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A Febre Amarela (FA) é uma arbovirose de elevada gravidade, com potencial de rápida disseminação em áreas com circulação viral silvestre e presença de populações não vacinadas, configurando importante desafio à saúde pública brasileira. A vigilância de casos humanos, o monitoramento de epizootias em Primatas Não-Humanos (PNH) e a ampliação oportuna das coberturas vacinais constituem pilares essenciais para prevenção de surtos e redução da morbimortalidade. No estado de São Paulo, a disponibilidade universal da vacina desde 2019 e o uso de modelos de favorabilidade permitem orientar ações conforme o risco epidemiológico. Em 2025, diante da confirmação de casos humanos na regional e da classificação de prioridade elevada, intensificou-se a necessidade de resposta integrada no município. Destaca-se que Piracicaba possui extensa área rural e significativa dispersão territorial da população, condição que amplia vulnerabilidades de acesso e exige estratégias diferenciadas de vigilância, imunização e educação em saúde. Nesse contexto, torna-se relevante descrever a experiência local, evidenciando a articulação intersetorial, a atuação territorializada e a ampliação do acesso à vacinação como elementos centrais para proteção coletiva frente ao risco aumentado de FA.
Relatar as estratégias exitosas da Vigilância em Saúde do município de Piracicaba frente ao risco aumentado para ocorrência de casos de Febre Amarela.
Em 2025, diante da confirmação de dois casos humanos na regional e da classificação de Piracicaba como município de prioridade alta no modelo de favorabilidade, intensificaram-se as ações de vigilância de casos humanos, epizootias de PNH e vacinação. Considerou-se a vacina como principal medida preventiva, disponível em todos os municípios paulistas desde 2019, e a inserção de Piracicaba entre os 167 municípios contemplados na Fase 1 da estratégia estadual em período de baixa ocorrência de casos. Entre julho e dezembro/2025, foram realizadas vacinação casa a casa, busca ativa de suscetíveis, orientação sobre identificação de PNH e incentivo ao uso do aplicativo Siss-Geo. As ações iniciaram-se em áreas rurais de maior risco, como Ártemis, pela proximidade com município com caso confirmado, expandindo-se para Santa Olímpia, Planalto, Anhumas, Ibitiruna Tupi, Tanquinho, Campestre, Parque São Jorge e adjacências dos territórios das unidades Santa Rita, Cecap e Primavera. Paralelamente, reforçaram-se atividades educativas em escolas, junto a lideranças comunitárias e meios de comunicação, além da ampliação do horário de funcionamento de sala de vacina para facilitar o acesso.
As ações intensificadas de vigilância e imunização produziram efeitos concretos na ampliação da proteção populacional frente ao risco de Febre Amarela silvestre. Desde o início da ação, em 26/07/2025, até 31/12/2025 foram imunizadas 7.442 pessoas, correspondendo a incremento de 52,26% em relação ao mesmo período do ano anterior, evidenciando a efetividade das estratégias territoriais adotadas. Considerando que o município possui 440.835 habitantes e extensa área rural (1.147,25 km²), a vacinação casa a casa mostrou-se fundamental para alcançar populações com maior vulnerabilidade de acesso e ampliar a cobertura em áreas prioritárias. No campo educativo e de vigilância ambiental, observou-se o fortalecimento do conhecimento comunitário sobre o papel dos PNH como sentinelas epidemiológicas, contribuindo para prevenção de agressões aos animais e para a divulgação da importância das notificações no sistema SISS-Geo. Entre julho e dezembro de 2025, profissionais do Centro de Controle de Zoonoses visitaram 274 propriedades próximas a áreas de mata, identificando 21 pontos com presença atual de PNH e 59 com histórico de ocorrência, informações essenciais para o direcionamento oportuno das ações de vigilância e vacinação. De forma integrada, os resultados demonstram ampliação do alcance das ações de saúde, qualificação da resposta territorial e fortalecimento da capacidade municipal de prevenção, consolidando atuação proativa e coordenada diante do cenário de risco elevado para FA.
A experiência de Piracicaba evidenciou uma resposta oportuna ao risco de Febre Amarela por meio da integração efetiva entre vigilância epidemiológica, vigilância ambiental, imunização e atenção básica, sustentada por planejamento territorial e articulação intersetorial. A atuação coordenada permitiu ampliar a cobertura vacinal de forma estratégica, intensificar a vigilância de epizootias e alcançar populações rurais com maior vulnerabilidade de acesso, fortalecendo a capacidade municipal de prevenção antes da ocorrência de casos autóctones. A vacinação de suscetíveis em período de baixa incidência reafirma-se como estratégia central para evitar a reintrodução da doença e reduzir o risco de transmissão. Paralelamente, as ações educativas e o monitoramento sistemático de Primatas Não-Humanos consolidaram uma abordagem preventiva baseada em ciência, informação qualificada e mobilização comunitária. A experiência demonstra que a organização territorial, a resposta antecipatória e a integração das políticas de vigilância configuram modelo sustentável e replicável no SUS, contribuindo para a preparação e o enfrentamento de emergências epidemiológicas em contextos de risco elevado.
Febre Amarela, vigilância em saúde, vacinação
FERNANDA LOPES MENINI, CARINA ELIAS BARON, KARINA CORRÊA CONTIERO