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Este relato apresenta os resultados do uso da musicalidade na clínica com crianças com TEA, utilizando-a como ferramenta terapêutica para o desenvolvimento da comunicação e de mediação com o laço social. A prática ocorreu ao longo do período de um ano (01/2023 a 01/2024) em uma unidade de Atenção Especializada no município de Bertioga/SP, utilizando como base técnicas psicológicas desenvolvidas nas pesquisas de Mestrado e de Doutorado (UNESP/SP) realizadas pelo autor deste trabalho, financiadas pelo Ministério da Educação (CAPES) e pelo Governo do Estado de São Paulo (FAPESP). O trabalho desenvolvido utilizou intervenções musicoterapêuticas nos atendimentos às crianças com TEA, tendo como base as estratégias das políticas públicas preconizadas pelas Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS). As PICS foram institucionalizadas pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no Sistema Único de Saúde (PNPIC), e são uma modalidade que investe em prevenção e promoção à saúde com o objetivo de evitar que as pessoas adoeçam física e psiquicamente. O uso da música nas PICS, por sua vez, se dá como uma prática expressiva integrativa que utiliza o som, o ritmo, a melodia e a harmonia como processo facilitador e promotor da comunicação, da relação, da aprendizagem, da mobilização, da expressão, da organização, entre outros objetivos terapêuticos relevantes, no sentido de atender necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas do indivíduo.
Objetivo Geral: Trabalhar os efeitos sensoriais das sonoridades na dinâmica psíquica das crianças com TEA, constituindo a musicalidade como meio de desenvolver a linguagem e ser capaz de estabelecer comunicabilidade no laço social. Objetivos específicos: a)Estimular o desenvolvimento da linguagem a partir das sonoridades, a partir de fenômenos acústicos musicais e de vocalizações nos processos de linguagem. b)Diminuir o embotamento psíquico e os mecanismos de defesa de crianças com TEA a partir da musicalidade. c)Reconstituir o uso da voz como via musicalizada de comunicação d)Estimular a constituição de discurso sonoro de crianças não-verbais.
O trabalho foi realizado no período de um ano no Serviço de Estimulação e Reintegração (SER) no município de Bertioga/SP, em sala com estrutura de isolamento acústico e com disponibilidade de instrumentos musicais. Os participantes foram crianças de até 5 anos, com diagnóstico de TEA conforme CID ou DSM. Foram utilizados instrumentos musicais como ferramentas de intervenção e potencializadores psíquicos. Os atendimentos foram registrados em Diário de Campo, para fundamentar o Projeto Terapêutico Singular (PTS) dos pacientes, assim como para investigar as relações de qualidade rítmica e harmônica das crianças. Foram realizadas sessões de Apresentação de Sonoridades e sessões de Interação Instrumental. As primeiras se pautaram na apresentação de timbres, sonoridades, melodias e ritmos, observando as reações dos pacientes e as possíveis respostas aos estímulos sonoros. As segundas se pautaram no manuseio livre de instrumentos musicais pelo psicólogo e pelos pacientes. Estimulou-se as interações corporais dos pacientes com os instrumentos e as sonoridades produzidas. Foram utilizados instrumentos que exigem apenas movimentos simples e percussivos, entre eles, os Chocalhos, os Tambores e o Hangdrum. Os Chocalhos e os Tambores demonstram facilidade de manuseio para a possibilidade de criação de ritmos. Já o Hangdrum, foi utilizado pela sua especificidade de timbre, de harmonia, de manuseio simples, de não-exigência de motricidade fina e de alta capacidade de vibração tátil.
A prática clínica deste trabalho demonstrou que as crianças com quadros severos de déficits de comunicação e linguagem tiveram evolução significativa na constituição de discurso com comunicabilidade, incluindo até a verbalização de crianças que eram não-verbais. Crianças com quadros de atraso de fala e com janela de desenvolvimento tendente ao Transtorno do Espectro Autista tiveram regressão significativa da sintomatologia, que, em diversos casos, permitiram a reavaliação diagnóstica clínica e a realocação do caso para um quadro de Transtornos Específicos do Desenvolvimento da Fala e da Linguagem, evitando, assim, um diagnóstico falso-positivo em TEA. Houveram também casos de crianças que não utilizavam a palavra e desenvolveram a comunicação verbal como principal via de linguagem, ou, casos de crianças que passaram a utilizar a vocalização sem palavras como meio de expressão de intencionalidade e de estados emocionais. Além destes, casos de crianças que passaram a utilizar frases melódicas como meio de apontar necessidades que antes não eram verbalizadas também foram registrados. Por fim, houveram também casos de crianças que tiveram disparada do Desenvolvimento Neuropsicomotor (ou encerramento de Atraso do Desenvolvimento Neuropsicomotor) a partir da estimulação da integração sensorial auditiva, tátil e visual, pelas técnicas corporais de uso de instrumentos musicais.
Este trabalho demonstra a viabilidade de utilizar os efeitos da música na prática com pessoas autistas, apontando uma possibilidade de comunicação alternativa, livre no modo particular de inventar e usar a linguagem, permitindo a cada sujeito existir e se expressar à sua maneira. O ritmo é abordado como qualidade fundamental da sensorialidade e da percepção corporal e psíquica dos seres humanos, possibilitando o estabelecimento de espaço intersubjetivo de constituição de linguagem. Retoma-se, a partir dessa proposta clínica, modos de coexistência de dois ou mais estados de comunicação pela via não-verbal. Por isso, o fenômeno musical possibilita ao psiquismo da criança com TEA direcionar sua intencionalidade ao outro, criando condições de trocas intersubjetivas que não são interrompidas pela lógica da significação. A prática demonstrou que o elemento fundamental para uma clínica que lida com o autismo se dá em torno da musicalidade, pois a música demonstra ser um tipo de discurso que articula o mais singular do sujeito com o que é compartilhável da vida coletiva. A musicalidade dos sons influi e cria soluções de mediação entre a experiência subjetiva particular do sujeito autista e os modos de organização do laço social.
Autismo, Música, Psicologia, Musicoterapia, PICS
BRUNO GONÇALVES DOS SANTOS