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O município de Cotia, assim como o Estado de São Paulo, vivenciou nos últimos anos aumento expressivo no número de casos de Dengue, com destaque para os anos de 2024 e 2025. Em 2024, apesar do elevado número de casos confirmados (5.250), a letalidade manteve-se baixa (0,10); entretanto, em 2025 observou-se aumento da letalidade (0,45), com registro de cinco óbitos, dentre os 1067 casos confirmados de Dengue. Diante desse cenário, a Vigilância Epidemiológica identificou a necessidade de aprofundar a análise dos óbitos ocorridos, compreendendo-os como eventos sentinela para qualificação do cuidado no município. A experiência foi desenvolvida no âmbito da Vigilância Epidemiológica de Cotia, a partir de janeiro de 2025, envolvendo os profissionais das Unidades de Pronto Atendimento. A população beneficiada corresponde, de forma indireta, a todos os usuários da rede municipal de atenção à saúde, especialmente aqueles acometidos por Dengue e outras arboviroses. A iniciativa justifica-se por fortalecer a integração entre vigilância e assistência, subsidiando decisões organizacionais, qualificando fluxos de atendimento e contribuindo para a redução da letalidade, alinhando-se aos princípios da integralidade e da vigilância em saúde no SUS, conforme diretrizes nacionais de vigilância em saúde.
Analisar os óbitos por dengue ocorridos no município de Cotia no ano de 2025, identificando características epidemiológicas, clínicas e laboratoriais comuns, bem como pontos críticos na linha de cuidado. Subsidiar a tomada de decisão da gestão e das equipes assistenciais, visando o reconhecimento precoce de sinais de alarme, o aprimoramento do manejo clínico dos casos graves e a redução da letalidade por Dengue.
Trata-se de uma análise descritiva retrospectiva dos óbitos por dengue registrados em 2025 no município de Cotia. Foram utilizadas como fontes de informação a ficha de notificação individual do SINAN, o formulário de investigação de casos graves e óbitos por arboviroses, as Declarações de Óbito e os dados epidemiológicos do SINAN Dengue Online e do Núcleo de Informações Estratégicas em Saúde do Estado de São Paulo (NIES). Foram definidos eixos de análise contemplando sexo e idade, presença de comorbidades, sintomas iniciais, sinais de alarme, exames laboratoriais, sorotipo viral identificado, resultado inicial do teste rápido NS1, tempo de evolução da doença, causa do óbito. A partir da consolidação dos dados, realizou-se análise comparativa e síntese dos achados. Os resultados foram discutidos em reunião técnica com os Responsáveis Técnicos das Unidades de Pronto Atendimento do município, promovendo reflexão conjunta entre vigilância e assistência sobre os pontos críticos identificados e estratégias de qualificação do cuidado.
Em 2025, foram registrados cinco óbitos por dengue no município de Cotia, quatro em mulheres e um em homem, com idades entre 19 e 77 anos. Todos apresentavam comorbidades, como diabetes mellitus, hipertensão arterial, obesidade e puerpério. Os sintomas iniciais não diferiram dos quadros leves, predominando febre, mialgia e cefaleia. Contudo, a evolução para gravidade foi rápida, principalmente entre o 3º e o 6º dia de doença, período correspondente à fase crítica. Observou-se plaquetopenia acentuada e elevação do hematócrito em todos os casos, além de dor abdominal intensa, vômitos persistentes, hipotensão e sinais de choque. Três pacientes evoluíram com disfunção renal, caracterizando quadro compatível com a fase crítica descrita pela Organizacao Mundial da Saude. Em 2025, identificou-se a circulação do sorotipo DENV-2 no município, conforme monitoramento da Secretaria de Estado da Saude de Sao Paulo (SES-SP/NIES), sorotipo associado a maior gravidade. O teste rápido NS1 foi negativo em três dos cinco óbitos, reforçando a necessidade de manejo clínico baseado na avaliação e na classificação de risco, conforme orientações do Ministerio da Saude. Os achados subsidiaram a reorganização dos fluxos assistenciais e o fortalecimento da capacitação das equipes.
A análise evidenciou que a letalidade por Dengue em Cotia no ano de 2025 teve caráter multifatorial, relacionada à presença de comorbidades, à rápida progressão clínica de sinais de alarme e à circulação no município do sorotipo DENV-2. A análise dos óbitos como eventos sentinela mostrou-se estratégica para a Vigilância em Saúde, permitindo identificar fragilidades na linha de cuidado e orientar ações concretas junto à rede assistencial, em consonância com o modelo de vigilância integrada preconizado pelo Estado, Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde. É importante considerar, também que, os testes rápidos são ferramentas importantes, porém não substituem a avaliação clínica qualificada. A expectativa é que a experiência contribua para elaboração de manejos clínicos de Dengue visando a redução da letalidade que seja replicável para outras condições de interesse da Vigilância em Saúde no SUS.
Dengue, Óbito, Classificação de Risco
THAINY DE SOUZA DIAS, SILVANA APARECIDA SILVA, THAMIRES VIEIRA