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Nas últimas décadas, observa-se mundialmente o envelhecimento populacional e, como consequência, mudanças políticas, sociais, culturais e econômicas na sociedade. Anualmente no Brasil, a população idosa cresce em torno de 650 mil, impactando em um cenário de diversas demandas frente a este público que envelhece. Neste cenário, a Estratégia de Saúde da Família (ESF) em suas diversas ações desenvolvidas, contribui para a identificação precoce do agravo ao idoso, intervindo a fim de minimizar prejuízos à saúde, visando então uma melhor qualidade de vida através da prevenção, promoção e reabilitação, focando também na inserção do idoso na sociedade. Diante do envelhecimento populacional e de todo o contexto do envelhecer, o aumento de número de idosos com Transtorno de acumulação (TA) é notório, resultando em isolamento social, redução da mobilidade e manifestações na vida diária O transtorno de acumulação (TA) pode ser conceituado como uma dificuldade resistente de desfazer-se de pertences, devido ao sofrimento relacionando ao descarte ou uma necessidade constatada de guardar posses a despeito de seu valor real. Na população em geral, a prevalência do transtorno é de 1,5 a 2,1%, incidência maior que 6% em idosos. Considerando a vulnerabilidade do idoso, faz-se necessário um trabalho intersetorial, pautado no cuidado integral, visando a dignidade humana e contribuindo para que seja garantido o direito da pessoa idosa.
O objetivo desse trabalho é relatar sobre a identificação e os cuidados no Transtorno de Acumulação, as atividades e intervenções realizadas, avaliação das condições de extremo risco, visando a redução de danos e garantindo o direito da pessoa idosa.
Relato de experiência, vivenciado por uma Equipe Estratégia Saúde da Família, localizada na Zona Norte de São Paulo. Idosa, 64 anos de idade, em extrema vulnerabilidade psicossocial, acumuladora, vivendo em condição de abandono, situação precárias de moradia e higiene. Reside em local totalmente insalubre, casa com acúmulo de inservíveis, lixos, sujeiras, mau cheiro oriundo da residência, que pode ser notado à metros de distância. Munícipe emagrecida, deambula com dificuldade, locomove-se apoiando nas paredes. Avaliação multidimensional da pessoa idosa, classificada como idoso frágil, avaliação cognitiva comprometida, sem capacidade mental de compreender e resolver os problemas do cotidiano. Histórico de etilismo, uso de substâncias psicoativas (cocaína), e portadora de Infecção sexualmente transmissíveis. Realizamos um Plano terapêutico Singular, sem sucesso, devido a dependência funcional para realizar as atividades de vida diárias, associada as condições de saúde de difícil manejo, devido à falta de auxílio e apoio para administração das medicações necessárias. Por se tratar de idosa frágil, exposta a riscos em sua integralidade física, psíquica, vivendo em condições desumanas, privando-se de alimentos e cuidados indispensáveis à saúde, além do monitoramento e visitas periódicas, houve necessidade de levar o caso a equipe multiprofissional, a fim de articularmos com a Rede, estratégias para atender as necessidades básicas, promoção da reabilitação psicossocial.
Assim como exposto, iniciamos o matriciamento do caso em Rede, discutindo ações intersetoriais para o planejamento das intervenções no cuidado e proteção à munícipe, visando amplitude do cuidado, com a construção de um Plano Terapêutico individual compartilhado. Dentre os serviços articulados, nos apoiaram o PAI (Programa Saúde da Pessoa Idosa), o CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), a Subprefeitura Vila Maria / Vila Guilherme, a SILIMP (Secretaria Executiva de Limpeza Urbana) e a UVIS (Unidade de Vigilância em Saúde). A discussão do caso dava-se mensalmente, através de ações visando uma assistência integral, singular e de corresponsabilização do cuidado, como tentativa de sensibilização da família em apoiar nos cuidados, visitas domiciliares compartilhadas e periódicas, coletas de exames em domicílio, encaminhamentos diversos, limpeza da casa com o intuito de oferecer o mínimo de conforto à idosa, doações (móveis, utensílios e roupas) etc. Devido à falta de apoio familiar e fragilidade da idosa, a equipe intersetorial, após concordância da idosa, opta por institucionalização. A fim de reduzir riscos e resguardar sua integralidade, desfrutando dos direitos básicos de um cidadão. A idosa foi institucionalizada, vivendo agora em condições de bem-estar físico, emocional e social, em local que garante cuidado e proteção.
Neste relato, fica claro os prejuízos trazidos a uma pessoa em situação de acumulação, como também as possibilidades de cuidado compartilhado em ações intersetoriais, através da elaboração do Plano terapêutico Singular por equipe multidisciplinar, olhando o ser em sua integralidade e singularidade, buscando reinserir o idoso no contexto social, estimulando sua autonomia e melhora em qualidade de vida. Situações como esta, não bastam ser identificadas, precisam ser encaradas de forma particular. É fundamental ofertar uma assistência pautada na dignidade humana, reconhecendo as potencialidades do idoso num país que cada vez mais envelhece, tornando possível a inclusão e o fortalecimento de vínculos, de trocas de experiências, colaborando com a restruturação das relações interpessoais, reduzindo assim a sensação de inutilidade.
transtorno de acumulação
Maria Adriana Gomes de Oliveira Gonçalves, Erika Macedo Hara, Jane Kely Rosa Leite