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A Atenção Básica constitui a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e é responsável pelo acompanhamento longitudinal dos usuários e famílias no território, considerando os determinantes clínicos, sociais e ambientais do processo saúde–doença¹. Entre os desafios do cuidado integral destacam-se as complicações associadas a condições crônicas e barreiras de acessibilidade que comprometem a autonomia, a mobilidade e a participação social. No território da UBS Parque Lanel, o acompanhamento domiciliar realizado por Agente Comunitário de Saúde (ACS) permitiu identificar a trajetória de adoecimento de usuário com diabetes mellitus que, após infecção decorrente de procedimento inadequado em unha, evoluiu para amputação de membro inferior. O caso evidenciou a inter-relação entre cuidado clínico, reabilitação funcional, apoio emocional e condições de acessibilidade no território, ampliando a compreensão da equipe sobre os impactos do ambiente urbano na vida cotidiana e na saúde. A experiência reforça o papel da Atenção Básica na promoção da autonomia, no enfrentamento das desigualdades e na defesa do direito à acessibilidade como componente essencial do cuidado integral, conforme preconiza a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência², articulando saúde, dignidade e participação social.
Promover cuidado integral e longitudinal a usuário portador de comorbidades crônicas e amputação; apoiar o processo de reabilitação funcional e adaptação às atividades de vida diária; acolher e trabalhar aspectos emocionais no núcleo familiar; identificar barreiras de acessibilidade no território; fortalecer o vínculo entre usuário, família e equipe de saúde; e fomentar a reflexão sobre a acessibilidade como determinante social da saúde no âmbito da Atenção Básica.
A experiência foi desenvolvida a partir do acompanhamento domiciliar realizado por ACS da UBS Parque Lanel. Durante as visitas, foram identificadas necessidades clínicas, emocionais e sociais relacionadas ao processo de adoecimento, amputação e reabilitação do usuário. Após a amputação e a adaptação à prótese, a equipe de saúde atuou de forma integrada no acompanhamento clínico e no suporte emocional ao usuário e a seu núcleo familiar, por meio de escuta qualificada, orientações em saúde e fortalecimento do vínculo. Paralelamente, foram identificadas barreiras de acessibilidade no território que dificultam o deslocamento seguro do usuário, incorporando a temática da acessibilidade ao acompanhamento longitudinal.
A intervenção possibilitou o resgate do usuário em situação de risco iminente à vida, assegurando acesso tempestivo ao cuidado em saúde e controlando o agravamento do quadro clínico e social. Após o atendimento emergencial e o acompanhamento permanente, o usuário apresentou melhora progressiva, com recuperação da mobilidade e das condições gerais de saúde. A experiência fortaleceu vínculos entre a UBS, a comunidade e a família, além de reafirmar a potência do trabalho em rede para proteção da vida e redução de vulnerabilidades sociais. O caso também ampliou a capacidade da equipe para reconhecer e agir em situações complexas de vulnerabilidade, reforçando a vigilância territorial como ferramenta essencial da Atenção Básica.
A experiência demonstra a relevância estratégica da Atenção Básica na detecção precoce e na intervenção em situações de alta vulnerabilidade, risco iminente à vida e violação de direitos. A atuação integrada entre a Rede de Atenção à Saúde, a comunidade e as instituições públicas reafirma o SUS como política de proteção social, garantia de direitos e defesa da vida. O protagonismo dos ACS, aliado à vigilância territorial contínua e à articulação intersetorial, evidencia o potencial transformador do cuidado em rede, sobretudo em contextos de elevada complexidade social. Essa experiência gerou importantes aprendizados sobre escuta qualificada, corresponsabilização comunitária e ação oportuna diante de riscos extremos, configurando uma prática eticamente orientada, sanitariamente eficaz e socialmente necessária, com possibilidade de replicação em outros territórios do SUS.
Acessibilidade; Cuidado integral; Deficiência.
LINA MATOS JULIANO