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Segundo a Associação Internacional para Estudos da Dor (2020, p. 1), dor é definida como “uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada ou semelhante àquela associada a uma lesão tecidual real ou potencial”. O estudo de Pimentel e colaboradores (2011) apontam que a dor lombar foi a principal queixa relatada em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Apesar da dor ser considerada multifatorial e seu tratamento multiprofissional, ainda é comum a prática de encaminhamentos para a fisioterapia nas UBS em quase a totalidade dos casos com queixas de dores musculoesqueléticas. Estes encaminhamentos geram filas de espera, dificultam a estratificação de prioridades na UBS e o acesso a tratamentos resolutivos em tempo oportuno, de forma singular e efetiva. Há evidências robustas de que intervenções em grupo envolvendo atividade física, exercícios supervisionados e educação para o manejo da dor crônica têm efeitos similares a abordagens individuais (O’KEEFFE et al., 2017). Além disso, as atividades coletivas/grupais devem ocupar ao menos metade da agenda dos profissionais fisioterapeutas na Atenção Básica (CREFITO-3, 2024) e demais profissionais de saúde. Mediante este contexto, este relato visa descrever a experiência desenvolvida na UBS São Remo, São Paulo-SP, no período de setembro de 2022 a dezembro de 2024, pela equipe multiprofissional, na gestão da fila de espera de fisioterapia, estratificação de prioridades e acesso dos usuários no território de abrangência da UBS.
Este relato tem por objetivo descrever uma experiência de gestão de fila de espera de fisioterapia em uma UBS da região oeste do município de São Paulo-SP, por meio do diagnóstico situacional da fila, desenho do fluxo de acesso, estratificação de prioridades e a construção de uma linha de cuidado em dor tendo como ferramenta principal as atividades coletivas/grupais abertas e integradas.
Em setembro de 2022 a fila de espera na referida UBS era de 181 usuários, inseridos por meio de CID e definição de prioridades com ausência de critérios pré-estabelecidos. Foi preciso realizar um estudo minucioso desta fila por meio das informações disponíveis, tais como idade, prioridade, tempo na fila e CID. A fila possuía usuários inseridos em setembro de 2021, com espera de um ano para avaliação com fisioterapeuta da UBS. Destes, 137 (76%) apresentavam CID capítulo “M”, isto é, de doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo. Com base neste diagnóstico situacional foi elaborada uma linha de cuidado em dor que contemplasse grupos abertos na UBS, práticas integrativas e complementares e três grupos com proposta de exercícios supervisionados e educação em dor: grupo de exercícios com foco em membros inferiores, de membros superiores e autocuidado e manejo da dor. Estes grupos eram de entrada aberta e possuíam reavaliações de desfechos sistemáticas a cada três meses por meio de instrumentos padronizados e eram realizados por profissional fisioterapeuta e de educação física. Além disso, foram elaborados um fluxograma de acesso e critérios de prioridade que contemplasse gravidade, prognóstico e tempo do agravo. Usuários com lesões neurológicas agudas, pós-operatórios e crianças com atraso no desenvolvimento deveriam receber uma avaliação da equipe em até 15 dias. Casos de média e baixa prioridade deveriam receber uma avaliação inicial em no máximo 45 dias.
No período contemplativo da experiência não houve nenhuma ouvidoria ou reclamação referente ao acesso à fisioterapia na UBS. Foi possível eliminar esta fila de espera em 3 meses e iniciar agendamentos de casos novos em agenda na recepção, por meio de discussões de caso em reuniões de equipes e também por entradas diretas nos grupos. Estes agendamentos eram realizados conforme fluxograma de acesso desenhado e os critérios de prioridades estabelecidos. Em dois anos e quatro meses de experiência, participaram 149 usuários no grupo de exercícios com foco em membros superiores, 191 usuários no grupo de autocuidado e manejo da dor e 214 usuários no grupo de exercícios com foco em membros inferiores, totalizando 554 usuários que aderiram aos grupos propostos. Em média, semanalmente, participavam 100 usuários de forma assídua nos três grupos. Nas reavaliações dos usuários, os grupos tinham uma taxa média de melhora de 65% no total. Dentre os usuários que não apresentavam melhora, somente 20% aceitavam a proposta de serem encaminhados para o Centro de Referência Especializado em Dor Crônica.
O diagnóstico da fila, a construção de uma linha de cuidado em dor na UBS pautada em práticas coletivas e grupais e a estratificação de prioridades para acesso à fisioterapia possibilitaram eliminar a fila de espera existente e a demanda represada. Os grupos apresentaram impacto positivo no manejo da dor e na satisfação dos usuários com o serviço. Esta experiência apresentou mecanismos e estratégias de gestão do acesso de usuários com dor musculoesquelética aos serviços e aos profissionais na Atenção Básica com impacto positivo e seu uso pode ser encorajado em outros serviços, considerando as particularidades e realidades locorregionais.
Atenção Primária à Saúde, Dor Musculoesquelética
RALF BRAGA BARROSO, GIANCARLO PIRES DA SILVA