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A população brasileira está envelhecendo em ritmo acelerado, segundo os dados do IBGE de 2022 temos 10,9% de pessoas idosas no país, um crescimento de 57,4% em relação ao censo de 2010. É evidente que precisamos cada vez mais de novas políticas públicas e novos modelos de serviços públicos para a população brasileira. Na cidade de São Paulo a proporção de idosos subiu de 11,9% em 2010 para 15,2% em 2019, conforme os indicadores sócio-demográficos publicados em 2020. Diante deste cenário a Secretaria Municipal de Saúde- SMS em parceria com a Secretaria Municipal de Desenvolvimento e Assistência Social- SMADS de São Paulo criou novo modelo de acolhimento para pessoas idosas em situação de rua, com a portaria intersecretarial nº1 de 31/10/2018. Nesse relato destacarei a minha experiência que iniciou em julho de 2022, fui a primeira enfermeira a compor a equipe deste CAEI. A minha contratação, assim como a minha função era novidade para todos na UBS e no CAEI. Eu nunca tinha estado em um centro de acolhimento antes, nunca tinha trabalhado com população em situação de rua, assim como era muito distante do processo de operacional dos centros de acolhidas de forma geral. Considero importante evidenciar a características e a carência dessas pessoas, transmitir essa experiência para colegas que tiverem interesse na área e divulgar esse modelo integrado de acolhimento para pessoas idosas em situação de rua para as outras secretarias de saúde do Estado de São Paulo.
O objetivo principal é apresentar a experiência de enfermeiro em CAEI, novo modelo para acolhimento de pessoas idosas em situação de rua para as outras secretarias de saúde do Estado de São Paulo. Objetivos específicos são: •Abordar o papel do enfermeiro em um CAEI. •Elencar as características prevalentes entre idosos de CAEI.
Em narrativa e ordem cronológica, descreverei minha experiência. O nosso primeiro desafio foi conhecer o espaço, a equipe e as pessoas idosas que ali viviam. Entendi que para eu conseguir levantar as principais demandas de saúde e os objetivos dos idosos era preciso criar vínculo e escutá-los. A rotina do enfermeiro e do técnico de enfermagem era realizar atendimentos agendados, acolhimento de demanda espontânea, atividades de educação e promoção de saúde. Essas atividades foram definidas de acordo com o perfil atual dos moradores. Primeiramente, em atendimentos individuais apliquei a Avaliação Multidisciplinar da Pessoa Idosa- AMPI e consultas de enfermagem. Assim, conhecemos o índice de fragilidade e a incidência das principais comorbidades entre os idosos. Com esses dados foi possível elaborar o planejamento das atividades de educação em saúde, sendo que a modalidade de atividades em grupo mais utilizada foram a roda de conversa, oficinas e caminhadas. As atividades de educação em saúde e coletivas são programadas previamente de acordo com a programação da SMS e das demandas levantadas com os idosos. Atuar com promoção e educação em saúde, sempre priorizando a autonomia e independência nas mínimas coisas, mesmo que respeitar essa autonomia seja aceitar que a pessoa não deseja cuidar de sua saúde.
A medida que realizei as consultas de enfermagem, AMPIs, escutei a história de cada um deles tive a oportunidade de criar vínculos, foi possível traçar o perfil epidemiológico dos idosos. Em dezembro de 2024, as 4 comorbidades mais incidentes entre os idosos do CAEI foram: hipertensos, uso abusivo de álcool e outras drogas, tabagistas e diabéticos. Em relação ao índice de fragilidade e independência das atividades básicas de vida diárias, temos a maioria de pessoas idosas saudáveis e com menos de 70 anos de idade. No ano de 2024, o enfermeiro e técnico de enfermagem realizaram em média 250 atendimentos individuais mensais, 8 atividades coletivas por mês, entre elas podemos destacar a oficina de cuidados que abordou a lavagem de mãos, banho, corte de unhas e lavagem das roupas; ações de vacinação; caminhada no parque em combate à violência contra a pessoa idosa em parceria com UBS; roda de conversa sobre o Dia internacional da pessoa idosa. O resultado do nosso trabalho fica evidente com os 100% dos idosos em acompanhamento na UBS, devidamente cadastrados, com planos terapêuticos elaborados e carteira de vacina atualizada. O alcoolismo é a doença mais preocupante e sendo este um fator de risco presente para muitas doenças, principalmente nas demências, esse fator merece muita atenção e intervenção. Uma característica marcante nesses idosos é o descaso consigo mesmo e a carência de escuta e afeto.
No Brasil temos um aumento de consumo de álcool da população em geral de 18,4% para 20,8% entre 2021 e 2023 e que mostra uma relação entre alcoolismo e comprometimento cognitivo, segundo artigo publicado pelo Brazilian Journal of Health Review, Curitiba, 2024. O envelhecimento da população idosa em situação de rua em Porto Alegre-RS aponta que envelhecer nas ruas é excludente e cruel, descrevem as vulnerabilidades que sofrem e à invisibilidade de sua existência perante a sociedade, segundo artigo da revista Kairós em 2016. Os depoimentos e relatos que ouvi dos idosos do CAEI vão de encontro com esses dados citados nos dois artigos, enfatiza que o alcoolismo é o possível fator desencadeante para outros problemas que diminuem a qualidade de vida da pessoa idosa. Espero que esse relato de experiência dê visibilidade a esta situação preocupante que precisa de mais estudos e políticas públicas. Trabalhar no CAEI tem sido uma experiência desafiadora e muito gratificante, com muito aprendizado no convívio com esses idosos. A gratidão e a alegria que os idosos apresentam nas devolutivas de cada conquista que vêem compartilhar conosco é o combustível que nos move diariamente.
Envelhecimento
MANOELA PIRES DO COUTO