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A Hanseníase é uma doença infectocontagiosa crônica, causada pelo Mycobacterium leprae, de notificação compulsória, com potencial de causar incapacidades físicas e estigma social quando não diagnosticada e tratada precocemente. Apesar da disponibilidade de tratamento efetivo e gratuito no Sistema Único de Saúde (SUS), o Brasil permanece entre os países com maior número de casos novos no mundo, mantendo a doença como problema relevante de saúde pública. A Estratégia Saúde da Família (ESF) assume papel estratégico na vigilância ativa, no reconhecimento de sinais e sintomas precoces e no manejo clínico dos casos, visando a detecção precoce e a interrupção da cadeia de transmissão e da prevenção de incapacidades. Nesse contexto, a experiência desenvolvida na Unidade de Saúde da Família (USF) Vargem Limpa, no município de Bauru-SP, ganha relevância ao exemplificar, na prática, o papel da ESF na identificação oportuna de um caso de Hanseníase negligenciado por 11 anos, em que a usuária passou por múltiplos serviços de saúde e não obteve diagnóstico. O caso passou em primeiro atendimento na unidade em Agosto/24, teve tratamento iniciado em Março/2025 e está em seguimento desde então. O relato contribui para a consolidação das diretrizes nacionais ao evidenciar como o SUS, por meio da ESF, pode operacionalizar a vigilância em saúde, o cuidado longitudinal e a coordenação da rede de atenção em um agravo considerado prioritário.
Relatar a experiência de identificação e diagnóstico de Hanseníase no território da ESF, destacando o papel da equipe na vigilância ativa e na coordenação do cuidado. – Identificar sinais clínicos sugestivos de Hanseníase durante ações de busca ativa e acompanhamento domiciliar; – Auxiliar na identificação de agravos de saúde negligenciados; – Promover acolhimento, orientação e acompanhamento do caso e de contatos intradomiciliares.
Usuária M.R.A., 58 anos, buscou atendimento na USF Vargem Limpa, no município de Bauru-SP, no contexto da ESF em Agosto/2024 com queixa de perda de sensibilidade térmica, tátil e dolorosa em membros superiores e inferiores há 11 anos. Usuária afirmava que já havia excluído diagnóstico de Hanseníase em seu estado natal – Ceará. Foi realizada anamnese completa e exame físico direcionado pela médica da unidade, evidenciando manchas com borda hiperemiada e centro hipocrômico em região lombar, xeróticas, com perda de sensibilidade térmica, além de espessamento bilateral de nervos ulnar e fibular superficial. Diante da suspeita diagnóstica de Hanseníase, procedeu-se à referência ao serviço secundário especializado para confirmação diagnóstica e definição do esquema terapêutico, mantendo-se a ESF como coordenadora do cuidado. O diagnóstico de Hanseníase multibacilar foi confirmado e a usuária está em tratamento no Instituto Lauro de Souza Lima com esquema alternativo de poliquimioterapia, bem como, para reação hansênica. Está em seguimento na USF para tratamento de outras comorbidades e promoção de saúde, e possui acompanhamento do Agente Comunitário de Saúde que auxiliou ainda na busca ativa dos contactantes. O acompanhamento incluiu registros sistemáticos em prontuário, articulação intersetorial quando necessário e monitoramento longitudinal pela equipe, com participação ativa do ACS nas visitas domiciliares e na orientação à família.
A experiência demonstrou a efetividade das ações da ESF na identificação precoce e no cuidado integral de agravos negligenciados. O caso da usuária M.R.A., que apresentava sintomas de Hanseníase há mais de uma década sem diagnóstico conclusivo, evidenciou a importância da escuta qualificada, da continuidade do cuidado e do olhar clínico ampliado da equipe. A avaliação detalhada realizada pela médica da unidade possibilitou a suspeita diagnóstica e o encaminhamento oportuno ao serviço de referência, a confirmação diagnóstica permitiu a instituição do tratamento correto e a remissão dos sintomas da usuária, assim como, prevenção de futuras incapacidades. A ESF manteve-se como coordenadora do cuidado, garantindo seguimento clínico mensal, acompanhamento de comorbidades e articulação intersetorial. Destacou-se ainda o papel do Agente Comunitário de Saúde nas visitas domiciliares, busca ativa de contatos intradomiciliares e ações educativas voltadas à sensibilização sobre sinais e sintomas da Hanseníase. Como resultado direto dessas ações, foram investigados todos os contatos domiciliares e realizadas atividades de educação em saúde junto à comunidade local, ampliando a vigilância ativa da doença no território. Esse processo contribuiu para fortalecer o vínculo entre equipe e usuária, melhorar a adesão terapêutica e consolidar a ESF como ponto de cuidado contínuo e resolutivo dentro da rede de atenção à saúde.
O caso descrito reforça a relevância da ESF como porta de entrada do sistema de saúde e coordenadora do cuidado no enfrentamento da Hanseníase e de outros agravos negligenciados. A detecção oportuna do caso de M.R.A. demonstra o impacto das práticas de vigilância ativa, da escuta qualificada e da atuação colaborativa entre os profissionais da equipe multiprofissional. A articulação entre diagnóstico clínico cuidadoso, acompanhamento longitudinal e educação em saúde teve efeitos positivos tanto para a usuária quanto para a comunidade, promovendo não apenas o tratamento da doença, mas também a prevenção de incapacidades e a redução do estigma social. A vivência também gerou aprendizado coletivo e aprimoramento dos fluxos internos da USF, estimulando capacitações sobre Hanseníase, aprimoramento de protocolos e fortalecimento das atividades de busca ativa no território. Sistematizar essa experiência subsidia a qualificação de processos de trabalho, a educação permanente das equipes e o fortalecimento de práticas resolutivas na ESF, alinhadas aos princípios da universalidade, integralidade e equidade do SUS.
Hanseníase
BEATRIZ NAVARRO SANCHES, GABRIELA BENJAMIN TOGASHI, NAYARA TOMAZI BATISTA