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O domínio e conhecimento sobre a história e formulação do SUS, bem como o seu funcionamento, princípios e diretrizes é algo fundamental e esperado para seus trabalhadores e profissionais, mas quando olhamos para a população atendida percebemos um abismo de desinformação que vai na contramão da produção de saúde. No dia a dia de trabalho do CAPS Infanto juvenil da Vila Prudente foi-se percebendo um significativo aumento da busca espontânea pelo serviço, e por consequência, uma sobrecarga nos serviços. Dentre os principais desafios observados pelos trabalhadores deste CAPS IJ estão: a dificuldade de envolver os usuários e seus familiares nos espaços de participação social e na elaboração do PTS; a desinformação e o desconhecimento acerca de sua forma de funcionamento e fluxo de trabalho. Mas como participar do controle social de um sistema de saúde a qual a população, apesar de diariamente utilizar, pouco conhece sua forma de organização? Como falar da importância da defesa do CAPS quando a população desconhece seus objetivos e o histórico de toda uma luta antimanicomial? Como elaborar um PTS em conjunto quando só se conhece/valida o atendimento psicológico como abordagem terapêutica? Como garantir que aqueles que mais precisam sejam atendidos prioritariamente quando não se tem a menor ideia do que é equidade? Essas questões foram evidenciando a necessidade do exercício da educação na comunidade. Nasce então o projeto de psicoeducação “encontro de matrícula.
O projeto tem como objetivo sensibilizar, conscientizar e orientar os familiares e responsáveis das crianças e adolescentes usuários do serviço sobre os objetivos e forma de funcionamento do CAPS e do SUS, favorecendo a autonomia e participação de todos os envolvidos no processo terapêutico. É também um espaço para fomentar a participação social, sendo este um espaço de troca, tirar dúvidas, fazer apontamentos e sugestões ao serviço. Também pensou-se em ser um espaço que diminuísse a distância entre o acolhimento e o primeiro atendimento, visto que a demanda tem se crescido.
O encontro de matrícula foi inserido no fluxo de acolhimento deste CAPS, de forma que, caso seja observado demanda para ser inserido no CAPS, o encontro será o primeiro atendimento ao usuário e sua família. O encontro é realizado quinzenalmente com todos os acolhidos dentro deste período. Como ferramenta de psicoeducação foi desenvolvido uma apresentação digital que é exibida com uso de um retroprojetor. O conteúdo da peça contempla: apresentação do Sistema Único de Saúde, seus princípios e diretrizes, forma de organização em níveis de atenção, introdução à saúde mental, objetivos do caps, composição da equipe, recursos terapêuticos do serviço, fluxo de atendimento, explicação sobre o que é um PTS, orientações gerais sobre funcionamento do caps, explicação sobre assembleias e conselho gestor. o Encontro tem duração de cerca de 1 hora, no formato roda de conversa estruturada, sendo a apresentação da peça seguida de um momento para tirar dúvidas e ter uma devolutiva dos familiares sobre o que acharam do encontro.
Ao final do encontro os familiares comentam que as informações foram úteis e conseguem assimilar com sua vida cotidiana. Em alguns momentos a própria família consegue fazer a reflexão de que talvez o seu filho(a) não precise ser inserido em CAPS e que podem seguir em acompanhamento na UBS, por exemplo. A percepção da equipe é de que alguns processos de trabalho, como por exemplo avisar com antecedência a necessidade de renovação de receita, foram facilitados; Também observou-se uma melhor compreensão de que saúde mental não é somente coisa de psicólogo, e que outras áreas do saber podem e devem estar envolvidas no processo de reabilitação e reinserção social. O projeto evidenciou a necessidade de ampliar a ação de psicoeducação para além dos novos usuários recém acolhidos, de forma a trabalhar para que todos os usuários cadastrados, inclusive os mais antigos, passem por pelo menos um encontro. Notasse que uma família que compreende melhor o funcionamento do serviço, se apropria ainda mais deste serviço como seu, como um direito, somando assim a população à defesa do Sistema Único de Saúde. O instrumento digital apresentado também foi levado para reuniões e encontros da rede de serviços como ação de educação permanente, e teve uma repercussão excelente, visto que outros serviços, tanto da rede de saúde quanto de outros segmentos, puderam compreender melhor sobre o funcionamento e papel do CAPS e assim qualificar e adequar o encaminhamento e diálogo entre eles.
Uma das principais características dos CAPSs é o fato de tratar-se de um serviço de Portas Abertas, sendo o seu acolhimento inicial livre e irrestrito a qualquer indivíduo que busque o serviço. Todavia, não são todos os casos que são efetivamente absorvidos. Muitas vezes os usuários são direcionados a outros pontos da RAPS e outros serviços a depender da gravidade observada pelo profissional acolhedor. A recente popularização dos CAPS na internet através de memes e vídeos virais por um lado apresentam diversas problemáticas por reforçar um estereótipo lugar de louco que vai na contramão da histórica reforma psiquiátrica, mas por outro colocou em evidência um serviço ainda pouco conhecido pela população. A percepção de um aumento e busca pelo serviço do CAPS trouxe a toda diversos desafios, e escancarou o quanto é necessário aproximar a comunidade na luta pela saúde mental e pelo SUS.
Psicoeducação, promoção, participação social
ALINE XAVIER CABRAL, RAQUEL MEIRELLES PEDRENO PENHA