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A tuberculose (TB) segue como desafio para a saúde pública. Dados do Ministério da Saúde indicam um coeficiente de incidência (CI) de 39.7/100.000 habitantes no Brasil em 20241. Esse número é maior na cidade de São Paulo, com um CI de 62.1/100.000 2. O boletim epidemiológico de TB da cidade de São Paulo aponta um aumento dos casos de TB droga-resistente, aqueles em que há resistência a pelo menos um dos principais fármacos utilizados. Em 2024 foram notificados 90 casos de TB com resistência primária (aquela não adquirida durante o tratamento)2 . Atuamos na UBS Jardim D’Abril (100% de cobertura ESF), no distrito Butantã. Em 26/02/2025, notificamos o primeiro caso de TB resistente à rifampicina sem contato prévio. Em 09/04 e 09/06/2025, identificamos o segundo e terceiro casos, ambos residentes na mesma comunidade: uma favela com 154 domicílios, 404 moradores, alta densidade (72.63 hab/Km²), habitações precárias e vulnerabilidade social. Estes dois casos indicam um CI de 476/100.000, quase 8 vezes a média municipal. Sabemos que a TB não é distribuida homogeneamente, concentra-se em hotspots que perpetuam a epidemia 3. Pela gravidade epidemiológica e aumento da droga-resistência, optamos por considerar toda a comunidade como contactante. Esta abordagem ampliada de contatos (community-wide ou neighbor-based 4-7) foi decidida pela ESF em conjunto a vigilância local, a UVIS Butantã e a vigilância epidemiológica de TB do MSP. As ações iniciaram em 09/06/2025 e seguem em curso.
Nossos objetivos primários foram: Avaliar todos os sintomáticos respiratórios que residem na comunidade Avaliar todos os moradores de todos domicílios da comunidade índice como contactantes de TB resistente, dando prioridade para aqueles em proximidade maior com casos já identificados de TB resistente O objetivo final é identificar outros casos de TB ainda não identificados, e casos de infecção latente de tuberculose (ILTB) com indicação de tratamento. Objetivos secundários: Manter ações periódicas na comunidade sobre tuberculose e ILTB Fazer ações de educação com a população sobre a tuberculose, importância de tratamento e os sintomas.
Fizemos uma mistura de ações de educação, avaliação das famílias da comunidade porta a porta e facilitando a realização de exames para identificar ILTB já prevendo dificuldades de adesão. Ao longo da ação começamos a focar nos vizinhos e vielas mais próximas de casos índice de TB resistente, como meio de focalizar a ação. As ações contaram com a presença de agentes comunitários de saúde, técnicos de enfermagem, enfermeira e médicos da equipe, assim como profissionais de outras equipes em alguns dias. Foram programadas ações na comunidade de panfletagem educativa, coleta de escarro e ações de saúde; Foi feito uma ação ampliada porta a porta em todos domicílios com avaliação de sintomáticos, coleta de escarro, solicitação de RX e prova tuberculínica (PPD); Foi articulada com a UVIS Butantã a realização e leitura do PPD in loco na comunidade; Foi articulada junto com a Organização Social de Saúde (OSS) a disponibilização de um carro para levar pacientes para fazer RX de tórax na UPA Rio Pequeno. As pessoas que realizaram radiografia e PPD têm consulta marcada com um médico da equipe para avaliar se há tuberculose ativa ou ILTB. Estas ações têm ocorrido de forma periódica, pelo menos uma vez por mês, com intuito de indentificar novos sintomáticos e sensibilizar os demais contatos que não realizaram PPD, Raio-X ou passaram pela consulta médica. As ações continuam com busca de pacientes que faltaram em leituras de PDD, que ainda não fizeram RX ou passaram por avaliação médica.
Foram realizadas 7 ações comunitárias no segundo semestre de 2025, nas quais foram avaliadas 123 pessoas. Ao longo das ações, foram solicitados 88 exames de escarro para investigação de tuberculose. Além destas ações, a ACS intensificou a busca de sintomáticos respiratórios e realizou orientações educativas no território. Houveram dois momentos de PPD in loco. O primeiro agosto/25, quando foram realizados 67 PPDs, sendo 44 com resultados negativos, 15 com resultados positivos e 8 ausências na leitura. O segundo novembro/25 totalizando 20 PPDs, sendo 16 resultados negativos e 4 resultados positivos. No total, foram realizados 87 testes tuberculínicos, sendo identificados 19 resultados positivos. 25 pacientes realizaram RX com apoio do carro disponibilizado pela organização social de saúde (OSS). Ao longo desta ação contínua identificamos mais um caso de TB pulmonar resistente a rifampicina, além de 15 ILTBs que agora estão em acompanhamento com a equipe, usando esquema com Isoniazida por 6 meses (esquema indicado para contatos de TB resistente à Rifampicina) Importante notar que além das ações específicas, a ACS desta área reforçou as orientações relativas à tuberculose e identificação de sintomáticos respiratórios.
Embora ainda em andamento , a experiência já detectou um novo caso de TB resistente e 15 casos de ILTB. A ação continuará devido a baixa adesão: das 123 solicitações de PPD em agosto de 2025, apenas 67 realizaram o exame e 8 faltaram à leitura. Padrão similar ocorreu com o RX. É nítida a dificuldade de adesão, especialmente em assintomáticos, ou devido a vulnerabilidade social e uso de álcool e drogas. A adesão é um desafio global e estratégias para enfrentamento têm sido desenvolvidas incluindo exames facilitados, educação e transferência de renda 8,9,10. Soma-se a isso o gargalo na oferta de consultas. Priorizamos as consultas de avaliação destes pacientes, mas isto pressiona a agenda frente a demandas concorrentes (programas, doenças crônicas, queixas agudas, etc) 11. Esta ação exige tempo e recursos da ESF, demandando planejamento, reuniões e tabulação de dados. Sugerimos a abordagem ampliada apenas em locais de alta incidência. Como a TB se concentra em hotspots de vulnerabilidade 3, as ESFs podem focar ações intensivas nesses territórios, expandindo a investigação para além dos contatos domiciliares. Outras UBS com territórios de alta incidência podem replicar esta estratégia para fortalecer o controle da TB no município.
Tuberculose, Abordagem Comunitária, Vigilância
LUCAS BASTOS MARCONDES MACHADO, ICARO SALERNO FERNANDES, DAYANE APARECIDA ESTEVES DA SILVA, MARIA DE FATIMA DE LIMA CHERON, DIMITRIA SOARES FRANKLIN, FLAVIA FERREIRA DE OLIM