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Trabalhar no cotidiano das práticas antimanicomiais suscita aos sujeitos envolvidos a convicção de construir ações por caminhos de produção de vida e dignidade; conscientes que este trilhar demanda esforço, criatividade, sustentação e coragem para manter a esperança. Tal questão se mostra ainda mais premente em contextos e casos complexos, que trazem aos profissionais a sensação de fracasso e o foco nos riscos iminentes, presumindo que não existe a possibilidade do cuidado em liberdade. Todavia, a criação de novas práticas faz tornar possível aquilo que por muitas vezes estava no lugar da dúvida. Há formas de promover vida em sociedade, em sua espontaneidade e em respostas muitas vezes não tão delineadas. No dia a dia do fazer como trabalhadores na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), pouco tempo há para contemplar as conquistas. Mas contemplar, registrar e compartilhar é ato de resistência, promotor de esperança. Neste trabalho apontamos que o planejamento, engajamento, estruturação foram estratégias fundamentais para promoção e sustentação de um projeto terapêutico singular suficientemente desafiador, cujo resultado foi a possibilidade de moradia num Serviço Residencial Terapêutico (SRT) – e a partir deste habitar, o cuidado ampliado em rede, algo antes não imaginado como possível. A RAPS de Jundiaí se debruçou, dentro de diversidades e percalços, desde sua “moradia provisória” em CAPS, pavimentando um caminho para alcançar sua residência dentro de um SRT tipo II.
● Descrever um planejamento, ferramentas e evolução de um projeto terapêutico desafiador, que levaram à concretização da possibilidade de moradia, com pertencimento, participação e circulação social de um homem de 42 anos, com diagnóstico de deficiência intelectual moderada, comportamentos de agitação e agressividade, e histórico de diversas internações psiquiátricas. ● Enfatizar a importância de ações planejadas, de apoios interinstitucionais, de composição de equipes, de investimento em instrumentalizações com educação permanente e continuada; ● Dar destaque à compreensão da processualidade dentro do desenvolvimento das propostas, no acompanhamento delicado dos tempos, na dosagem das intervenções e do ócio sustentado como fator importante na esfera do cotidiano.
Na RAPS de Jundiaí, era conhecido um usuário, identificado, sempre, por sua altura e comportamentos disruptivos, que colocavam em risco pessoas e patrimônios públicos. Infelizmente este lastro apresentava quem era o P., o qual contava com poucas possibilidades de existir a partir de outras perspectivas. Com diversas internações e tentativas frustradas em propostas terapêuticas, viu-se a necessidade de proteção dos genitores, e P. começou a “morar” no leito do CAPS. Fundamental apontar que os profissionais se debruçaram em pensar em formas de minimizar angústia e sofrimento, propiciando socialização, lazer, estreitamento de vínculos familiares. Porém P. sempre demonstrou dificuldade em tolerar o convívio próximo com outras pessoas, exigindo trato e atenção exclusiva. No processo de reabilitação psicossocial foi indicada a SRT, após 18 meses de moradia no CAPS. Isto significou uma grande aposta, com muitos questionamentos se cabia alguém com estas características numa moradia coletiva. A primeira tentativa de inserção em SRT não culminou como desejado, porém foi de grande valia, pois trouxe dados concretos de como e do que o P. precisaria para minimamente garantir uma convivência favorável para ele e outros moradores: – Quarto exclusivo afastado da convivência coletiva; – Cuidador que o acompanhasse a maior parte do tempo; – Capacitação para as equipes CAPS e SRT em manejo comportamental, para promover uma linguagem coesa nas intervenções e propostas terapêuticas.
A sustentação inicial do cuidado de P. não foi meta simples: criar pontes entre equipes, mediar conflitos, promover cuidado e acolhimento eram demandas cotidianas. O refinamento de reconhecer sinais do comportamento instável de P. se apresentava diariamente. Aprender e querer conviver com ele fez com que as possibilidades acontecessem. As equipes dos CAPS e SRT, inicialmente receberam uma capacitação, com vistas ao manejo comportamental de P., diante de situações de frustrações e irritabilidade, utilizando estratégias de controle. Possibilitou, também, o alinhamento das ações entre diferentes profissionais. Os impactos causados pela convivência diária com P. também trouxeram sofrimento às equipes, em especial a de cuidadores, que se dedicam quase que exclusivamente a ele. Nesse sentido, estratégias de escuta, apoio e orientações foram oferecidas em espaços coletivos. Para o cuidado de P. foi investido, também em consultas de reavaliação medicamentosa, articulação com outros pontos da rede, como forma de ampliação do repertório social, além de acesso a benefícios previdenciários. A soma dessas ações possibilitou ampliação das possibilidades de cuidado. Estes investimentos das equipes da RAPS, culminaram na melhora de diversas esferas do P., com ampliação da circulação social, inserção na APAE e aproveitamento nas ofertas do Centro Dia da Pessoa com Deficiência. Na SRT, convive com os outros moradores, participa de festas, com redução drástica dos comportamentos agressivos.
Do ponto de vista do caso de P. os resultados deste trabalho foram inegáveis e, apesar dos desafios que ainda se apresentam, pode-se, neste momento, começar a contabilizar os ganhos alcançados: – P. consegue contar sobre seu dia de uma maneira diferente, não em quem bateu, ou ameaçou, mas sim, de suas experiências e preferências; – Expressa que gosta de passear na praça, de suas preferências no Centro Dia ou na APAE; – Pôde visitar a casa do pai, e, lá, ter contato com os animais de estimação dos quais tem afeto; – P. identifica as situações que o deixam irritado, verbalizando-as e apresentando comportamentos mais funcionais, afastando-se das situações ansiogênicas. Há ainda caminhos a percorrer, os comportamentos disruptivos ainda ocorrem, mas a frequência e a intensidade se apresentam em níveis baixos. Isto permite uma imensa possibilidade de ofertas e exploração de desejos em que o mesmo ainda está descobrindo. Na perspectiva da rede de cuidados, esta experiência foi transformadora, uma vez que desafiou aos profissionais a se arriscarem em outras práticas. Como aprendizado, fica a potência dos vínculos, as apostas na inovação e os arranjos para o cuidado em liberdade acima de tudo.
Reabilitação psicossocial, Residência Terapêutica
ADA ELIANE OJEDA GUIMARÃES, ADRIANA CARVALHO PINTO