros, favorecendo a propagação da doença. A redução da biodiversidade, favorece a proliferação de espécies competentes para transmissão de patógenos. O controle químico não é eficaz em áreas de mata, sendo necessária educação em saúde e capacitação profissional para vigilância e prevenção.A análise ecoepidemiológica pode ajudar a entender a dinâmica da doença, integrando fatores ecológicos e comportamentais. A identificação de áreas de risco e o treinamento de profissionais de saúde são essenciais para um diagnóstico precoce e para estratégias de prevenção.
Este estudo visa realizar uma análise situacional da Febre Maculosa no município de São Bernardo do Campo-SP, com foco ecoepidemiológico. O objetivo é traçar um perfil da ecologia e da paisagem associadas à ocorrência da doença, identificando áreas de risco relativas aos fatores que favorecem a infecção pelo patógeno. Além disso, busca-se refletir sobre as estratégias implementadas com base nas contribuições ecoepidemiológicas delineadas e recomendar ações fundamentadas nos dados obtidos.
Este é um estudo observacional, descritivo, ecológico e espacial sobre a Febre Maculosa em São Bernardo do Campo-SP, foca nos casos autóctones entre 2001 e 2023. O objetivo foi traçar o perfil epidemiológico, identificando locais, períodos de ocorrência e características sociodemográficas dos afetados. A distribuição temporal e espacial dos casos foi realizada por bairro, detalhando ano, mês e perfil dos pacientes. Análises espaciais foram aplicadas para identificar áreas de risco, localizando os casos e áreas relevantes. O perfil paisagístico foi baseado em levantamento bibliográfico, considerando geografia, fauna (cães e carrapatos) e áreas degradadas. Usaram-se imagens de satélite do Google Earth Pro e QGIS para calcular métricas. A borda de mata com ocupação humana e a fragmentação florestal foram parâmetros centrais. A taxa de letalidade foi calculada dividindo óbitos pelo número de casos confirmados. Foram estudadas 10 localidades com fragmentos de Mata Atlântica e vegetação variada, impactada pela degradação ambiental. A fragmentação florestal em áreas de casos confirmados de FM, foi o parâmetro central que norteou este trabalho, dado que o processo de fragmentação depende de uma série de fatores para sua ocorrência.
Foram mapeadas 10 áreas: as vermelhas indicam transmissão, com casos confirmados de FM nos últimos 10 anos; as azuis representam risco, com o último caso há mais de 10 anos; e as amarelas são áreas silenciosas, sem registros de casos humanos, mas com perfil paisagístico sugerindo risco. Dos 40 casos analisados, 25 ocorreram na área 1, Grande Alvarenga (62,5%), principal área de transmissão, concentra 46,9% dos carrapatos A. aureolatum encontrados. A área 2 (risco), Orquídeas-Alvarenga, limita-se com a área 1, sem conexão entre as matas, apenas um A. aureolatum identificado. A área 3 (transmissão), Cooperativa/Alves Dias, apresentou a maior taxa de letalidade (80%). Na área 4 (transmissão), Montanhão, 3 dos 4 casos confirmados resultaram em óbito. A área 5 (silenciosa), Riacho Grande (Jd. Jussara), sem informações sobre o vetor. Na área 6 (silenciosa), Pós Balsa (Santa Cruz), a fragmentação da mata devido à urbanização foi observada, com sete espécimes de A. aureolatum encontrados. A área 7 (silenciosa), Dos Finco/Tupã, apresenta adensamento populacional na mata, sem informações sobre o vetor. Nas áreas 8, 9 e 10 (silenciosas) — Riacho Grande (Dos Finco/Tupã), Jd. Represa e Parque Los Angeles — há grande adensamento populacional, mas sem dados sobre o vetor.O tempo médio entre sintomas e internação foram de 5 dias, com confirmação principalmente por exames laboratoriais. Em 62,5% dos casos, os infectados tinham até 20 anos, 55% eram homens e 55% relataram parasitismo.
A partir da análise situacional da Febre Maculosa em São Bernardo do Campo, por meio de estudos paisagísticos e epidemiológicos, foram identificadas as áreas de maior importância ecoepidemiológica e o perfil socioeconômico da população mais exposta. Isso visa impulsionar estratégias de controle de zoonoses, incluindo a vigilância acarológica e sorológica de animais domésticos, de vida livre ou semidomiciliados em áreas de risco para a FM, mantendo as informações atualizadas para profissionais de saúde e população. Ações educativas são fundamentais para envolver a população no reconhecimento do ambiente e na detecção de parasitismo por carrapatos, além de garantir os encaminhamentos adequados. Para os profissionais de saúde, a educação permanente reforçaria a importância da ecoepidemiologia, para a suspeição imediata da doença e o tratamento adequado, evitando óbitos. É necessário conduzir um processo educativo planejado, com avaliação e ajustes nas estratégias quando necessário, promovendo a articulação entre profissionais de saúde, gestores, parceiros e a população. Esse processo interativo é essencial para a vigilância da Febre Maculosa e para a promoção da saúde em São Bernardo do Campo/SP.
Educação
MANUEL PEREIRA MARTINS, MARJORI FABRICIA CERCHIARI, ROBERTA EMANOELA MOURA ALVES MARIANO, MARCO AURÉLIO FERREIRA