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A sexualidade é dimensão constitutiva do ser humano ao longo de toda a vida. Entretanto, no campo da saúde pública, a velhice ainda é atravessada por preconceitos, silenciamentos e estigmas que invisibilizam os afetos, os desejos e as identidades de gênero das pessoas idosas. No território onde atua o Programa Acompanhante de Idosos (PAI Interativa), observou-se que temas como relacionamentos, autocuidado sexual, prevenção de ISTs, violência, diversidade de gênero e orientação sexual raramente eram abordados nos serviços, dificultando o acesso a informações qualificadas e ao exercício de direitos. A experiência descrita consiste na implementação de rodas educativas semanais e atendimentos individuais sobre sexualidade e gênero com pessoas idosas acompanhadas pelo PAI. A ação acontece nas dependências do serviço e em visitas domiciliares, envolvendo a equipe interdisciplinar e usuários em situação de vulnerabilidade social, funcional e emocional. O trabalho parte do entendimento de que a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa e o SUS reconhecem a integralidade como princípio estruturante do cuidado. Assim, falar sobre sexualidade significa promover autonomia, dignidade, prevenção de agravos e fortalecimento de vínculos. A experiência também contribui para a redução de preconceitos, ampliação da rede de apoio e afirmação dos direitos humanos na velhice, incluindo pessoas LGBTQIA+ idosas, frequentemente mais expostas ao isolamento e ao estigma.
Promover a abordagem integral da sexualidade e das identidades de gênero no cuidado com pessoas idosas acompanhadas pelo PAI Interativa, fortalecendo a autonomia, a prevenção de agravos e o acesso a direitos no SUS. Busca-se ampliar o diálogo sobre afetividade, corpo, relações, consentimento, ISTs e violência, além de reduzir estigmas relacionados à velhice e diversidade sexual. Também se objetiva qualificar a escuta profissional, apoiar situações de sofrimento emocional, fortalecer vínculos familiares e comunitários e garantir acolhimento ético às pessoas LGBTQIA+ idosas. Outro objetivo é produzir reflexão crítica na equipe interdisciplinar, integrando a temática às práticas de cuidado, planejamento terapêutico singular e educação permanente em saúde.
A experiência foi desenvolvida por meio de rodas de conversa educativas, oficinas semanais e atendimentos individuais realizados pela equipe interdisciplinar do PAI Interativa. As atividades ocorreram em grupo, nos espaços do serviço, e também em visitas domiciliares, de acordo com a funcionalidade e condições de saúde das pessoas idosas. Participaram aproximadamente 120 usuários, majoritariamente com condições crônicas e vulnerabilidades sociais. Os temas abordados incluíram: afetividade e relacionamentos, imagem corporal, ISTs na velhice, consentimento, violência sexual, diversidade de gênero e orientação sexual, preconceito e direitos. As rodas utilizaram linguagem acessível, estratégias lúdicas e espaço para partilha de experiências. As situações sensíveis foram acompanhadas em atendimentos individuais. A equipe recebeu reuniões de matriciamento e educação permanente, com discussão ética e técnica. Foram produzidos materiais educativos simples e inclusivos. Quando necessário, houve articulação com a Atenção Básica, NASF, CAPS, CRAS e rede de proteção social. A metodologia priorizou sigilo, escuta qualificada, respeito cultural e corresponsabilidade no cuidado, fortalecendo o protagonismo da pessoa idosa.
Entre os principais resultados observados destacam-se o aumento da procura espontânea por orientação sobre sexualidade, o fortalecimento do vínculo com o serviço e a ampliação do diálogo sobre afetividade na velhice. Pessoas idosas passaram a relatar com maior liberdade dúvidas e experiências relacionadas a relacionamentos, uso de preservativo, autoestima, tristeza, luto e solidão. Houve redução de constrangimentos e preconceitos durante as consultas e maior acolhimento a idosos LGBTQIA+. Identificaram-se situações de violência e negligência que puderam ser encaminhadas à rede de proteção. Notou-se também melhora na percepção de autocuidado e qualidade de vida referida pelos participantes. Na equipe, observou-se qualificação técnica e maior segurança para abordar o tema de maneira ética e humanizada. A experiência contribuiu para consolidar o princípio da integralidade, fortalecendo a rede intersetorial e a educação permanente. Os resultados reforçam que a sexualidade permanece ativa na velhice e que o SUS tem papel fundamental na promoção de direitos, prevenção de agravos e combate ao estigma.
A experiência demonstra que abordar sexualidade e gênero com pessoas idosas no SUS é fundamental para a promoção da saúde integral, da autonomia e da dignidade humana. O PAI Interativa mostrou-se um espaço privilegiado para o cuidado ampliado, sensível às vulnerabilidades e atento às singularidades da vida na velhice. O trabalho evidenciou que o preconceito, o silêncio e o tabu ainda produzem sofrimento e barreiras de acesso. Ao abrir espaço de escuta, o serviço fortaleceu a cidadania, a proteção social e o vínculo terapêutico, contribuindo também para o enfrentamento da violência e da discriminação. Como desafio futuro, destaca-se a necessidade de ampliar ações educativas, incluir familiares, fortalecer a rede e produzir materiais acessíveis e inclusivos. A experiência reafirma que falar de sexualidade na velhice é falar de direitos humanos, cuidado ético e compromisso com o SUS.
Pessoa idosa; Sexualidade; Gênero; PAI; LGBTQIA+.
JORGE FERNANDO DE SOUZA NETO