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O Programa de Aprimoramento Multiprofissional em Hipertensão Arterial e Diabetes Mellitus é uma estratégia implementada em Ribeirão Preto que visa capacitar profissionais da saúde para promoção do cuidado integral às pessoas com hipertensão, diabetes e fatores de risco. Uma das atuações direciona-se ao tratamento da obesidade, quadro que favorece o acúmulo de gordura corporal e é fator de risco para o desenvolvimento da hipertensão e da diabetes. Um dos tratamentos efetivos para a obesidade é a cirurgia bariátrica, procedimento que, para além dos riscos de complicações físicas, necessita da adesão de novos hábitos de vida. Quando indicado tratamento cirúrgico, faz-se necessário o acompanhamento por uma equipe multidisciplinar, com participação do psicólogo, pois o êxito do procedimento está ligado à capacidade do indivíduo a se adaptar às mudanças emergentes. Apesar de intervenções orientadas à mudança de hábitos mostrarem-se efetivas no tratamento da obesidade, elas apresentam baixa adesão terapêutica devido a barreiras existentes entre os indivíduos afetados e profissionais responsáveis pelo tratamento, apontando necessidade de abordagens multiprofissionais. Por isso, o psicólogo contribui para a oferta de um olhar integral do sujeito que, constituído por aspectos socioeconômicos, culturais e subjetivos, pode ter diferentes dificuldades nesta adesão. O acolhimento delas, junto às estratégias de outros profissionais, pode, pois, facilitar a adesão ao tratamento da obesidade.
– Geral: Promover maior adesão à intervenção nutricional realizada dentro do PAMHADM em uma mulher com obesidade, pós bariátrica e que relata “comer emocional”. – Específicos: 1) Identificar crenças que sustentam comportamentos alimentares não saudáveis. 2) Fortalecer a autoestima para facilitar o processo de mudança de hábitos alimentares.
A paciente é uma uma mulher branca de 51 anos, casada e dona de casa. Foi encaminhada à psicologia por uma nutricionista do PAMHADM pela identificação de aspectos emocionais que impossibilitavam a adesão nutricional: obesidade grau III (IMC 44,06) com histórico de realização prévia de cirurgia bariátrica (6 anos atrás) e reganho de peso (mais de 10 kg), associado a humor deprimido, ansiedade e “comer emocional”. Foram realizados 8 atendimentos semiestruturados entre junho e setembro de 2023, com duração de 1h. Nos primeiros atendimentos foi oferecido a possibilidade dela descarregar suas principais angústias, por encontrar-se, naquele momento, bastante deprimida e desanimada com sua rotina, descrevendo extremo cansaço para realizar os afazeres domésticos. Também descreveu-se desmotivada para cuidar de si e de sua saúde. Sobre seu peso, descreveu que antes da bariátrica pesava 136kg, com ela alcançou os 90kg, e ao longo dos 6 anos seguintes teve um reganho gradativo do seu peso, pesando 103kg na primeira consulta. As próximas sessões foram mais estruturadas, tendo se buscado entender as crenças autocríticas relacionadas à sua desmotivação para seu autocuidado e para mudança de hábitos; refletido sobre a validade desses pensamentos; e diferenciado suas responsabilidades, disponibilidades e necessidades para ela poder definir melhor seus limites nas relações interpessoais. Também foram realizadas discussões com a nutricionista para produzir uma intervenção multiprofissional.
No início, a paciente acreditava que “deveria ser capaz de emagrecer sozinha” e que “não deveria precisar de psicólogo para estar bem”, e ignorava o impacto dos sintomas depressivos na dificultação de seu emagrecimento, atribuindo para si a responsabilidade de não conseguir emagrecer. Também nutria percepções rígidas sobre a alimentação, mostrando-se frustrada por não conseguir manter as mudanças que vinha realizando. Ao compartilhar todos esses pensamentos, foi possível refletir sobre a importância do suporte profissional nos processos vividos para fortalecer pensamentos mais flexíveis, e a não linearidade do processo de mudança de hábitos, marcada por tentativas e erros. A paciente também assumia com frequência responsabilidades externas e tinha dificuldade de negar solicitações mesmo quando isso a trazia prejuízos. Com o decorrer dos atendimentos, foi conseguindo começar a priorizar suas necessidades, como o cuidado de sua saúde, sendo bastante assídua em suas consultas. Nos últimos atendimentos realizados, a paciente revelou estar conseguindo se alimentar de modo mais consciente, organizando-se para preparar pratos saudáveis, o que a trouxe maior bem-estar. Em discussões com a nutricionista, esta revelou ter percebido mudanças no humor da paciente, tendo a recebido, nas últimas consultas, mais motivada e engajada com as suas orientações. A paciente também iniciou, no decorrer do atendimento psicológico, atividades físicas junto ao professor de Educação Física do PAMHADM.
Considerando a evolução da paciente no decorrer de seu acompanhamento dentro do PAMHADM, é perceptível a importância do encaminhamento à psicologia para a melhora na sua adesão à intervenção nutricional. Com o atendimento psicológico, ela pôde se deparar com aspectos emocionais que afetavam sua motivação para o tratamento, incapacitando-a na realização de mudanças alimentares. Apesar de seu peso ter se mantido semelhante ao longo deste primeiro momento, ela relatou melhora dos hábitos alimentares e de seu bem-estar, sendo esperado que a médio prazo a paciente consiga de fato emagrecer, ainda mais com o início da realização de atividades físicas supervisionadas pelo profissional de Educação Física. Nesse sentido, a maior adesão da paciente nas intervenções oferecidas no PAMHADM apontam o papel da Psicologia em poder catalisar mudanças à medida em que promove o cuidado de aspectos intrínsecos aos processos de promoção da saúde, produzindo um fortalecimento psíquico para a realização dessas mudanças.
Adesão terapêutica, Obesidade, Psicologia em Saúde
Alexandra Castilhos Gomes Amaral, Gustavo Leão Lucindo, Maria Eugênia Feierabend Gonçalves, Rute Aparecida Casas Garcia, Maria Teresa da Costa Gonçalves Torquato