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A neuropsicologia é uma ciência derivada dos conhecimentos da psicologia e das neurociências. Amplas são as possibilidades de atuação do psicólogo especializado em neuropsicologia: avaliação neuropsicológica, reabilitação neuropsicológica, testagem psicológica em neurocirurgia, entre outros. A presença deste profissional é cada vez mais comum na rede privada de serviços de saúde, que abrange clínica, hospitais e ambulatórios de especialidades. Sua contribuição é muito importante para identificação de agravos de saúde de pessoas com sintomatologia cognitiva, identificar perfil psicológico da pessoa para definir projetos terapêuticos, bem como monitorar sua evolução após práticas interventivas. Sendo assim, é importante discorrer as possibilidades de atuação do profissional da neuropsicologia na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).
O presente trabalho tem como objetivo compartilhar a experiência de ingresso e atuação do profissional de neuropsicologia no Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil de Franco da Rocha, que se iniciou em abril de 2024 e se estende até o momento atual. Abordaremos as práticas desenvolvidas, os desafios enfrentados e os resultados alcançados, destacando a importância da neuropsicologia no contexto do atendimento a crianças e adolescentes com atraso no desenvolvimento. Além disso, o trabalho buscará refletir sobre o impacto das intervenções neuropsicológicas na promoção da saúde mental e no desenvolvimento integral dos usuários atendidos, bem como a colaboração com outros profissionais da equipe multidisciplinar. Essa análise visa contribuir para a compreensão do papel da neuropsicologia em serviços de saúde mental e para a melhoria contínua das práticas assistenciais.
A metodologia de introdução do profissional de neuropsicologia no CAPSIJ foi estruturada em várias etapas, para garantir uma integração eficaz e produtiva. As etapas são as seguintes: 1. Integração do Profissional: O novo neuropsicólogo foi apresentado à equipe multidisciplinar. Uma reunião foi realizada para fornecer informações gerais sobre o funcionamento do CAPSIJ, além de discutir as diretrizes estabelecidas nas portarias que orientam as práticas do serviço. 2. Levantamento Estatístico da Demanda: Foi realizado um levantamento detalhado da quantidade de usuários com diagnósticos indefinidos e aqueles que estavam aguardando avaliação pela equipe multiprofissional. Visando entender a demanda existente e planejar as intervenções necessárias. 3. Elaboração do Protocolo: Um protocolo foi desenvolvido com o objetivo de facilitar a articulação do neuropsicólogo com a equipe. Nele incluiu critérios de inclusão para a avaliação neuropsicológica, cronograma de atividades, os instrumentos que seriam utilizados nas avaliações e outros detalhes técnicos relevantes. 4. Organização da Agenda do Profissional: A agenda foi organizada de forma a otimizar o atendimento e garantir que as avaliações e intervenções fossem realizadas de maneira eficiente e dentro dos prazos estabelecidos. 5. Realização da Avaliação Neuropsicológica: Foram realizadas as avaliações neuropsicológicas, permitindo uma compreensão mais aprofundada das necessidades de cada indivíduo e intervenções personalizadas.
Entre abril de 2024 e janeiro de 2025, foram realizados 506 atendimentos e 68 avaliações neuropsicológicas. Os resultados dessa experiência destacam a importância significativa da atuação do profissional de neuropsicologia em diversas situações, incluindo: A) Avaliação diagnóstica diferencial, com 12 casos que resultaram na redefinição do diagnóstico; B) Levantamento do perfil cognitivo do usuário, fundamental para a elaboração de um projeto terapêutico alinhado às suas necessidades; C) Monitoramento da evolução do usuário após um período de intervenções; D) Orientações à escola sobre as particularidades cognitivas do aluno, visando aprimorar o processo de aprendizagem; E) Orientações à família sobre práticas de cuidado e estimulação das habilidades cognitivas da criança e do adolescente em seu cotidiano. Do ponto de vista qualitativo, a participação do profissional de neuropsicologia foi crucial para a discussão de casos envolvendo crianças e adolescentes com agravos cognitivos. Além disso, essa atuação proporcionou a instrumentalização dos demais membros da equipe, por meio de orientações sobre escalas de rastreio, técnicas de estimulação cognitiva e a adequação das salas de oficinas. Essa colaboração multidisciplinar enriqueceu o atendimento e potencializou os resultados das intervenções.
Além desses resultados notáveis, a contribuição do profissional da neuropsicologia no CAPS IJ ainda reserva outras importantes possibilidades, tais como a realização de oficinas de estimulação cognitiva com os usuários, grupos de orientação parental, e a participação nas reuniões de apoio matricial junto as equipes de saúde da família e as E-MULTI. Essa vasta gama de atuação demonstra a necessidade urgente do respaldo das políticas de saúde mental que garanta a inserção do neuropsicólogo nos CAPS e da existência de disciplinas específicas sobre a atuação nos serviços do SUS nos cursos de Neuropsicologia,
multidisciplinar, protocolo, neuropsicologia.
TIAGO HENRIQUE CARDOSO