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O presente trabalho consiste em um relato de experiência vivenciada pelas autoras sobre um estágio de Psicologia não obrigatório na Rede de Atenção à Pessoa em Situação de Violência Doméstica e Sexual – RAPSVDS, cujo objetivo é formar e orientar trabalhadores da saúde no manejo de casos de violência. O conceito de violência pode ser definido como “ação intencional por indivíduo, grupo, instituição, classes ou nações dirigidas a outrem que cause prejuízos, danos físicos, sociais, psicológicos ou espirituais” (Minayo, 2006) e, ainda que não seja um fenômeno exclusivo à saúde pública, requer estratégias de prevenção à violência e promoção de saúde (UFSC, 2014). Localizada na Secretaria de Saúde de Suzano, na região do Alto Tietê do Estado de São Paulo, foi instituído a Rede de Atenção à Pessoa em Situação de Violência Doméstica e Sexual (RAPSVDS), com o objetivo de monitorar os casos de violência, incidir na formação de trabalhadores e a implementar estratégias de promoção de saúde. Esta Rede lida diretamente com os trabalhadores de saúde da Atenção Básica (AB) que irão atuar com as vítimas de violência, por meio dos núcleos de prevenção a violência que são organizados pela equipe de saúde e seus estagiários de Psicologia e Serviço Social.
OBJETIVOS GERAIS Produzir um relato de experiência sobre a importância da educação permanente e continuada de estudantes da graduação de Psicologia no cuidado em saúde para pessoas em situação de violência, a partir da implementação de políticas públicas de enfrentamento a Violência Doméstica e Sexual em rede e no campo prático de implementação de políticas públicas. OBJETIVOS ESPECÍFICOS Descrever a experiência de trabalho realizado pelas(os) estagiárias(os) junto a equipe da RAPSVDS nos núcleos de prevenção a violência – NPV; Compreender os impactos da expansão de práticas de estágio no serviço público na qualificação do manejo clínico das(os) estudantes e trabalhadores.
Com início em maio de 2024, composto por três duplas intercaladas de estudantes de Psicologia e Serviço Social, uma Auxiliar Administrativa, uma Educadora Social, uma Assistente Social e uma Psicóloga/Coordenadora de rede. Cada dupla assumiu a responsabilidade por uma região com a média oito Unidades de Saúde da AB. As visitas acontecem uma vez por mês, somando em média 67 por dupla. A Ficha de Notificação de Violência interpessoal, cujo preenchimento é obrigatório aos profissionais de saúde em suspeita ou confirmação de violência doméstica/sexual/autoprovocada, é o instrumento inicial do trabalho, do qual seus dados são extraídos para o Sistema de Informações de Agravos de Notificação e para o banco de dados chamado Monitoramento do Cuidado. Ainda, é realizada a análise que visa compreender as consistências dos dados, a classificação de vulnerabilidade e risco dos casos e o redirecionamento para a área adscrita. A portaria GM/MS nº 935/2004, que dispõe sobre a implantação e implementação dos Núcleos de Prevenção à Violência, guia os NPV, porém, não funciona apenas como captação e tratamento de dados epidemiológicos, contam com a participação de uma equipe multidisciplinar e de seus estagiários para elaborar estratégias e possibilidades de atuação para cada pessoa notificada. Para participar dos NPVs, os estagiários realizam supervisões semanais para discussão dos casos, a partir das interseccionalidades, além de mapear os serviços que compõem a Rede Intersetorial.
Como estudantes, por meio da observação do manejo clínico dos casos e da postura profissional dos trabalhadores do SUS, diante das situações de violência, percebe-se diversas possibilidades de aprendizagem. Compreende-se que há casos em que somente os cuidados em saúde não serão suficientes para uma real promoção de saúde e prevenção à violência, tornando-se necessário conhecer e explorar o território o qual o trabalho é realizado, desde outras repartições públicas como equipamentos do SUAS, Escolas, Sistema Judiciário, até as Organizações da Sociedade Civil, líderes comunitários e outras possibilidades de acesso à população. Portanto, as práticas da psicologia se executadas isoladamente podem não atingir o objetivo proposto para determinada intervenção e correm o risco de não ser exploradas durante a graduação. Além disso, intervenções em manejo de grupo, elaboração de fatores de risco e de proteção, estratégias de atuação no território, articulação com a Rede Intersetorial para cada caso atendido, são atividades recorrentes na vivência dos estagiários, que podem auxiliar no desenvolvimento de manejo clínico crítico e ampliado, proporcionando maior repertório para situações de violência. A relação multiprofissional ainda possibilita ampliar a clínica no sentido de evidenciar a efetivação das práticas de “Promoção de Saúde”, um tema ainda de difícil elucidação quando não se tem todos os dados e perspectivas diferentes sobre uma mesma situação.
Considera-se que, ainda que os cursos de Psicologia trabalhem temáticas voltadas para cuidados em saúde em situações de violência, mapeamento do Sistema Único de Saúde e Sistema Único de Assistência Social e outras práticas, as atividades de estágio não obrigatório para estudantes do curso de psicologia, tornam possível o desenvolvimento de um olhar clínico ampliado, compreendendo a atuação prática supervisionada como potencial formador profissional. Além disso, tais movimentos possibilitam que estudantes de psicologia observem na prática a teoria a qual é aprendida na graduação, além de formar vínculos com outros estudantes em diferentes níveis de formação e profissionais já formados, que podem proporcionar perspectivas de futuro diversas, fomentando a linha de raciocínio clínico, a criatividade e o pragmatismo, no uso de metodologias responsáveis pelo cuidado em saúde das pessoas em situação de violência. Por fim, programas de estágio como esse, podem voltar o olhar de estudantes para a importância de se compreender o território e suas particularidades como pressuposto fundamental ao pensar intervenções de atendimento, seja ele em situações de violência ou outras demandas.
estagiários, psicologia, violência, prática
MAGNA BARBOZA DAMASCENO, ANA PAULA DOS PASSOS