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A dengue continua sendo um grave problema de saúde pública no Brasil, com mais de 6,5 milhões de casos prováveis em 2024, o maior número já registrado, representando um aumento de quase 300% em relação ao ano anterior. As mortes também atingiram recorde, com crescimento de cerca de 400%, totalizando 5.881 óbitos¹. O município de Luís Antônio se destacou como o município com maior incidência da região de Ribeirão Preto, sendo o bairro Jardim Vila Real II a área crítica em 2022, com 343 casos por 1.000 habitantes². Nesse contexto, foi realizada a dissertação Análise de Discurso sobre Dengue no Bairro com Maior Incidência da Doença em Luís Antônio, visando compreender como os moradores significam a dengue em suas vivências. Os resultados mostraram que a população associa a doença não apenas aos sintomas físicos, mas também a sentimentos de tristeza, medo e luto. Relatos como “A dengue é uma doença triste” e “Me arrepio de pensar” evidenciam o impacto emocional e a vulnerabilidade percebida pelos moradores². Esses achados indicaram a necessidade de uma abordagem biopsicossocial no combate à dengue, considerando aspectos ambientais, clínicos e emocionais. Em resposta, o município requalificou as práticas dos seis Agentes de Combate a Endemias (ACE), promovendo uma mudança na abordagem durante as visitas e passou a incluir não apenas a eliminação dos criadouros, mas também a escuta acolhedora aos moradores, fortalecendo o vínculo entre ACE e moradores.
Geral: •Promover a qualificação das visitas domiciliares realizadas pelos Agentes de Combate a Endemias (ACE) por meio de treinamento baseado na análise de discurso, integrando uma abordagem biopsicossocial no combate à dengue. Específicos: •Sensibilizar os ACE sobre os aspectos emocionais e sociais associados à dengue, identificados nos discursos dos moradores. •Capacitar os agentes para adotar práticas de escuta ativa e comunicação empática durante as visitas. •Fortalecer o vínculo entre os agentes e a comunidade, estimulando o engajamento da população nas ações preventivas.
A experiência teve início em setembro de 2024, liderada pela Secretaria Municipal de Saúde de Luís Antônio, em parceria com o setor de Vigilância em Saúde. O projeto foi estruturado para requalificar as práticas dos ACE por meio de estratégias formativas e mudanças na abordagem das visitas domiciliares. O desenho metodológico seguiu duas etapas principais: 1.Sensibilização dos ACE: Os seis ACE participaram de encontros formativos presenciais realizados pela equipe de Vigilância em Saúde. Nessas reuniões, foram apresentados os principais resultados da dissertação Análise de Discurso sobre Dengue no Bairro com Maior Incidência da Doença em Luís Antônio. A sensibilização abordou a forma como a comunidade percebe a dengue, com destaque para os aspectos emocionais associados à doença, como medo, impotência e luto. Fontes de informação e instrumentos utilizados: •Dados qualitativos coletados por meio de entrevistas com moradores durante a dissertação. •Apresentações audiovisuais com trechos das falas dos moradores. •Dinâmicas de grupo para reflexão dos ACE sobre suas práticas cotidianas. 2.Mudança na Abordagem das Visitas: Após a sensibilização, os ACE foram incentivados a modificar suas abordagens durante as visitas domiciliares, integrando práticas de escuta ativa e acolhimento. Além das orientações tradicionais para eliminação de criadouros do mosquito Aedes aegypti, os agentes passaram a incluir perguntas sobre como os moradores se sentiam em relação à doença.
A requalificação das visitas domiciliares gerou resultados perceptíveis na interação entre os ACE e a comunidade, evidenciando a eficácia da nova abordagem. •Mudança no olhar dos ACE: Todos os seis agentes (100%) relataram maior sensibilidade ao abordar os moradores, priorizando a escuta e o acolhimento. Um agente destacou: “Antes eu só procurava os focos. Agora eu pergunto como eles estão se sentindo em relação à doença, e muitos desabafam, estão nos recepcionando melhor nas casas.” •Fortalecimento do vínculo entre ACE e comunidade: Os moradores passaram a receber melhor os agentes, compartilhando suas experiências e sentimentos relacionados à dengue. Esse diálogo fortaleceu o vínculo entre a equipe de Vigilância em Saúde e a população, criando um ambiente de confiança mútua e colaboração ativa nas ações preventivas. •Receptividade aprimorada: Todos os ACE (100%) relataram uma melhora significativa na receptividade dos moradores após a adoção da nova abordagem, demonstrando o impacto positivo da escuta ativa e do acolhimento no fortalecimento das relações entre profissionais e comunidade.
A experiência evidenciou a importância de integrar dimensões psicossociais às práticas tradicionais de vigilância em saúde. Ao incorporar aspectos biopsicossociais nas visitas domiciliares, os ACE conseguiram fortalecer o vínculo com a população, promovendo um ambiente de escuta e acolhimento, promovendo visitas mais humanizadas. O treinamento baseado na análise de discurso se mostrou uma ferramenta eficaz para ampliar o escopo de atuação dos agentes. A iniciativa não apenas melhorou a receptividade dos moradores, mas também evidenciou que o combate à dengue vai além da eliminação dos criadouros do mosquito, exigindo uma abordagem biopsicossocial que reconheça as experiências emocionais e sociais da população afetada. Como recomendação, destaca-se a importância de incorporar a escuta ativa e o acolhimento nas rotinas dos ACE em outros municípios, especialmente em áreas com alta incidência de dengue. O caso de Luís Antônio exemplifica como abordagens simples, de baixo custo e centradas na humanização do cuidado podem gerar resultados valiosos, o fortalecimento do vínculo entre agentes e comunidade é essencial para o sucesso das ações preventivas e para a promoção da saúde de forma integral.
Dengue, Vigilância em Saúde, ACE, Biopsicossocial
IANA GRACIELI DE QUEIROZ, IANA GRACIELI DE QUEIROZ