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O transtorno do espectro autista (TEA) é caracterizado pela alteração das funções do neurodesenvolvimento do indivíduo, que pode interferir na capacidade de comunicação, linguagem, interação social e comportamento. O Sistema Único de Saúde (SUS) conta com uma rede de atenção à saúde para o cuidado integral das pessoas com TEA. A criação de uma rede de cuidados à pessoa com deficiência deve abrigar familiares, acompanhantes e cuidadores para realização do diagnóstico, acompanhamento, concessão, adaptação e manutenção de tecnologia assistiva1. A Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Criança, indica que as crianças com Deficiência são as que demandam ações estratégicas e serviços de saúde prioritários, que em regra geral devem ser articulados com outras políticas públicas2. Diversos estudos direcionam as práticas aquáticas com os processos de transformação dos estímulos psicomotores no meio líquido e tende a melhorar a qualidade de vida, prevenindo problemas e complicações futuras3,4,5. Segundo um estudo publicado no American Journal of Public Health, a morte de crianças autistas por acidentes é 40 vezes maior que de crianças típicas e o afogamento é a causa principal6. Nesse contexto, pensando em auxiliar o desenvolvimento motor, aumento de tônus muscular, melhora da coordenação motora, da socialização, redução dos quadros de ansiedade e também aumentar a segurança dessas crianças, foi criado o Projeto Peixinho Azul no município de Ilhabela
O objetivo principal do projeto é incentivar as questões referentes a autonomia e independência do sujeito acometido com TEA. Como objetivos específicos temos: Desenvolver percepção corporal e sinestésica da pessoa com TEA, Promover a adaptação ao meio líquido e iniciação à natação; Contribuir para o ensino e o desenvolvimento e aprendizagem; Permitir uma maior concentração mental com a adaptação ao meio líquido; Estimular a interação social durante as aulas e em seu ambiente externo; Motivar o bem-estar emocional e a qualidade de vida e; Melhorar as condições físicas desse público.
O Projeto Peixinho Azul se inicia com a equipe multidisciplinar da Academia da Saúde de Ilhabela em parceria com a Atenção Básica e Secundária, a identificação de crianças que já estão em algum estágio de tratamento terapêutico para TEA são encaminhadas. A segunda etapa conta com apropriações e discussões dos casos clínicos e de quais crianças poderiam entrar no projeto. A logística das aulas tem a programação de execução de uma vez por semana, em um horário adequado para os responsáveis/cuidadores que acompanham os assistidos e, auxiliam no desenvolvimento das atividades sob supervisão da profissional responsável. No início, em 2019, o projeto foi formatado para acolher crianças de 6 a 11 anos e haviam 10 crianças, entretanto, com os pedidos da comunidade, a faixa etária acolhe atualmente dos 3 aos 12 anos. Os assistidos hoje são 22 e com sua matrícula automática, esse número pode aumentar de acordo com a demanda. As aulas acontecem na piscina da Academia da Saúde em diversos horários e tem duração de 45 minutos, as atividades são voltadas para cada individuo em seu contexto, observando a faixa etária, entretanto, exercícios voltados para a iniciação da natação são efetivados para todos. A participação ativa dos responsáveis no processo terapêutico é essencial, onde o auxilio de vários aspectos trabalhados na adequação ao meio líquido é reforçado o vínculo familiar, estreitamento de laços e, a aprendizagem em mudanças da capacidade do indivíduo realizar novas habilidades.
Os resultados apontaram melhoras significativas em aspectos fisiológicos, motores, sociais, emocionais e cognitivos dos assistidos, fato que contribuiu para o desenvolvimento global da criança com TEA do projeto. A melhora da qualidade de vida com a inserção de hábitos saudáveis criou vínculos e amizades, fato identificado entre profissional-usuário, profissional-responsável e responsável-usuário. A progressão do fator físico foi notória em todos os usuários do projeto em seus movimentos motores nos equilíbrios, da lateralidade quando se percebeu o desenvolvimento dos centros motores durante o processo de amadurecimento no projeto e, dos tônus musculares em forças e intensidades. Com relação ao convívio social, foi observado a formatação de um sentimento de pertencimento ao grupo do projeto, com um nível de conforto da criança com sua própria identidade através de experiências emocionantes e divertidas das atividades. O lado emocional, visualizou-se a criação de afetos, e caracterizou-se pela capacidade de um auto-controle com mais efetividade e gerenciamento de possíveis alterações de comportamento que influenciaram as atividades durante o projeto. E por fim, a condição cognitiva com um desenvolvimento psicossocial, com melhoras nos quadros de ansiedade e hiperatividade, produzindo relaxamento, autoconfiança e autonomia reduzindo os riscos de acidentes em ambiente aquático.
O trabalho com as pessoas com TEA apontou que apresentam formas diferenciadas de aprender, as percepções são muito distintas, assim como os momentos únicos de cada criança com TEA e a utilização de um ensino estruturado nas aulas de natação adaptada favorece a aprendizagem, melhora a comunicação e aumenta a probabilidade de ocorrência de comportamentos mais ajustados. O projeto que inicialmente teria duração de seis meses, foi integrado ao quadro de atividades da Academia da Saúde de Ilhabela e realiza atendimentos contínuos para toda criança autista do município, desde que esteja dentro do limite de idade. O serviço em saúde que se iniciou, há 5 anos atrás, timidamente com poucas intencionalidades, se transformou em uma política pública municipal para acolher com melhora da autonomia o público do TEA em continuidade, potencialidade, inclusão e amorosidade.
Espectro autista; Promoção em Saúde; Saúde mental.
DANIELA GÓES DE ABREU