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O Prognatismo mandibular é uma alteração do crescimento dos ossos da face em que a mandíbula cresce ou se posiciona mais à frente do que a maxila. Como consequência, os dentes inferiores passam a fechar à frente dos dentes superiores, alterando a mordida, a estética facial e funções como mastigação, fala e respiração. Quando não tratada precocemente, essa alteração tende a se agravar com o crescimento, resultando em deformidades faciais mais severas, tratamentos ortodônticos complexos e ou cirurgia ortognática na vida adulta. A prognatismo mandibular é uma alteração do crescimento craniofacial, podendo gerar prejuízos funcionais, estéticos e psicossociais. Em crianças, quando identificado precocemente, é possível intervir ainda na dentição decídua, aproveitando o potencial de crescimento ósseo. Na Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente no âmbito da Estratégia Saúde da Família (ESF), o acompanhamento longitudinal das crianças favorece o diagnóstico precoce dessas alterações. Esta experiência foi desenvolvida nas Unidades da Estratégia Saúde da Família do município de Suzano, com apresentação de três casos clínicos realizados na Unidade de Saúde do Jardim Europa. A proposta surgiu da necessidade de oferecer uma alternativa resolutiva, de baixo custo e factível no SUS, reduzindo a probabilidade de futuras cirurgias ortognáticas, procedimentos de alta complexidade, elevado custo financeiro e grande impacto para os usuários e para o sistema público de saúde.
Promover a intervenção precoce da prognatismo mandibular em crianças na dentição decídua e mista atendidas na APS, utilizando um aparelho expansor modificado. Capacitar os cirurgiões-dentistas da unidade por meio do matriciamento para ativação do aparelho. Demonstrar a efetividade clínica da técnica, contribuindo para a redução de tratamentos ortodônticos complexos e cirúrgicos no futuro, bem como para a qualificação do cuidado em saúde bucal no SUS.
Trata-se de um relato de experiência com abordagem clínico-descritiva. A amostra foi composta por três pacientes, com idades entre 6 e 9 anos, atendidos na Unidade de Saúde do Jardim Europa, vinculada à Estratégia Saúde da Família de Suzano. Inicialmente, foi realizado o diagnóstico clínico de prognatismo mandibular e mordida cruzada anterior. O aparelho inicialmente indicado foi o Bimler C, porém, devido à sua elevada complexidade técnica e dificuldade de manejo por cirurgiões-dentistas não especialistas em ortodontia, optou-se pela substituição por um expansor modificado. O aparelho utilizado apresentava recobrimento das cúspides posteriores, foi cimentado com ionômero de vidro e possuía direção de expansão voltada para a bateria anterior, com o objetivo de projetar os dentes cruzados, variando de canino a canino ou de lateral a lateral. Foi realizado matriciamento dos cirurgiões-dentistas da unidade, capacitando-os para a ativação correta do torno expansor durante o acompanhamento dos pacientes. O tempo médio de tratamento foi de aproximadamente quatro meses, com consultas periódicas para avaliação clínica e ajustes necessários.
Os três casos apresentaram correção satisfatória da mordida cruzada anterior e melhora do relacionamento maxilomandibular ao final do período de tratamento. Observou-se restabelecimento da oclusão funcional, com alinhamento adequado dos dentes anteriores e melhora estética perceptível. Não houve necessidade de utilização de aparelhos de contenção após o término do tratamento, uma vez que a própria correção oclusal obtida foi suficiente para garantir estabilidade, não sendo observada recidiva nos acompanhamentos subsequentes. A estratégia mostrou-se viável no contexto da APS, com boa aceitação por parte das crianças e responsáveis. O matriciamento dos profissionais ampliou a autonomia da equipe de saúde bucal, fortalecendo o cuidado compartilhado e a resolutividade no território.
Quando a prognatismo mandibular não é interceptada na infância, o tratamento evolui para a indicação de cirurgia ortognática na fase adulta. Trata-se de um procedimento hospitalar de alta complexidade, que envolve, internação, anestesia geral, e longo período de recuperação. No âmbito do SUS, esse tipo de intervenção apresenta elevado impacto financeiro. Dessa forma, estratégias de intervenção precoce na Atenção Primária à Saúde mostram-se fundamentais para reduzir custos, evitar procedimentos invasivos futuros e garantir cuidado integral, oportuno e resolutivo à população. A intervenção precoce da prognatismo mandibular na dentição decídua, e mista, demonstrou ser uma estratégia eficaz, segura e de baixo custo. A escolha do expansor modificado mostrou-se adequada à realidade do SUS. A experiência reforça a importância do diagnóstico precoce, do matriciamento das equipes e da ampliação do escopo de atuação da saúde bucal na ESF. Investir em ações preventivas na infância contribui para a integralidade do cuidado, e racionalização dos recursos do SUS, além de melhorar a qualidade de vida dos usuários.
Prognatismo mandibular, intervenção precoce, ESF
ANDREA RIBEIRO, ALINE CECIN ABRAÃO, GABRIEL LOPES DOS REIS