Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
O atendimento odontológico de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) na Atenção Básica apresenta desafios relacionados às especificidades sensoriais, comportamentais e às lacunas na formação profissional para o cuidado inclusivo. Em uma Unidade Básica de Saúde do município de Lins-SP, a partir de março de 2023, iniciaram-se atendimentos odontológicos voltados a crianças com TEA, diante da demanda crescente de famílias que relatavam dificuldade de acesso e experiências negativas prévias em serviços de saúde. A prática foi sendo reestruturada progressivamente até 2025, com organização de estratégias de acolhimento, escuta qualificada e flexibilização do processo de trabalho. A experiência envolve crianças com TEA acompanhadas pela UBS e suas famílias cuidadoras, fortalecendo a equidade e o acesso ao cuidado no SUS municipal. Como desdobramento, em 2025 iniciou-se a construção do projeto EcoTEAfeto, voltado à promoção da saúde bucal de crianças autistas, a partir das necessidades identificadas na prática assistencial.
Promover acolhimento qualificado e cuidado odontológico humanizado para crianças com TEA na Atenção Básica; reduzir barreiras de acesso ao atendimento odontológico; fortalecer o vínculo entre equipe de saúde e famílias cuidadoras; qualificar o processo de trabalho da rede municipal para o cuidado inclusivo; e organizar fluxos de encaminhamento mais resolutivos entre Atenção Básica, Centro de Especialidades Odontológicas e demais pontos da rede de atenção à saúde.
A experiência foi desenvolvida no serviço odontológico da UBS, com reorganização gradual do processo de trabalho desde 2023. Foram implementadas estratégias como escuta prévia com responsáveis para identificação de sensibilidades e histórico comportamental, agendamento em horários mais tranquilos, redução de estímulos sensoriais no consultório, comunicação previsível, adaptação progressiva ao ambiente e ampliação do tempo de consulta quando necessário. Realizaram-se orientações educativas às famílias sobre saúde bucal e manejo domiciliar adaptado. No segundo semestre de 2025, a prática foi apresentada aos cirurgiões-dentistas da rede municipal, configurando ação de educação permanente para qualificação do cuidado às crianças com TEA. Paralelamente, houve articulação com a especialista em pacientes especiais do Centro de Especialidades Odontológicas (CEO) para organização do fluxo de encaminhamento, com elaboração de ficha mais detalhada contendo informações sobre medicações, perfil sensorial e dificuldades no atendimento. Também foi realizada aproximação com o setor de regulação municipal, com esclarecimento aos profissionais da Atenção Básica sobre critérios para encaminhamento especializado e, em casos extremos, encaminhamento hospitalar via médico da UBS.
Observou-se aumento da adesão das famílias ao acompanhamento odontológico, e maior tolerância das crianças ao ambiente da UBS, com melhora progressiva na aceitação do atendimento. Houve fortalecimento do vínculo entre equipe de saúde bucal e famílias, com relatos de maior segurança e sensação de acolhimento por parte das cuidadoras. A qualificação dos dentistas da rede por meio da apresentação da prática ampliou o olhar para o cuidado inclusivo e estimulou a reprodução de estratégias adaptadas em outros serviços. A organização do fluxo com o CEO e a criação de ficha de encaminhamento mais detalhada favoreceram maior continuidade do cuidado e melhor preparo da atenção especializada para receber esses pacientes. A aproximação com a regulação contribuiu para maior clareza dos critérios de encaminhamento, evitando encaminhamentos desnecessários e fortalecendo a resolutividade da Atenção Básica. Os resultados são predominantemente qualitativos, evidenciando ampliação do acesso, equidade no cuidado e integração entre os pontos da rede.
A experiência demonstra que a inclusão de crianças com TEA no cuidado odontológico da Atenção Básica é possível por meio da reorganização do processo de trabalho, escuta qualificada das famílias e articulação em rede. Pequenas adaptações estruturais e atitudinais produziram impacto significativo na equidade do acesso e na humanização do cuidado. Destaca-se o papel da educação permanente e da integração entre Atenção Básica, atenção especializada e regulação para qualificação da rede municipal de saúde. A prática reforça os princípios do SUS, especialmente integralidade, equidade e cuidado centrado na pessoa e na família. Como perspectiva futura, pretende-se ampliar o projeto EcoTeAfeto como estratégia de promoção da saúde bucal e educação em saúde para famílias atípicas, além de seguir disseminando a experiência para outras equipes da rede municipal.
Autismo, atenção primaria a saúde, saúde bucal
JHANNI MELISSA RIBEIRO DE JESUS XAVIER