Siga a gente
Av. Angélica, 2466 - 17º Andar
Consolação - São Paulo / SP
CEP 01228-200
55 11 3083-7225
cosemssp@cosemssp.org.br
Estima-se que entre 2% e 4% da população mundial ouve vozes, sendo que um terço dessas pessoas acaba inserido no sistema psiquiátrico. Essa experiência, embora subjetiva e comum, é frequentemente compreendida sob a ótica biomédica, gerando sofrimento, isolamento e estigmatização. O Movimento Internacional de Ouvidores de Vozes surgiu, nos anos 1980, na Holanda, a partir da parceria entre o psiquiatra Marius Romme e a ouvidora de vozes Patsy Hage. O movimento propõe uma abordagem não patologizante da escuta de vozes, promovendo grupos de ajuda mútua e espaços seguros de escuta e acolhimento. Esses grupos visam romper com a lógica psiquiátrica tradicional, valorizando a singularidade dos sujeitos, suas narrativas e estratégias de enfrentamento, atuando como dispositivos terapêuticos que fortalecem o protagonismo e a autonomia. Neste contexto, o Grupo de Ouvidores de Vozes do CAPS Adulto III Alvorecer, em Guarulhos (SP), foi retomado em fevereiro de 2025, com o intuito de oferecer suporte e construir práticas de cuidado centradas na experiência vivida. Este trabalho busca relatar essa vivência, destacando os recursos, estratégias e metodologias adotadas desde o início do grupo.
Objetivo geral: Relatar a experiência de formação e condução do Grupo de Ouvidores de Vozes, iniciado em fevereiro de 2025, no CAPS Adulto III Alvorecer, localizado no município de Guarulhos (SP), destacando os recursos, estratégias e práticas adotadas no processo de escuta, acolhimento e cuidado junto aos participantes. Objetivos específicos Descrever o processo de criação e organização do grupo, desde seu planejamento inicial até o desenvolvimento dos encontros. Apresentar as metodologias e dispositivos utilizados para o acolhimento e expressão das experiências de ouvir vozes. Identificar os principais desafios e potencialidades observados no percurso do grupo. Refletir sobre as contribuições do grupo para o cuidado em saúde mental e para o fortalecimento da autonomia e protagonismo dos usuários. Compartilhar aprendizados e estratégias que possam inspirar outras equipes e serviços na implementação de grupos semelhantes.
Este relato de experiência foi construído a partir das vivências e observações realizadas no Grupo de Ouvidores de Vozes, criado em fevereiro de 2025 no CAPS Adulto III Alvorecer, localizado no município de Guarulhos (SP). O grupo é conduzido por profissionais da equipe interdisciplinar do serviço, em formato semi-aberto, com duração de 1h e encontros semanais, contando com a participação de usuários que relatam experiências de ouvir vozes. As informações apresentadas neste trabalho foram sistematizadas a partir de registros em diário de campo, discussões de equipe, relatos dos próprios participantes e observações diretas durante os encontros do grupo. A metodologia adotada é de caráter descritivo e qualitativo, com base na observação participante, buscando compreender e apresentar os recursos, estratégias e práticas desenvolvidas desde o início do grupo. O objetivo é valorizar a experiência como um dispositivo de cuidado e escuta no contexto da saúde mental comunitária.
Ao longo dos encontros, construíram-se estratégias coletivas para o enfrentamento da experiência de audição de vozes, partindo das histórias de vida e atividades significativas para os participantes, organizadas nos eixos a seguir: Convivendo com as vozes Diante do estigma, discutiram-se exemplos de figuras públicas que ouvem vozes, favorecendo a identificação e valorização das habilidades dos participantes. Um deles compartilhou sua vivência com desenho e criação de anime, mediando uma oficina que estimulou a expressão artística do grupo. As produções resultaram na exposição “Janelas da Liberdade”, promovendo reconhecimento e apropriação simbólica das obras. A grupalidade como redução do estigma Três encontros com familiares abordaram vínculos, sofrimento psíquico e comunicação. As famílias expressaram surpresa com a proposta do grupo, observando ganhos na autonomia, socialização e comunicação dos usuários. A voz como mensageira da história A escrita terapêutica foi utilizada para acessar memórias e emoções, por meio de escrita livre, desenhos e resgates biográficos. A atividade favoreceu o autoconhecimento, o processamento emocional e a ressignificação de vivências dolorosas, contribuindo para o cuidado em saúde mental.
A retomada do Grupo de Ouvidores de Vozes no CAPS Adulto III Alvorecer, em fevereiro de 2025, consolidou um espaço de escuta, acolhimento e construção coletiva do cuidado em saúde mental, centrado na valorização da singularidade e da experiência de ouvir vozes. O grupo se configurou como dispositivo terapêutico, promovendo ressignificação de vivências, fortalecimento da autonomia e desenvolvimento de estratégias de enfrentamento por meio da arte, escrita e diálogo. As ações foram organizadas em três eixos: expressão artística, participação familiar e escrita terapêutica. A proposta reafirma um cuidado ético, antimanicomial e transformador, rompendo com a lógica patologizante tradicional. Ouvir vozes passa a ser reconhecido como experiência legítima, que merece escuta e integração. O trabalho evidencia que o cuidado se fortalece quando há escuta qualificada e valorização da vivência, promovendo o protagonismo dos sujeitos em seus processos.
Ouvidores de vozes; Saúde Mental; Escuta;
RAVENA ARAUJO SILVA, GABRIELA AGNELLO MARTINEZ