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O uso de tecnologias digitais foi acelerado significativamente com o advento da pandemia do covid-19. Diante dessa transformação avassaladora, impôs-se uma mudança imensa na forma como a população interage, trabalha e acessa os serviços essenciais. Neste contexto, a população idosa enfrentou um desafio ainda maior, evidenciando a exclusão digital preexistente e, consequentemente, agravando o isolamento social. Apesar disso, é fundamental ressaltar que a tecnologia traz inúmeros benefícios para a população idosa, impactando-os de forma positiva, como: comunicação facilitada, autonomia, engajamento social, acesso a serviços essenciais e entretenimento. Dessa forma, a utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) tornou-se essencial para qualidade de vida e cidadania plena desse grupo. Diante do exposto, a Lei 10.741/03 que dispõe sobre o Estatuto da Pessoa Idosa reforça essa importância ao prever direitos que visam a preservação da saúde física e mental e o aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social, em condições de liberdade e dignidade.
Este trabalho objetiva possibilitar a inclusão digital da população idosa para exercício pleno da cidadania. Além disso, promover a autonomia no uso da tecnologia e ensinar práticas seguras no contexto digital e de proteção de dados pessoais.
A experiência foi iniciada em Fevereiro de 2023, na UBS – Gonzaga, no município de Santos/SP. O primeiro aspecto a ser ressaltado é que foram feitos convites verbais para os idosos, através das visitas domiciliares e durante a espera das consultas. Ademais, houve divulgação por meio de cartazes com elementos visuais do universo digital, contendo data e horário para reunião do grupo. É importante destacar que foram realizadas conversas informais para determinar o nível de habilidade digital apresentado pelos idosos. Diante desse contexto, foi criado um grupo no whatsapp e a realização do curso ocorreu por meio de encontros quinzenais, em uma sala equipada com televisão para projeção da imagem do celular, abordagem simples e entrega de material didático (textos passo a passo sobre a ferramenta estudada, ilustrações e canetas para anotações). Além disso, após cada explicação, eram propostas atividades práticas, nas quais cada participante em seu dispositivo aplicava o conhecimento adquirido, a fim de consolidar o aprendizado. O grupo consistia principalmente por mulheres idosas, na faixa etária de 66 a 92 anos e escolaridade variando do ensino fundamental ao superior. No entanto, um desafio significativo foi o ingresso após o início das aulas, de participantes em diferentes semanas. A fim de resolver esse problema e garantir a progressão do aprendizado, foi elaborado um cronograma detalhado, com uma sequência didática, dos primeiros passos até o aprofundamento dos aplicativos.
Inicialmente houve entusiasmo por parte da maioria dos integrantes, entretanto, notou-se que alguns manifestaram receio de não conseguir acompanhar o aprendizado e reter as informações. Embora todos possuíssem telefone celular, o nível de habilidade digital era preponderantemente baixo. Desta forma, o conteúdo abrangente capacitou os idosos a manusear as configurações básicas (tamanho da fonte, ajuste do brilho, volume), utilizar os botões de navegação e identificar os símbolos da interface. Além disso, adotar práticas de segurança digital como: jamais compartilhar senhas, manter sistema operacional e aplicativos atualizados, instalar antivírus, não abrir links desconhecidos, além de sempre verificar a procedência de links enviados por pessoas conhecidas. Ademais, aprenderam a gerenciar a agenda de contatos, realizar ligação telefônica e chamada de vídeo, bem como utilizar apps de uso comum, como whatsapp, youtube, app de transporte, dentre outros. Diante disso, foram surgindo relatos durante as aulas, como: Consegui abri o app do ônibus e procurar o horário, Ensinei minha vizinha entrar no remédio fácil, Consegui anexar o documento para enviar ao síndico, Professora, acredita que minha filha ficou surpresa que troquei o fundo de tela e ela não sabia fazer, Fiz uma ligação de vídeo para minha prima que eu não via há muito tempo; Consegui limpar imagens que estavam enchendo o telefone; Consegui fazer marcação de exame pela central de agendamentos”, dentre outros.
Em síntese, o uso da tecnologia não pode ser visto como dispensável para população idosa, mas sim como uma ferramenta essencial de conexão e transformação. Ela proporciona diversos benefícios, tais como: ganho de autonomia, aumento da autoestima, fortalecimento dos laços familiares, redução do isolamento social e, consequentemente melhora na qualidade de vida. Portanto, são necessárias estratégias inclusivas que abordem as necessidades cotidianas da população idosa. Para esse propósito, é fundamental a criação de materiais educativos claros e simples, que considerem as especificidades da terceira idade, a fim de favorecer um processo de envelhecimento saudável. Assim sendo, é fundamental que ocorra a continuidade dessas estratégias de inclusão digital e expansão das ações.
Inclusão Digital, Terceira Idade, Política Pública
CRISTINA SANTOS MORAIS