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A Clínica Ampliada (CA) é uma diretriz fundamental das práticas de saúde, pois propõe a articulação entre diferentes saberes e a inclusão do usuário como sujeito ativo no processo de cuidado. Essa perspectiva amplia o olhar clínico tradicional, integrando dimensões biológicas, psicológicas e sociais para compreender os processos de saúde, adoecimento e reabilitação. A clínica é sempre uma interação entre sujeitos, configurando-se como um espaço de encontro, produção de sentidos e transformação (Cunha, 2005). No contexto do desenvolvimento infantil, a CA no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS) se torna essencial para a detecção precoce de alterações no desenvolvimento neuropsicomotor em crianças com risco para o Transtorno do Espectro Autista. A atuação conjunta de diferentes profissionais potencializa a compreensão das múltiplas dimensões envolvidas no desenvolvimento, como a análise do tônus, postura, coordenação e controle motor, a análise da comunicação, linguagem e aspectos sensório-orais, bem como a análise dos vínculos, interação social e afetividade. Essa integração multiprofissional, orientada pelos princípios da CA, favorece um cuidado precoce, integral e humanizado. A partir da escuta qualificada e do compartilhamento de saberes, promove-se não apenas um olhar integralizado e oportuno, mas também o fortalecimento da rede de apoio familiar e social, contribuindo para o desenvolvimento pleno e a inclusão da criança em diversos cenários.
Reportar a avaliação compartilhada em equipe multiprofissional e seus desdobramentos na detecção precoce de crianças com risco ao desenvolvimento neuropsicomotor típico, aplicando o conceito previsto para Clínica Ampliada.
As práticas foram desenvolvidas na UBS Cummins entre os meses de fevereiro e agosto de 2025. Como critério amostral, considerou-se os casos discutidos em reuniões de matriciamento cujo principal aspecto identificado foi a presença de alterações no desenvolvimento neuropsicomotor em crianças de até 5 anos de idade. O processo de trabalho foi estruturado em três etapas: (a) acolhimento dos responsáveis, (b) análise do desenvolvimento infantil e (c) definição das estratégias de cuidado. Participaram profissionais das áreas de Fonoaudiologia, Fisioterapia, Nutrição e Psicologia, incluindo residentes do Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Básica/Saúde da Família. No acolhimento, investigaram-se aspectos relacionados à gestação, parto, marcos do desenvolvimento e fatores psicossociais da criança. A análise das crianças ocorreu de forma lúdica, observando-se padrões de interação psicoemocional, comunicação e motricidade. Essa abordagem interdisciplinar permitiu compreender integralmente cada caso, respeitando as singularidades e potencialidades das famílias. A partir das informações obtidas, definiram-se estratégias de cuidado individualizadas, que incluíram a inserção em Grupos Terapêuticos de Estimulação (GTE), Acompanhamento Periódico (AP) pela equipe ou Encaminhamento à Rede de Atenção Especializada (ERAE). Essa atuação conjunta reforça o compromisso da APS com a detecção precoce, o cuidado integral e o fortalecimento da rede de apoio às crianças em risco ao TEA.
A orientação multiprofissional aos responsáveis baseou-se na escuta ativa, na discussão coletiva dos casos e na construção personalizada das intervenções. Com o fomento de aproximar os responsáveis de suas crianças, o intuito foi estimular mudanças qualitativas no comportamento e no desenvolvimento neuropsicomotor, além de refutar precocemente hipóteses diagnósticas a partir das observações clínicas. Como resultado deste processo, grande parte dessas crianças foi inserida no GTE para estimulação multiprofissional semanal com atividades lúdicas junto com os responsáveis. A partir da observação inicial, naqueles que não foram identificados comportamentos de risco ao TEA, foi indicado o AP individual para monitorar o desenvolvimento neuropsicomotor. E nos casos em que a criança cumpre os critérios clínicos, mas ainda não possui idade adequada para ingresso no grupo, adotou-se a mesma conduta descrita. E, para uma pequena parte dessas avaliações, as crianças com diagnóstico fechado de TEA foram emitidos qualitativamente, por meio de relatório multiprofissional, o ERAE. O estabelecimento deste processo, favoreceu um cuidado mais integralizado, em um espaço também formativo para os profissionais, que ampliam o olhar sobre os condicionantes e determinantes biopsicossociais. Tratou-se, portanto, de um aprendizado vivencial, em sinergia com a formação teórico-disciplinar, buscando devolver à família, à comunidade e ao usuário a integralidade do sujeito nas intervenções em saúde.
A multidisciplinaridade se fez presente em todas as etapas do processo de cuidado, permitindo que o caso fosse construído sob diferentes perspectivas disciplinares. Logo, nas fases iniciais, muitas hipóteses diagnósticas são refutadas, o que direciona de forma mais assertiva as condutas terapêuticas. Quando sinais de alerta são identificados pelos profissionais, os diálogos interdisciplinares — marcados por questionamentos, contrapontos e refinamento das análises — fortalecem o planejamento das intervenções e qualificam os encaminhamentos realizados. Esse trabalho coletivo promoveu não apenas uma integração efetiva entre as áreas da saúde, mas também uma melhora qualitativa no acompanhamento do paciente. Além disso, contribuiu para a prevenção de agravos futuros de disfunções neuropsicomotoras decorrentes da patologização precoce do sujeito — processo que, muitas vezes, leva o meio familiar e social a reduzir estímulos por não acreditar no potencial de desenvolvimento da criança.
APS; E-multi; clinica ampliada; estimulação; TEA.
WILLIAM AKIRA LIMA SHIMIZU, VANESSA VARELLA LOURENÇO, MAXUEL HERNANDES TECHIO, MELISSA AMANO FERNANDES