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Na cidade de São Paulo, a Rede Sampa Trans constitui um conjunto de serviços de Atenção à Saúde Integral para lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, pessoas não binárias, intersexo e assexuais. A linha de cuidado inclui o acompanhamento da hormonização para pessoas transsexuais. Atualmente, a rede é composta por 45 serviços de saúde distribuídos em todos os níveis de atenção, incluindo Unidades Básicas, Ambulatórios de Especialidades, Centros de Referência e Hospitais. A epidemia de HIV apresenta distribuição desigual entre diferentes grupos populacionais, com maior vulnerabilidade social e risco aumentado de infecção entre homens que fazem sexo com homens, trabalhadoras(es) do sexo, jovens e população negra. Estudos epidemiológicos nacionais e internacionais demonstram que a prevalência de HIV entre travestis e mulheres trans é significativamente superior à da população geral, alcançando, em algumas capitais brasileiras, valores superiores a 30–34%, caracterizando esse grupo como prioritário para intervenções de prevenção. Nesse contexto, a ampliação do acesso às tecnologias de prevenção combinada em serviços de referência para essa população torna-se estratégica para a redução de iniquidades em saúde.
Com o objetivo de ampliar o acesso a métodos de prevenção ao HIV para a população de mulheres transexuais e travestis, foi definida a estratégia de capacitar os profissionais da Rede Sampa Trans, disponibilizar insumos de prevenção como preservativos externo e interno, gel lubrificante e autoteste de HIV, e em especial possibilitar que estes serviços passassem a fazer a dispensação das profilaxias pré e pós-exposição ao HIV (PrEP e PEP) para os usuários que realizam atendimento. É importante esclarecer que a dispensação da PrEP e PEP na Rede Sampa Trans tem um objetivo principal de ampliar o acesso para pessoas trans, mas as unidades podem fazer a dispensação para todo o público de pessoas que atendem.
A estratégia teve início em outubro de 2020, com a adesão de 28 unidades da Rede Sampa Trans. Os profissionais foram capacitados em prevenção combinada, abordagens em sexualidade e diversidade, e nos Protocolos Clínicos e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para PrEP e PEP. As unidades foram cadastradas junto ao Ministério da Saúde como serviços dispensadores e habilitadas no Sistema de Controle Logístico de Medicamentos (Siclom). Em 2025, foi realizada avaliação da estratégia, que subsidiou a ampliação do número de unidades participantes. Foram promovidas novas capacitações para serviços já habilitados e para unidades recém-incorporadas. Até dezembro de 2025, 38 das 45 unidades da Rede Sampa Trans encontravam-se cadastradas para dispensação de PrEP e PEP. Trata-se de um estudo descritivo, baseado em dados obtidos pelo Siclom, e de monitoramento dos serviços.
Até o momento, foram realizados 1.740 novos cadastros de PrEP nas unidades da Rede Sampa Trans, correspondendo a 2,28% do total de cadastros realizados na Rede Municipal Especializada em IST/Aids. Analisamos aqui o perfil dos usuários atendidos, quanto a identidade de gênero temos a seguinte distribuição: 70% de homens cis, 6% de homens trans, 8% de mulheres cis, 11% de mulheres trans, 3% de pessoas não binárias e 2% de travestis. Quanto à raça/cor temos a seguinte distribuição: 52% de pessoas brancas, 28% de pardas, 18% de pessoas negras, 2% de amarelas e 1% de indígenas. Quanto à escolaridade, temos a seguinte seguinte distribuição: 68% com 12 anos ou mais de tempo formal de educação, 27% com 8 a 11 anos, 4% com 4 a 7 anos e 1% sem educação formal. Em relação à PEP, foram dispensados 629 medicações em 2025, equivalentes a 1,69% da dispensação municipal.
Embora os valores absolutos ainda sejam modestos em relação ao conjunto da rede municipal, a estratégia apresenta impacto relevante na ampliação do acesso de populações historicamente vulnerabilizadas. Pessoas trans e não binárias representam 22% dos cadastros de PrEP na Rede Sampa Trans, em contraste com 4,9% no cenário nacional e 4,3% no âmbito municipal. Quanto à raça/cor, pretos e pardos somam 46% dos usuários cadastrados na Rede Sampa Trans, percentual superior ao observado no conjunto da rede municipal (40%). A descentralização da oferta de PrEP e PEP em serviços de referência para essa população contribui para a redução de barreiras de acesso, promoção da equidade e fortalecimento da prevenção combinada. Como perspectivas, destacam-se a ampliação da estratégia para 100% das unidades da rede e o fortalecimento das ações de educação permanente dos profissionais.
HIV, Prevenção Combinada, Pessoas transgênero.
LUIS HENRIQUE MOURA FERREIRA, ADRIANO QUEIROZ DA SILVA, MARCIA APARECIDA FLORIANO DE SOUZA, FERNANDA MEDEIROS BORGES BUENO, NARCISIO RIOS OLIVEIRA, MARIA CRISTINA ABBATE