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O acúmulo excessivo de objetos, resíduos e animais constitui um problema complexo de saúde pública, com repercussões ambientais, sociais e de saúde mental, impactando diretamente a qualidade de vida das pessoas. No contexto do envelhecimento populacional, essa condição torna-se ainda mais crítica, uma vez que a população idosa apresenta maior vulnerabilidade funcional, maior prevalência de doenças crônicas e maior dependência do ambiente domiciliar para manutenção da autonomia. As mudanças climáticas extremas intensificam esses riscos, especialmente em territórios vulneráveis. Ondas de calor, chuvas intensas e a proliferação de vetores agravam as condições de insalubridade em domicílios com acúmulo, aumentando o risco de zoonoses, doenças respiratórias, quedas, desidratação e sofrimento psíquico entre idosos. Esse cenário dialoga diretamente com as diretrizes da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa. Nesse contexto, no âmbito do Programa Ambientes Verdes e Saudáveis (PAVS), surge o projeto “Acumulando saúde”, desenvolvido na Unidade Básica de Saúde (UBS) Profeta Jeremias, localizada no território de Cidade Tiradentes, zona leste do município de São Paulo, e administrada pelo Santa Marcelina Saúde em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, visando qualificar o cuidado às pessoas cadastradas em situação de acúmulo, reduzir riscos ambientais e sanitários e fortalecer a atuação integrada da Atenção Primária à Saúde no território.
Reduzir os riscos e agravos à saúde associados à situação de acúmulo no território da UBS Profeta Jeremias, com ênfase na população idosa, por meio da identificação qualificada dos casos, da construção e acompanhamento de Projetos Terapêuticos Singulares e da atuação multiprofissional e intersetorial.
A experiência foi desenvolvida a partir do levantamento das pessoas em situação de acúmulo no território da UBS Profeta Jeremias, utilizando a planilha de Riscos e Potencialidades do PAVS como instrumento orientador. Após a identificação dos casos, foram construídos Projetos Terapêuticos Singulares (PTS) por meio de atendimentos multiprofissionais envolvendo psicóloga, assistente social, enfermeiro da equipe e Agente de Promoção Ambiental, priorizando intervenções graduais, pactuadas e centradas na pessoa idosa. Foram realizadas capacitações com 100% dos Agentes Comunitários de Saúde, em dois momentos formativos, para qualificar a identificação das situações de acúmulo, diferenciar essas situações da coleta autônoma de recicláveis e reconhecer riscos ampliados em contextos de eventos climáticos extremos. Conforme a complexidade dos casos, houve articulação com a Supervisão Técnica de Saúde, Unidade de Vigilância em Saúde, Secretaria de Limpeza Urbana e, quando necessário, suporte jurídico. O acompanhamento ocorre por meio de visitas domiciliares, discussões em equipe e monitoramento contínuo dos casos.
A execução do projeto resultou em avanços significativos na organização do cuidado às pessoas em situação de acúmulo, em especial os idosos. Foi realizada a capacitação de 100% dos ACS da unidade, em dois momentos formativos conduzidos pela psicóloga e APA, qualificando o reconhecimento das situações de acúmulo. Antes do início do projeto, havia 14 pessoas em situação de acúmulo registradas. Após as capacitações e o fortalecimento do olhar da equipe, esse número foi ampliado para 25 casos identificados, sendo 4 adultos com menos de 60 anos e 21 idosos acima de 60 anos, evidenciando melhora na vigilância territorial. Até janeiro de 2026, foram elaborados e encontram-se em acompanhamento 4 PTS, representando um avanço expressivo, considerando que anteriormente nenhum caso possuía PTS estruturado. Foi instituído um comitê interno multiprofissional específico para discussão dos casos de acúmulo, fortalecendo a governança do cuidado. Diversas visitas domiciliares foram realizadas com participação de enfermeiro, equipe multiprofissional, ACS, APA e Agente de Combate às Endemias (ACE). Como desdobramento, um caso passou por processo de desfazimento acompanhado pela família e pela unidade; outros dois estão em andamento. Um usuário passou a residir com familiares e está em acompanhamento no CAPS, e outro aderiu à vacinação e castração dos animais, permanecendo em monitoramento pela UVIS. A meta estabelecida é alcançar 75% dos PTS elaborados e em andamento até fevereiro de 2026.
A experiência do projeto “Acumulando Saúde” evidencia que o enfrentamento da situação de acúmulo na Atenção Primária à Saúde exige estratégias estruturadas, intersetoriais e sensíveis às dimensões ambientais, sociais e de saúde mental, especialmente em territórios vulneráveis às mudanças climáticas. A capacitação das equipes, mostrou-se essencial para ampliar a identificação dos casos e qualificar o cuidado. A construção dos PTS consolidou-se como instrumento central para a condução de intervenções graduais, pactuadas e sustentáveis, fortalecendo o vínculo entre usuários, famílias e equipe. A criação de um comitê multiprofissional específico reforçou a institucionalização do tema e a corresponsabilização dos diferentes atores envolvidos. Entre os desafios, destacam-se a complexidade dos casos, o tempo necessário para adesão dos usuários e a necessidade de articulação permanente com outros setores. Como principal lição aprendida, o cuidado às pessoas em situação de acúmulo demanda continuidade, escuta qualificada e trabalho em rede. A experiência reafirma o papel estratégico da Atenção Primária à Saúde na redução de riscos ambientais e sanitários e apresenta potencial de replicabilidade em outros territórios do SUS.
Resíduos - Idoso - vulnerabilidade funcional
RAPHAEL HENRIQUE MARTINS, RENATA CABRAL DE MELLO, IVONETE GOMES DA SILVA