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A raiva é uma doença viral aguda, causada por vírus do gênero Lyssavirus, com letalidade próxima de 100%. A transmissão ocorre principalmente por mordedura, arranhadura ou contato da saliva de animais infectados com pele lesionada ou mucosas. Embora seja prevenível por meio da profilaxia pós exposição (PEP), a avaliação adequada do acidente e a correta indicação de vacina e/ou soro antirrábico (SAR) são fundamentais para evitar casos humanos. O Brasil enfrenta atualmente escassez de SAR, o que exige uso criterioso e racional desse imunobiológico, garantindo sua disponibilidade para situações com real indicação técnica. A prescrição inadequada do soro, especialmente quando os animais agressores são cães e gatos e não apresentam sinais sugestivos de raiva, compromete a gestão dos estoques. O uso desnecessário pode levar ao desabastecimento e prejudicar pacientes com exposições de maior risco, como os agredidos por animais silvestres, que apresentam maior probabilidade de transmissão e efetivamente necessitam da administração do soro conforme protocolo.
Analisar as condutas adotadas nos atendimentos antirrábicos humanos no município de Mogi das Cruzes, com ênfase na indicação do soro antirrábico, diante do cenário de escassez nacional e municipal do imunobiológico, a fim de verificar a conformidade com os protocolos vigentes, promover o uso racional dos estoques disponíveis e garantir o tratamento dos casos de maior risco, especialmente aqueles decorrentes de exposições a animais silvestres. O estudo foi proposto a partir da identificação de solicitação de SAR em situações em que o animal agressor eram cães e gatos, onde se estes animais são passiveis de observação a conduta correta seria somente a observação por 10 dias, levantando a necessidade de avaliar a adequação das condutas adotadas, fortalecer as orientações técnicas às equipes de saúde e assegurar a proteção efetiva da população frente ao risco da raiva humana.
Realizou-se análise das fichas de notificação de atendimento (FN) antirrábico humano, com foco nos casos que tiveram solicitação de soro antirrábico. Como estratégia complementar, foi realizada busca ativa dos pacientes notificados no mês de dezembro/2025, por meio de contato via WhatsApp e telefone. Durante os contatos, foi solicitado que o paciente relatasse a história do acidente, sem mencionar ao mesmo as informações que constam na FN. A partir do relato recebido foi possível comparar as informações recebidas com as descritas na FN.
Foram analisadas 50 FN que envolveram cães e gatos. Entre os 50 casos, tentamos contato com os pacientes na qual 14 não conseguimos contato e 36 nos retornaram, dentre os 36, 12 apresentavam possibilidade de observação do animal, e 24 apresentaram indicação compatível com o protocolo vigente. A análise dos casos em que a história diverge entre o relato e a descrição da FN, e, portanto, poderiam ter sido observados, representa 33,33% dos casos entrevistados, elencando como hipótese a omissão de dados ou fornecimento de informações incompletas no momento do atendimento.
A iniciativa possibilitou identificar situações em que o soro antirrábico foi solicitado mesmo diante da possibilidade de observação do animal agressor, evidenciando a necessidade de reforço das orientações técnicas junto às equipes de saúde. Os achados reforçam a importância de melhorar a abordagem do paciente com o objetivo de conseguir uma história mais fiel, evitando a conclusão equivocada sobre a possibilidade de observação do animal, a fim de assegurar uma correta conduta.
Raiva, Soro antirrábico, Profilaxia pós exposição
LILIAN PERES MENDES, BEATRIZ FLORIANO DELFINO