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A gestação é um período que exige acompanhamento sistemático e qualificado por meio do pré-natal, visando a promoção da saúde materno-infantil e à prevenção de complicações. Entretanto, quando ocorre em contexto de vulnerabilidade social, como no caso de mulheres em situação de rua, os riscos tornam-se ampliados devido a condições precárias de moradia, insegurança alimentar, exposição a violência, uso de substâncias psicoativas e dificuldade de acesso contínuo aos serviços de saúde. As mulheres em situação de rua têm aproximadamente duas vezes mais chances de engravidar, maior risco de complicações obstétricas e recebem menos cuidados de saúde do que aquelas com acesso à moradia; seus bebês também passam mais tempo no hospital após nascimento, realizam menos exames e são menos propensos a serem amamentados (SCHIAVI et al., 2023). O enfermeiro desempenha papel central nesse cenário, sendo responsável pela realização de consultas de pré-natal, solicitação e avaliação de exames, orientações sobre cuidados na gestação, identificação de fatores de risco e articulação com outros serviços da rede de atenção à saúde. Além da competência técnica, destaca-se a necessidade de uma prática humanizada, pautada na escuta qualificada, no acolhimento e na construção de vínculos, elementos fundamentais para garantir a continuidade do cuidado às mulheres em situação de rua.
– Realizar a busca ativa e o acompanhamento pré-natal de mulheres em Situação de Rua; – Criar vínculo com as gestantes em Situação de Rua;
Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, baseado na atuação do enfermeiro integrante da equipe do Consultório na Rua (CnaR) em uma cidade do interior do estado de São Paulo. O estudo descreve o acompanhamento pré-natal de duas gestantes em situação de rua atendidas nos anos de 2024 e 2025, no contexto da atenção à saúde da população em situação de vulnerabilidade social A seleção dos casos ocorreu a partir da demanda assistencial da própria rede de saúde, por meio de solicitação de busca ativa e apoio à continuidade do cuidado pré-natal. O acompanhamento incluiu consultas de enfermagem, realização e solicitação de exames laboratoriais, estratégia de redução de danos, encaminhamentos para serviços de referência em gestação de alto risco, articulação com Unidade Básica de Saúde (UBS), Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e Santa Casa. Foram adotadas estratégias de abordagem pautadas na construção de vínculo, escuta qualificada, acolhimento, educação em saúde e redução de danos, respeitando a autonomia das pacientes. Os dados foram organizados a partir de registros assistenciais, preservando-se integralmente o anonimato das gestantes, identificadas neste estudo como Gestante A e Gestante B, sem qualquer informação que permita identificação pessoal. Por tratar-se de relato de experiência com preservação da identidade e sem exposição de dados sensíveis, respeitaram-se os princípios éticos da confidencialidade e dignidade das usuárias.
Caso 1: Gestante com 27 anos, 13 semanas de gestação, usuária de crack, dormindo em local insalubre. Inicialmente, apresentava resistência em procurar os serviços de saúde. A estratégia adotada pelo enfermeiro baseou-se na construção gradual de vínculo, abordagem humanizada, oferta de redução de danos e escuta qualificada. Após fortalecimento da confiança, foram iniciadas consultas de pré-natal pelo próprio enfermeiro do CnaR, totalizando seis atendimentos. Posteriormente, a gestante foi encaminhada e vinculada ao serviço de referência. Ao longo do acompanhamento, a gestante restabeleceu vínculo com a mãe residente em cidade vizinha. O desfecho da gestação ocorreu sem intercorrências, com nascimento saudável. Caso 2: Gestante com 39 anos, 27 semanas e 6 dias de gestação. Apresentava diabetes, alimentação precária, risco de violência doméstica, companheiro usuário de crack e outras drogas. A equipe realizou coleta de exames laboratoriais no próprio território e iniciou acompanhamento sistemático, totalizando oito consultas de enfermagem. Foi articulado encaminhamento para o serviço de alto risco e restabelecido o vínculo com a UBS de referência. No pós-parto, houve alinhamento com a Santa Casa para inserção de implante contraceptivo (Implanon). O recém-nascido não permaneceu sob guarda materna. Entretanto, a paciente manteve acompanhamento na rede básica, incluindo tratamento supervisionado em saúde mental, demonstrando inserção na rede de cuidados.
A experiência evidencia que o vínculo, a abordagem humanizada e a articulação intersetorial são determinantes para adesão ao pré-natal em contextos de vulnerabilidade social. A atuação do enfermeiro no Consultório na Rua mostrou-se essencial para a superação de barreiras de acesso, fortalecimento da rede de cuidado e promoção da equidade em saúde.
DIGNIDADE, CONSULTÓRIO NA RUA
ELTON MANOEL DE SOUZA